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Rafael Reis


A história do técnico que salvou a vida de judeus e foi morto por nazistas

István Tóth-Potya, treinador húngaro que foi assassinado pela polícia nazista - Reprodução
István Tóth-Potya, treinador húngaro que foi assassinado pela polícia nazista Imagem: Reprodução
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

24/02/2020 04h00

István Tóth-Potya era um técnico à frente do seu tempo. Há pouco mais de 90 anos, o húngaro já implantava em seus times o conceito de pré-temporada, forçava a barra nos treinos físicos, fazia avaliações individuais dos jogadores e incentivava seus comandados a não guardarem posição e se movimentarem pelo campo todo.

O sucesso veio em forma de títulos e oportunidades profissionais. Ainda na década de 1920, o húngaro emendou três títulos consecutivos pelo Ferencváros. Em 1931, comandou a poderosa Inter de Milão. Na Itália, também trabalhou na Triestina.

Poderia ter sido de Tóth-Potya a honra de dirigir a seleção húngara de Ferenc Púskas e Sándor Kócsis que fez história nas décadas de 1940 e 1950. Mas o horror da Segunda Guerra Mundial não deixou.

Mas, antes que essa oportunidade batesse em sua porta, o treinador foi assassinado pela Gestapo, a polícia secreta da Alemanha durante o governo nazista.

Tóth-Potya tinha acabado de completar 53 anos quando foi capturado pelos aliados de Adolf Hitler, no final de 1944. No dia 6 de fevereiro do ano seguinte, pouco menos de três meses antes do suicídio do ditador germânico, ele foi fuzilado.

O "crime" cometido pelo técnico revolucionário foi, na verdade, um ato humanitário. Durante o período da ocupação alemã na Hungria, ele montou uma rede clandestina para abrigar e proteger judeus que estavam sendo perseguidos pelos nazistas

Ao lado de Géza Kertész, seu amigo dos tempos em que jogaram juntos no Ferencváros, o húngaro conseguiu esconder centenas de judeus em instituições religiosas e casas de apoiadores da causa.

O ato da dupla salvou muitas vidas, mas foi tratado pelos nazistas como traição, o que fez com eles fossem presos e, posteriormente, assassinados.

Antes de se tornar um dos treinadores mais inventivos das primeiras décadas do século passado, Tóth-Potya fez carreira como atacante na Hungria e até disputou os Jogos Olímpicos de Estocolmo-1912.

Ele atuou até meados da década de 1920, quando passou a acumular as funções de técnico e jogador do Ferencváros para, na sequência, ser efetivado apenas como treinador.

Em 2018, o clube onde ele passou a maior parte da carreira aproveitou um jogo contra uma equipe israelense (Maccabi Tel Aviv), pelas fases preliminares da Liga Europa, para prestar uma homenagem ao herói de tantos judeus.

"Ao lembrar de István Tóth, nós estamos homenageando uma figura célebre do esporte, que se levantou contra a violência, o ódio e a discriminação. Sua vida e comportamento são um exemplo a ser seguido", disse o presidente da Federação das Comunidades Judias da Hungria, Andras Heisler.

Rafael Reis