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Rafael Reis


Pandemia encarece estrangeiros e deve limitar gringos no futebol brasileiro

Argentino Kannemann, do Grêmio, é um dos estrangeiros que atuam no Brasil - LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA
Argentino Kannemann, do Grêmio, é um dos estrangeiros que atuam no Brasil Imagem: LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

29/04/2020 04h20

Em 2019, 73 jogadores estrangeiros disputaram pelo menos uma partida do Campeonato Brasileiro. Neste ano, independente do formato que a competição tenha, esse número dificilmente será batido.

Por causa dos efeitos da pandemia do novo coronavírus (covid-19), os clubes do único país pentacampeão mundial de futebol devem reduzir consideravelmente o fluxo de contratação de atletas gringos.

O principal motivo é a pesada desvalorização sofrida pela moeda brasileira, o real, que foi acelerada e amplificada com a proliferação da doença e as medidas colocadas em prática para enfrentá-la.

O dólar começou o ano valendo R$ 4,02. Agora, já está cotado em R$ 5,51. A alta acumulada no período é de 37,1%. O euro seguiu o mesmo caminho. Seu preço saltou de R$ 4,49, no começo de janeiro, para os atuais R$ 5,97 - 32,9% de aumento em quatro meses.

Com isso, ficou muito mais difícil contratar jogadores estrangeiros e até mesmo repatriar brasileiros que estejam jogando no exterior.

Isso porque as negociações entre clubes de diferentes países pelos direitos econômicos de atletas costumam ser realizadas em dólares ou euros. Além disso, jogadores gringos muitas vezes pedem que seus salários sejam fixados em alguma dessa moedas para não ficarem reféns do fluxo cambial.

Ou seja, para arcar com o salário de um jogador argentino que ganha US$ 100 mil mensalmente, um clube brasileiro teria de desembolsar R$ 402 mil em janeiro. Hoje, esse valor já estaria na casa dos R$ 551 mil.

E isso em um cenário de retração de receitas, já que os times não estão faturando com bilheteria e correm risco de ficar sem parte do dinheiro previsto como pagamento pelos direitos de transmissão de suas partidas.

É claro que, como o coronavírus e a crise econômica gerada por ele são globais, é natural que alguns jogadores aceitem reduzir seus salários em euros/dólares. No entanto, é pouco provável que essa redução seja maior que a desvalorização da moeda brasileira.

Além da questão financeira, há ainda uma dificuldade extra para os clubes daqui interessados em contratar jogadores estrangeiros: as barreiras sanitárias utilizadas para conter a disseminação do vírus.

Vários países, inclusive o Brasil, estão com fronteiras fechadas para a entrada de estrangeiros (em alguns casos de todas as nações, em outros de apenas algumas nacionalidades), o que tem dificultado, burocratizado e encarecido bastante as viagens internacionais.

O futebol brasileiro está paralisado desde meados de março, quando ainda estavam sendo disputados os Estaduais, e ainda não há uma previsão de quando será retomado. A Libertadores e a Copa Sul-Americana também estão suspensas por tempo indeterminado.

De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), a pandemia do coronavírus já infectou pelo menos 3 milhões de pessoas em quase todos os países do mundo. O número de mortos está na casa dos 200 mil.

Esses dados, no entanto, estão abaixo do real, já que há uma grande quantidade de subnotificações e casos assintomáticos da doença.

Rafael Reis