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Vinte e Dois

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

O que está por trás do péssimo desempenho de Julius Randle nos playoffs

Julius Randle durante jogo do New York Knicks contra o Atlanta Hawks nos playoffs da NBA - Kevin C. Cox/Getty Images/AFP
Julius Randle durante jogo do New York Knicks contra o Atlanta Hawks nos playoffs da NBA Imagem: Kevin C. Cox/Getty Images/AFP

Vitor Camargo

Colunista do UOL

02/06/2021 04h00

Pouco mais de uma semana atrás, Julius Randle recebeu das mãos do seu filho pequeno o troféu de Most Improved Player, ou Jogador que Mais Evoluiu na Temporada. Foi um momento bonito, e que coroou uma espetacular temporada tanto para Randle como para o seu time, o New York Knicks.

E o prêmio foi mais do que merecido. Randle fez um salto de jogador talentoso para legítima estrela em 2021, uma das evoluções mais importantes na NBA e o o principal motor por trás de uma das melhores histórias da temporada, o surpreendente Knicks. Sem um armador tradicional, Randle foi o maestro do time tanto na pontuação como na criação, e sua espetacular temporada rendeu ao jogador não apenas o MIP, como provavelmente uma vaga em times All-NBA.

O único problema do prêmio foi seu timing. Randle recebeu o troféu no meio de uma série de playoffs contra o Atlanta Hawks na qual ele está tendo um desempenho pavoroso: sua média de pontos despencou de 26 para 16 por jogo, arremessando 27% (!!!) de quadra e 33% de três pontos. O prêmio de MIP pode ser apenas para a temporada regular, mas ver um jogador que acaba de ser premiado tendo uma pós-temporada tão terrível sempre vai inevitavelmente atrair as atenções e criar narrativas, especialmente considerando que o Knicks está prestes a ser eliminado. Nas redes sociais, as explicações para a performance pífia de Randle variam de "amarelou" a "sentiu os playoffs". E, embora o aspecto psicológico seja importante em qualquer esporte, essas explicações são sempre muito rasas e insuficientes.

A imagem emblemática das dificuldades de Randle nessa série tem sido a do ala-pivô tentando e errando arremessos difíceis por cima de marcação dupla. Mas em geral o tipo de chutes que Randle está dando não é o problema: ele na verdade está tentando mais arremessos perto do aro nessa série (e menos da meia distância) em relação à temporada regular, exatamente o que você QUER que ele faça... e, mesmo assim, os resultados despencaram.

Mas, olhando mais a fundo, algo se destaca. Na temporada regular, cerca de 40% dos arremessos de Randle foram classificados como "contestados", com um defensor a menos de 4 pés dele. Esses números subiram para 51% nos playoffs. Mais notavelmente, apenas 12% dos seus chutes de três na temporada regular foram contestados, mas, nos playoffs, 33% das bolas longas tiveram um marcador na sua cara. Em outras palavras, Randle podia estar dando os mesmos tipos de chutes da temporada regular, mas agora estava fazendo com muito menos espaço e mais bem marcado.

Passando dos números para o vídeo, o problema salta aos olhos. É notável a quantidade de arremessos contestados que Randle está forçando ao invés de deixar o ataque fluir normalmente, envolver os companheiros e buscar chutes mais livres ou de melhor aproveitamento.

É fácil colocar isso simplesmente na conta de Randle, dizer que ele está afobado e não está tomando boas decisões, o que é verdade até certo ponto - especialmente conforme a série foi avançando e o atleta começou a forçar cada vez mais bolas difíceis para tentar embalar no tranco. Mas o principal motivo é porque esse são exatamente os arremessos que o Hawks quer que Randle tente, e preparou sua defesa para isso.

Como o Knicks carece de armadores capazes de organizar o jogo, muito do seu ataque depende de Randle iniciar as jogadas, atacando seu defensor, forçando a dobra e soltando a bola para o resto do time trabalhar em vantagem. O Hawks, portanto, se preparou para conter exatamente esse ataque inicial. Eles estão direcionando Randle para a direita (ele é canhoto), posicionando ajuda defensiva próxima, cortando seus caminhos para infiltrar até o aro e convidando os chutes contestados, enquanto posicionam o resto da defesa para tirar os passes fáceis. O Hawks está incentivando a infiltração individual de Randle e trabalhando para fechar o resto das jogadas a partir disso.

Essa tática defensiva é muito parecida com o que o Heat tentou ano passado contra Giannis. As dificuldades de Randle, no entanto, estão revelando um problema muito maior com o Knicks, o mesmo que levou ao colapso do Bucks em 2020: a falta de disposição ou de capacidade para se adaptar. Quando falei da varrida do Bucks, eu escrevi sobre como os playoffs são diferentes da temporada regular. Ao invés de um estilo consistente e bem definido, o que conta na pós-temporada é a variabilidade, a capacidade do time de encontrar respostas e se adaptar ao adversário. Times como o Knicks, que dependem muito de um estilo mais rígido, tendem a ser presa fácil para os esquemas mais sofisticados dos playoffs.

E, para piorar, Tom Thibodeau, técnico do Knicks, tem se mostrado extremamente incapaz de realizar os ajustes necessários, mesmo conforme Atlanta roubava o mando de quadra e o controle da série logo no Jogo 1. Demorou um jogo e meio para Thibs perceber que não poderia jogar com o fraquíssimo Elfrid Payton e colocar Derrick Rose como titular, mas esse foi praticamente o único ajuste significativo que o Knicks fez no ataque. Em alguns momentos, como no final do Jogo 2, o Knicks colocou mais arremessadores em quadra e executou algumas ações iniciais para melhorar o espaçamento e dar a Randle arremessos melhores e menos contestados. Parecia que o time finalmente tinha entendido o que precisa fazer... só para o Knicks voltar ao normal dois minutos depois e continuar repetindo o que não deu certo em nenhum momento anterior.

Um exemplo claro do despreparo do Knicks para o basquete de pós-temporada tem a ver com Trae Young. Ele é um craque no ataque, mas também é um dos piores defensores da NBA. O Knicks precisa tirar proveito disso. Nos playoffs, é preciso se adaptar para atacar a fraqueza do adversário, e considerando o quanto o Knicks tem sofrido para criar ataque na série, Young deveria ser um alvo gigantesco para ser atacado a cada posse de bola.

Mas, por três jogos e meio, o Knicks absolutamente se recusou a fazer o óbvio. O Hawks tem escondido Trae Young em Reggie Bullock, e na grande maioria das posses, Bullock simplesmente fica parado na zona morta enquanto três defensores marcam Randle. Quando Young é envolvido defensivamente, por acaso ou design, o Knicks tem gerado seus melhores arremessos na série:

Porém não tem sido nem de longe o suficiente. No Jogo 4, o Knicks até pareceu finalmente ter se dado conta de que precisa atacar Trae defensivamente - até para fazer ele se desgastar mais para o outro lado da quadra - e tentou forçar algumas ações para cima dele, mas mesmo isso foi feito de forma tão pobre e sem criatividade que chama a atenção:

Nessa posse, o Knicks tenta duas vezes forçar uma troca que coloque Young na bola. Mas sem ações secundárias, sem movimento, nada além de um pick-and-roll estagnado no alto do arco, fica fácil demais para a defesa do Hawks destrocar a marcação e esconder Trae - e a posse acaba em outro arremesso contestado. O Knicks pode ter entendido que precisa atacar Trae, mas claramente não tem a menor ideia de como fazer isso.

E, para piorar, mesmo quando o Knicks consegue o missmatches, isso tem acontecido bastante.

Os problemas ofensivos de Randle e do Knicks são parte de uma questão maior. A essa altura, porém, o time já está preso dentro da própria cabeça. Os jogadores sabem que tentar o de sempre não está funcionando, mas também não têm ideia do que devem fazer no lugar, e com isso o time acaba caindo no desespero e forçando arremessos ruins para tentar resolver o problema na marra - o que só piora a situação. Thibodeau não parece ter uma solução, e a essa altura talvez já seja tarde demais.

Considerando que o Knicks nem era cotado como time de playoffs neste ano, eu acho que a franquia não deve se importar tanto com uma eliminação precoce. Foi a primeira experiência da maior parte do elenco em pós-temporada, incluindo Randle, e alguns chutes que o time normalmente acerta simplesmente não estão caindo. Mas também é verdade que a derrota deixou claros os problemas da equipe, tanto com a construção de elenco como das limitações do seu técnico. São fatores que o time precisa ter em mente - se não quer que eles se repitam no futuro - conforme dá os próximos passos na reconstrução.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL