PUBLICIDADE
Topo

Vinte e Dois

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Giannis Antetokounmpo está dominando as Finais, e os Suns não têm resposta

Giannis Antetokounmpo, do Milwaukee Bucks, finaliza durante jogo contra o Phoenix Suns na final da NBA - Jeff Hanisch/USA TODAY Sports
Giannis Antetokounmpo, do Milwaukee Bucks, finaliza durante jogo contra o Phoenix Suns na final da NBA Imagem: Jeff Hanisch/USA TODAY Sports
Conteúdo exclusivo para assinantes

Vitor Camargo

Colunista do UOL

14/07/2021 04h00

Esses são os números de Giannis Antetokounmpo nas Finais da NBA até aqui, apesar de estar jogando com uma lesão no joelho:

Jogo 1: 20 pontos, 17 rebotes, 4 assistências.
Jogo 2: 42 pontos, 12 rebotes, 4 assistências.
Jogo 3: 41 pontos, 13 rebotes, 6 assistências.

O grego é o primeiro jogador desde Shaquille O'Neal a ter jogos consecutivos de 40 pontos e 10 rebotes nas Finais da NBA. Ele também já tem mais jogos de 40 pontos em Finais do que Kobe Bryant, Wilt Chamberlain, Kareem Abdul-Jabbar, Kevin Durant, Larry Bird, Tim Duncan e Stephen Curry. Nesses três jogos, Giannis ficou em quadra 113 minutos, e os Bucks venceram esses minutos por 24 pontos; nos 31 minutos que esteve no banco, no entanto, Milwaukee perdeu por 27.

E não é como se estivéssemos falando de um João Ninguém dominando as Finais. Giannis foi duas vezes MVP e defensor do ano, mas ainda assim, o que ele está fazendo nessas Finais parece ter levado tudo a um novo nível, diferente do que já tínhamos visto do camisa 34. Ele está dominando dos dois lados da quadra no nível mais alto do esporte contra um EXCELENTE time dos Suns, e se Milwaukee vai para o Jogo 4 com esperanças de igualar a série, Giannis e suas atuações são o principal motivo disso nem sequer ser possível. E Phoenix, até aqui, não parece ter resposta para o grego.

Menos de um ano atrás, parecia que o manual de como parar Giannis nos playoffs já tinha sido escrito: congestione o garrafão, coloque o máximo de corpos possíveis entre ele e a cesta, e obrigue Giannis a decidir entre passar a bola para seus companheiros meia-boca, chutar de fora (onde ele é ruim) ou mergulhar contra três defensores e arriscar uma falta de ataque, turnover ou arremesso contestado. Nós até vimos os Nets fazerem isso com certo sucesso esse ano, mas o fato de não ter dado certo para Miami, Atlanta e agora para Phoenix é uma prova não só da evolução de Giannis, mas dos Bucks como um todo.

Parte da equação é fácil: mais arremessadores em quadra obriga os defensores adversários a abrir mais espaço para Giannis, impedindo que executem tão bem essa estratégia de congestionar o garrafão, ou então castigando melhor a defesa que se comprometer demais a tirar a bola das suas mãos. Foi esse o motivo que levou Milwaukee a dar tantas escolhas de Draft para trocar Eric Bledsoe por Jrue Holiday, a focar no desenvolvimento do arremesso de fora de Pat Connaughton e Donte DiVicenzo, e em trazer arremessadores como Bryn Forbes e Bobby Portis para o elenco. Esse aumento de espaçamento facilita demais para Giannis se mover no garrafão, e usar toda sua agilidade, explosão e tamanho para conseguir cestas fáceis.

E também ajuda quando Milwaukee, ao invés de simplesmente dar a bola para Giannis em isolamento e deixar ele atacar uma defesa totalmente montada, tenta... sabe... executar um pouco de ataque de verdade. Giannis é excelente se movendo sem a bola, e se os Bucks conseguem manter a defesa ocupada com outra ação para permitir ao grego encontrar os espaços na defesa e receber a bola em movimento, não é humanamente possível parar Giannis. Esses são, a meu ver, os momentos que o grego está no seu melhor e mais dominante, e o puro terror que ele evoca nas defesas cortando para a cesta abrem espaço para o resto do time sem ele precisar tocar na bola.

Mas a evolução do próprio Giannis como jogador também diz muito sobre o quão mais difícil é parar o seu jogo e o dos Bucks. A mais óbvia das mudanças, e talvez a mais importante, é uma que muita gente pedia desde o ano retrasado: Giannis sendo mais usado como o jogador que faz o corta-luz no pick-and-roll. Até ano passado, Milwaukee costumava colocar seu astro com a bola nas mãos para criar no PnR, o que era fácil de defender: times simplesmente recuavam os dois defensores envolvidos para o garrafão, dando o chute de meia distância para Giannis. Quando você usa Giannis no corta-luz, no entanto, a coisa muda de figura. São pouquíssimos os jogadores capazes de trocar a marcação para cima do grego, e sua ameaça de cortar para a cesta e receber uma ponte-aérea congela qualquer defesa, abrindo espaços para quem tem a bola —e, caso esse seja o foco da defesa, Giannis consegue espaço para causar seu estrago no garrafão como de costume.

Ele também se tornou muito mais refinado atacando o aro de frente. Embora ainda possa ser um pouco robótico nessas infiltrações, usando em excesso seu movimento de giro e sem tantas opções no poste baixo, Giannis foi aprendendo a usar cada vez melhor sua combinação de agilidade e força quando defendido individualmente por um marcador à distância, evitando (na maioria das vezes) a tentação de usar esse espaço para dar arremessos ruins e, ao invés disso, atacar o aro e conseguir pontos fáceis. Pode não ser a combinação mais bonita de movimentos, mas sem dúvida tem sido eficiente.

E todo esse tipo de evolução é o que nos trouxe até aqui, e que levanta a pergunta que Monty Williams lhe pagará alguns milhões se você souber responder: como você para o homem?

Talvez a resposta seja que você não precisa: tente não ser completamente destruído por ele, deixe Giannis fazer seus pontos e bater seus lances livres, e pare o resto do time. Foi basicamente o que aconteceu com os Suns no Jogo 2, e dada a enorme irregularidade dos outros astros dos Bucks (Middleton e Holiday) você pode sobreviver até que relativamente bem nesse cenário, mesmo que Giannis faça seus 40 pontos —Phoenix, afinal, lidera a série por 2-1. Mas essa tática também diminui sua margem de erro, e quando Middleton e Holiday estão bem —como no Jogo 3—, você corre o risco de ser atropelado por completo.

A estratégia de Phoenix para defender Giannis, de modo geral, se assemelha muito ao que todos os times tentaram fazer até aqui nos playoffs: colocar seu pivô para marcar Antetokounmpo. E, taticamente, realmente faz sentido: como Giannis não é uma ameaça para arremessar de fora, isso permite que você mantenha seu pivô perto da cesta para proteger o aro, ao invés de precisar caçar Brook Lopez ou Bobby Portis pelo perímetro. Ao mesmo tempo, você coloca seu jogador fisicamente mais forte para marcar Giannis, impedindo que ele seja atropelado perto do aro. No papel, é o que mais faz sentido.

Mas essa tática também tem um risco importante. Se a melhor forma de defender Giannis é maximizando os jogadores entre ele e o aro, colocar o pivô logo em cima dele tira a segunda linha de defesa perto do aro. Em outras palavras, se Giannis conseguir bater seu defensor primário, não tem nenhum jogador para ajudar perto do aro —você depende totalmente da capacidade do jogador em questão de conseguir marcar Giannis no um contra um para não ceder bandejas fáceis. E embora os Suns tivessem um dos jogadores mais adequados da NBA para esse papel em Ayton —que fez um trabalho excelente em situação semelhante contra Anthony Davis e depois Nikola Jokic— e o pivô TENHA feito um bom trabalho defendendo Giannis dentro do humanamente possível...

... não é suficiente.

Isso ainda gera um problema a mais para Phoenix porque arrisca sobrecarregar Ayton com faltas, e o pivô tem sido, talvez, o jogador mais taticamente importante da equipe desde a semifinal contra os Nuggets. Phoenix tem sido destruído nos minutos que Ayton não passa em quadra (a lesão de Dario Saric só piora a situação), e nós vimos o que aconteceu no Jogo 3 quando ele saiu por excesso de faltas. Phoenix não pode se dar ao luxo de ver Ayton ser destruído por Giannis E perdendo tempo no banco por esse motivo.

Uma das soluções seria deixar Crowder —que fez um trabalho muito bom defendendo Giannis pelo Miami Heat ano passado— no grego e usar Ayton como a ajuda defensiva, tentando sobrecarregar o camisa 34 no garrafão. Isso seria um grande risco porque significaria que Ayton não estaria marcando Lopez ou Portis no perímetro, e os Bucks teriam muito mais facilidade para rodar a bola e achar bons chutes para seus coadjuvantes —o que por sua vez tornaria muito mais fácil para esses secundários entrarem no jogo, que é talvez o grande problema dos Bucks.

Por ora, eu acredito que os Suns preferem que fique como está: Giannis fazendo 40 pontos individualmente, mas forçando todo o resto dos Bucks a bater uma marcação apertada para poder embalar —e, se Middleton e Holiday conseguirem dominar o jogo mesmo assim, paciência. São as Finais da NBA, você precisa assumir algum risco, e a meu ver, a melhor opção aqui é realmente forçar os coadjuvantes dos Bucks a vencerem uma marcação apertada.

Mas a margem de erro nas Finais é minúscula, e caso os Bucks vençam o Jogo 4 para empatar a série e continuem a forçar a mão dos Suns, talvez acabe obrigando Monty Williams a fazer mudanças mais agressivas. Phoenix tem o melhor time nas Finais, mas Milwaukee tem o melhor jogador, e é nele que estão apostando suas fichas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL