PUBLICIDADE
Topo

Vinte e Dois

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

O caos e a insanidade que colocaram o Jogo 4 das Finais na história da NBA

Giannis Antetokounmpo (34), do Milwaukee Bucks, dá um toco em Deandre Ayton (22), do Phoenix Suns, no final do jogo 4 das Finais da NBA - Jeff Hanisch-USA TODAY Sport
Giannis Antetokounmpo (34), do Milwaukee Bucks, dá um toco em Deandre Ayton (22), do Phoenix Suns, no final do jogo 4 das Finais da NBA Imagem: Jeff Hanisch-USA TODAY Sport
Conteúdo exclusivo para assinantes

Vitor Camargo

Colunista do UOL

16/07/2021 04h00

A maior jogada defensiva da história das Finais da NBA aconteceu 64 anos atrás, durante o Jogo 7 das Finais de 1957. Ela foi feita por Bill Russell, lendário pivô do Boston Celtics, amplamente considerado o maior defensor que o esporte já viu. Mas, como esse jogo não teve transmissão televisiva, simplesmente não existe registro em vídeos da jogada em questão - o motivo pelo qual ela sempre acaba esquecida nas discussões.

O lance aconteceu nos segundos finais do Jogo 7 das Finais, entre Boston Celtics e Saint Louis (hoje Atlanta) Hawks. Boston perdia por dois pontos com cerca de dez segundos no relógio, quando Bill Russell cortou para a cesta e fez uma bandeja para empatar o jogo, mas ele estava indo tão rápido que seu impulso o levou para trás da cesta e fez o pivô cair na torcida. Os Hawks rapidamente repuseram a bola em jogo e atravessaram a quadra com velocidade, se aproveitando da vantagem numérica para dar ao ala Jack Coleman uma bandeja no último segundo para vencer o título para Saint Louis. Só que, enquanto isso, Bill Russell se levantou, cruzou a quadra em poucas passadas e voou pelos ares para bloquear o arremesso de Coleman no aro, dando o toco no estouro do cronômetro, impedindo o título dos Hawks e levando o jogo para a prorrogação - onde Boston venceria o primeiro dos 11 anéis que conquistou com o pivô. Apesar da falta de vídeos, todos que presenciaram a jogada descrevem o toco de Russell como um feito sobre-humano de capacidade atlética, presença de espírito e inteligência de jogo, o tipo de jogada que fica marcado em você pelo resto da vida.

E, 64 anos depois, no Jogo 4 das Finais de 2021, Giannis Antetokounmpo submeteu para o Louvre sua própria obra-prima defensiva, o toco para cima de DeAndre Ayton que imediatamente entra para o Panteão das maiores jogadas defensivas da história da NBA. Eu poderia gastar 10.000 palavras descrevendo o que foi assistir a esse toco, mas o vídeo fala tudo por si só.

Em 17 anos assistindo à NBA, essa foi talvez a jogada mais surreal que eu já vi em uma quadra de basquete. Cada vez que eu vejo o vídeo, eu ainda não consigo acreditar que realmente aconteceu. A pura combinação de dimensões físicas, capacidade atlética, leitura de jogo, agilidade mental, presença de espírito e noção de tempo e espaço necessária para executar essa jogada é inacreditável. Giannis ainda está abaixado, olhando na direção contrária, quando a bola está no ar e Ayton saltando, esticado, para enterrada - e, de alguma maneira, Giannis em um movimento só consegue girar, localizar a bola, saltar no tempo certo, encontrar a bola no ar e dar o toco em cima de um dos jogadores mais fortes de todo o basquete para impedir que o Phoenix Suns empatasse o jogo, faltando um minuto e quinze para o fim da partida. Milwaukee venceu, empatou a série e agora volta embalado para Phoenix. Foi uma jogada sobre-humana, que mostra os limites do que o ser humano é capaz, e eu vou me lembrar dela pelo resto dos meus dias. Ah, e vale lembrar que Giannis é o cara que, quinze dias atrás, achou que sua temporada estava terminada depois de ver seu joelho literalmente dobrando para o lado errado. Então teve isso também.

O toco de Giannis já entrou para a história do basquete e vai ficar ainda maior caso Milwaukee consiga vencer esse título, mas também foi um resumo perfeito do que foi um dos jogos mais caóticos, insanos e divertidos de Finais de NBA que eu me lembro de assistir. Parte do que eu amo sobre basquete é a parte racional do esporte: as táticas, os ajustes, o jogo de xadrez entre os técnicos que tenta colocar seus jogadores nas melhores situações possíveis enquanto impede o adversário de fazer o mesmo. Se você acompanha esse espaço com alguma frequência, sabe que eu estou sempre falando a respeito, inclusive fazendo várias análises sobre essas Finais: como a defesa dos Bucks precisou se ajustar após o Jogo 1, como Milwaukee assumiu o controle tático da série mas foi vítima de alguns fatores fora da curva no Jogo 2 (e como eles se normalizaram no Jogo 3 para dar aos Bucks a vitória), como Giannis se tornou uma força imparável no garrafão e uma que deixa Phoenix com poucas opções. Tudo isso é uma parte grande e fundamental do basquete.

Mas existe também um outro lado que faz do basquete tão delicioso, que é o que acabamos vendo no Jogo 4: quando todo o senso de lógica e racionalidade é jogado pela janela, o caos toma conta, e de repente dez dos jogadores mais talentosos do planeta precisam se virar em tempo real para lidar com o imprevisível o melhor possível. Ninguém se prepara para situações como esta, mas você ainda precisa passar por elas e tentar sair com a vitória; o jogo fica feio, mais brigado que jogado, mas ainda existe uma poesia própria em ver como isso se desenrola, e como os jogadores respondem a essa adversidade.

Honestamente, se fosse para pegar todos os fatores desse jogo que aconteceram totalmente fora da curva e impossíveis de se prever ou planejar ao redor, dava para escrever uma coluna inteira. Tivemos Khris Middleton e Devin Booker explodindo ambos para 40 pontos, com Booker em especial acertando uma série de arremessos absurdos e impossíveis sobre marcação perfeita, e Middleton sozinho anotando tantos pontos no quarto período quanto os cinco titulares dos Suns juntos (14). Os Bucks arremessaram 40% de quadra e 24% de trás da linha dos três pontos, e ainda saíram com a vitória. Giannis teve seu pior jogo na série, e ainda acabou com 28-14-8 e a jogada defensiva das Finais, pois Giannis. Jrue Holiday arremessou 4-20, errou mais uma série de bandejas, e não acertou nenhuma bola de três - na verdade, tirando Middleton, nenhum dos titulares dos Bucks acertou uma cesta de três na partida. Chris Paul, um dos maiores armadores da história da NBA, teve talvez a pior partida da sua carreira no Jogo 4, que incluiu tropeçar e cometer um turnover na posse decisiva. Devin Booker, aliás, chegou a cometer uma das faltas mais óbvias da história do basquete, que deveria ter sido sua sexta e portanto expulsão de quadra, mas acabou sendo ignorada pelos juízes... só para Booker errar os dois arremessos decisivos para os Suns em um tipo próprio de justiça poética. É impossível assimilar e processar tudo isso só usando a lógica; por vezes, nos resta aceitar que as coisas simplesmente acontecem, e tirar o melhor disso.

E essa talvez seja a minha estatística favorita do Jogo 4: se você pegar os tipos de arremessos dados pelos Suns - considerando quem arremessou, distância do marcador, lugar em quadra, etc - na partida, a expectativa de aproveitamento nesses arremessos era de 47,4% em eFG%; ao invés disso, o time arremessou 55,8%, ou seja, o time acertou MUITO mais arremessos do que deveria dadas as chances criadas. Por outro lado, os Bucks tiveram eFG% esperado de 51,7% e arremessaram apenas 43,8% - ou seja, eles geraram ótimos arremessos que simplesmente não caíram. E os Bucks de alguma forma ganharam esse jogo! É um dos melhores exemplos possíveis de se dar da natureza caótica, completamente insana e imprevisível que ajuda a fazer do basquete um esporte tão apaixonante, e que fez desse Jogo 4 tão divertido de se assistir.

Você pode, e até certo ponto deve, atribuir esse resultado a alguns fatores intangíveis para os Bucks: sua resiliência em face da adversidade, a energia e esforço dos dois lados da quadra, sua capacidade de reação, todas facetas que eram usadas como crítica ao time dos Bucks anteriormente. E tudo isso tem uma certa verdade: Milwaukee não deveria sobreviver a um jogo tão ruim de Holiday, ainda mais com Giannis tendo seu pior jogo da série e o time em geral arremessando tão mal; Milwaukee teve inúmeras chances de desistir, de se entregar, de aceitar a derrota, e não o fez. Ao invés disso, continuaram lutando e encontraram formas de vencer. Ajuda que Giannis teve duas jogadas defensivas gigantes nos minutos finais, e que Middleton acertou as cestas decisivas quando o time mais precisou (de novo), mas mesmo para o jogo chegar apertado nesse ponto os Bucks precisaram superar um monte de adversidades (várias por culpa deles próprios, diga-se de passagem) que muitos não acreditavam que o time seria capaz.

Mas, acima de tudo, o que acontece é que você simplesmente precisa ser capaz de vencer algumas dessas brigas de foice na NBA. Todo time que quer ser campeão passa por momentos assim, onde toda a parte lógica emperra e você precisa arrancar a vitória na marra - e, para os Bucks, aconteceu de ser justo no momento crítico, o jogo que poderia ser a diferença entre a virtual eliminação e empatar a série. E eles venceram, e fizeram o que precisavam para se recolocar no jogo: agora as Finais voltam para Phoenix empatadas, e são os Bucks que tem o embalo para tentar finalmente passar à frente no Jogo 5. Eles já mostraram que eram capazes de fazer isso com um ótimo basquete no Jogo 3, e agora também que podem fazer isso jogando feio, duro e na força de vontade.

O torcedor dos Bucks tem muitos motivos para otimismo nesse momento.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL