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Rafael Reis


"Meião de Roberto Carlos" eliminou o Brasil da Copa-2006: verdade ou lenda?

O lateral-esquerdo Roberto Carlos se diverte durante treino da seleção brasileira em Weggis, na Suíça  - Arquivo/AP
O lateral-esquerdo Roberto Carlos se diverte durante treino da seleção brasileira em Weggis, na Suíça Imagem: Arquivo/AP
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

30/04/2020 04h00

Enquanto Zinédine Zidane se prepara para bater a falta, Thierry Henry está sozinho no meio da área brasileira, em clara posição de impedimento. Pouco antes da cobrança, ele recua e volta até a linha de defensores brasileiros para ficar em condição legal.

Só depois que a bola sai dos pés do camisa 10 o atacante francês avança novamente. Livre de marcação, ele aproveita o cruzamento para balançar as redes defendidas por Dida. Enquanto toda essa movimentação acontece, Roberto Carlos está parado na entrada da área brasileira, primeiro com a mão na altura dos joelhos e, depois, em pé.

Os dois parágrafos acima descrevem o lance que definiu a vitória por 1 a 0 da França sobre o Brasil, nas quartas de final da Copa do Mundo de 2006, que tirou a seleção dirigida por Carlos Alberto Parreira do Mundial da Alemanha.

Roberto Carlos, o homem mais próximo de Henry quando ele saiu da posição de impedimento, foi apontado como o vilão da eliminação. E mais: a versão que mais ganhou força é que o então lateral se distraiu da marcação porque estava ajeitando o meião.

Mesmo em uma época em que as redes sociais ainda não tinham a força atual (o Orkut era a única com um número relevante de usuários no Brasil), essa história rapidamente se espalhou pelo país e entrou para o nosso folclore da bola.

Mas será que o meião do então astro do Real Madrid foi mesmo o responsável direto pela queda da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2006? Ou essa é apenas mais uma das várias lendas urbanas que tanto sucesso fazem no mundo do futebol, como o autismo de Lionel Messi e a transexualidade de Marco Verratti?

Com a palavra, o próprio Roberto Carlos. "Falou-se em relação à meia, que é a maior babaquice. Desculpe até o termo. É a maior mentira que existe no mundo do futebol", afirmou o ex-lateral, em entrevista à TV Globo, em 2014.

O veterano de três Copas do Mundo (também jogou em 1998 e 2002) passou anos reclamando de Galvão Bueno e o apontando como responsável pela disseminação da versão.

"Pessoas mal intencionadas acabaram criando uma história, mas elas um dia terão um momento de sofrimento e vão precisar de alguém para ajudá-las. Na época da Copa do Mundo, essa pessoa de quem falei há pouco fez minha mãe chorar", disse, em 2010, quando defendia o Corinthians.

Roberto Carlos, na Copa do Mundo-2006 - Reprodução/SporTV - Reprodução/SporTV
Imagem: Reprodução/SporTV

Ainda em 2006, logo depois do jogo contra a França, Roberto Carlos justificou que ficou parado no lance porque os jogadores haviam combinado que fariam uma linha de impedimento para tentar invalidar o ataque - o que não aconteceu.

Outra questão a ser considerada é que o ex-lateral de 1,68 m certamente não era o homem designado para marcar Henry, 20 centímetros mais alto, em uma lance em que a bola seria levantada para dentro da área.

Se o francês acabou sobrando para o "vilão" brasileiro foi porque seus companheiros mais altos de defesa falharam e deixaram que o atacante rival se movimentasse livremente em suas costas.

Por fim, o posicionamento de Roberto Carlos na jogada (já fora da área, próximo à meia-lua e como homem mais à esquerda da linha brasileira) indica que sua maior preocupação era com um eventual rebote, e não com o cruzamento em si. Além disso, era ele também o homem que Dida provavelmente acionaria se agarrasse a bola e pudesse armar o contra-ataque.

Por tudo isso, dá para concluir que depositar a responsabilidade pela derrota brasileira em 2006 toda nas costas do ex-lateral é um exagero danado. Vê-lo parado e com as mãos no joelho (ou meião) enquanto Henry parte para o gol pode até causar uma revolta. Mas a culpa, definitivamente, não foi só dele.

Rafael Reis