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Rafael Reis


Pandemia faz salários de astros do futebol parecerem ainda mais criminosos

Ao lado da mulher e de um dos filhos, Cristiano Ronaldo comemora seu 35º aniversário - Reprodução/Instagram
Ao lado da mulher e de um dos filhos, Cristiano Ronaldo comemora seu 35º aniversário Imagem: Reprodução/Instagram
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

22/03/2020 04h00

Confesso que durante muito tempo fui um defensor dos salários estratosféricos recebidos pelos jogadores que ocupam a parte de cima da pirâmide técnico-econômica do futebol mundial.

Quando alguém questionava sobre o que eu pensava sobre o tema, minha resposta era sempre a mesma: eles ganham muito dinheiro porque fazem parte de um mercado que movimenta bilhões. E melhor que essa grana vá para as contas deles, os verdadeiros trabalhadores da modalidade, do que para intermediários, como dirigentes, cartolas e donos de clubes.

Mas, em tempos de coronavírus, quando cada centavo investido faz diferença no combate da doença e nos deixa mais próximos de uma vacina/remédio que pode salvar milhões de vidas, já não dá mais para pensar assim.

Os horrores da pandemia mudaram minha forma de enxergar esse cenário. Agora, acho indecente que Cristiano Ronaldo, Messi e Neymar ganhem mais de 30 milhões de euros anuais (cerca de R$ 13,5 milhões/mês) só de salário, fora aquilo que recebem dos seus patrocinadores.

Sei também que eles são exceções e que a maioria dos jogadores profissionais de futebol do planeta fatura pouco, está sempre ameaçada pelo risco do desemprego e convive com o fantasma dos atrasos salariais.

Mas mesmo essas exceções não precisavam lucrar tanto assim. Se eles ganhassem algo em torno de 10% do que realmente recebem, ainda sim seriam milionários e não precisariam se preocupar com dinheiro depois de que pendurassem as chuteiras.

Sim, eles produzem entretenimento da mais alta qualidade qualidade e dão alegria para crianças, adolescentes e adultos espalhados pelo mundo. Mas há coisas bem mais importantes no planeta do que o entretenimento, por melhor que ele seja.

Na última semana, viralizou nas redes sociais uma suposta fala de uma bióloga espanhola chamada Leda Beck, que explicita bastante essa questão.

"Vocês pagam 1 milhão de euros por mês (R$ 5,4 milhões) para um jogador de futebol e 1.800 euros (cerca de R$ 9.700) para um pesquisador em biologia. Agora, vocês querem um tratamento para o covid-19. Vão procurar Cristiano Ronaldo e Messi. Eles vão encontrar a cura para vocês."

Apesar de Leda Beck não existir e da postagem ser apenas mais um dos vários fanfics que anônimos criam para tentar bombar nas redes, o conteúdo da declaração acima não está errado.

Os jogadores de futebol de primeiro e segundo escalão realmente ganham mais dinheiro do que deveriam, enquanto os investimentos em saúde e ciência ficam bastante aquém da real necessidade da população.

É claro que Cristiano Ronaldo, Messi, Neymar e todos os outros atletas multimilionários não têm culpa disso. Mas eles, assim como todo mundo que têm dinheiro sobrando neste momento de crise global, possuem sim uma obrigação moral: fazer doações significativas aos mais necessitados e ajudar o planeta a vencer com o menor dano possível a pandemia de covid-19.

Rafael Reis