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Vinte e Dois

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Derrotas consecutivas acendem sinal de alerta na seleção americana

Kevin Durant, dos Estados Unidos, conversa com Joe Ingles, da Austrália, durante amistoso - Ethan Miller/Getty Images/AFP
Kevin Durant, dos Estados Unidos, conversa com Joe Ingles, da Austrália, durante amistoso Imagem: Ethan Miller/Getty Images/AFP
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Vitor Camargo

Colunista do UOL

13/07/2021 12h44

No dia 24 de julho de 1992, o chamado "Dream Team" dos Estados Unidos enfrentou a França em um amistoso antes dos Jogos Olímpicos de Barcelona. A partida, disputada em Monte Carlo, foi a primeira que a seleção de basquete masculina dos Estados Unidos disputou usando atletas da NBA, após a proibição a jogadores profissionais ser derrubada em 1991. O lendário esquadrão norte-americano, liderado por Michael Jordan, Magic Johnson e Larry Bird venceu os franceses por 111 a 71 para iniciar sua arrancada rumo ao ouro olímpico na Espanha.

Entre essa data e semana passada, a seleção masculina de basquete dos EUA disputou ao todo 56 amistosos com sua seleção profissional. Nessas partidas, foram 54 vitórias contra apenas duas derrotas. Por mais que amistosos muitas vezes sejam usados como fase de testes para os americanos e levados muito a sério pelos adversários, esse dado ainda reflete muito da grande dominação do basquete dos EUA nas competições internacionais desde que começaram a levar os jogadores da NBA para o basquete FIBA. E, também, ajuda a entender a situação de pânico que tem começado a se instaurar ao redor da seleção ao ver o time perder seus primeiros dois amistosos desse ciclo, primeiro para a Nigéria e depois para a Austrália. Mesmo sendo apenas amistosos, a seleção americana simplesmente não perde amistosos na sua história... e, agora, perdeu dois consecutivos. Simples assim, está ligado o sinal de alerta.

Agora, antes de mais nada, é importante destacar alguns fatores. Os EUA estão desfalcados de três jogadores importantes do seu esquadrão, com Devin Booker, Khris Middleton e Jrue Holiday ainda jogando pelos seus times da NBA, e devem se juntar à seleção apenas depois das Finais (o que pode, sim, significar a perda do primeiro jogo das Olimpíadas caso as Finais cheguem a 7 jogos). Os EUA também aproveitaram esses jogos para rodar o elenco e fazer testes, longe de usar uma rotação "oficial"; é só ver que o time escalou Jerami Grant como titular contra a Austrália, um jogador que em circunstâncias normais dificilmente entraria muito em quadra nessa seleção. Em outras palavras, o time que jogou os amistosos está longe ainda em forma e conteúdo de ser o que vai disputar o ouro em Tóquio. E não é como se as derrotas fossem para seleções de terceiro escalão: a Austrália é a terceira colocada no ranking da FIBA e favorita a medalha nos Jogos Olímpicos, e a Nigéria é uma seleção em ascensão que conta com oito jogadores de NBA no seu time.

Ainda assim, é dos Estados Unidos que falamos, e eles sempre serão avaliados em uma curva diferente quando o assunto é basquete - e com bons motivos. Nenhuma outras seleção se compara em termos de talento, e a expectativa histórica é de que isso sempre vá falar mais alto no final; algo que, em geral, os resultados históricos tendem a corroborar. Nesse sentido, é compreensível porque as derrotas nos amistosos levantam alguma preocupação, e ainda que os fatores já citados mostrem que é cedo para pânico completo, há alguns pontos já conhecidos que foram um fator nas derrotas.

O principal deles, o mais conhecido e temido pelos americanos, é a falta de coesão da sua seleção. E isso não só é visível, mas fácil de explicar: no caso de outras potências como Austrália, Espanha, Argentina, França ou Sérvia, o desenvolvimento dos seus jogadores se da dentro de uma direção bem definida, com uma identidade clara e uma "escolha" dentro da qual todos os jogadores tendem a se encaixar; quando esses melhores jogadores se juntam, portanto, existe uma harmonia e química no estilo de jogo que faz com que seu talento em quadra seja maximizado e elevado.

Isso não é verdade no caso dos Estados Unidos. Lá, não existe uma influência direta a federação, ou um desenvolvimento mais uniforme dos jogadores: com AAUs, torneios desde a base e um foco óbvio na NBA - um campeonato cujas regras são diferentes da FIBA - não existe essa mesma coesão entre os jogadores ou com um estilo de basquete em comum, o que geralmente coloca as seleções dos EUA em um dilema difícil: apostar no talento bruto dos jogadores, seu grande trunfo sobre o resto do mundo, ou tentar construir um elenco mais coeso. A primeira opção funcionou por vezes, mas também esteve por trás de alguns dos maiores colapsos da seleção (2004, por exemplo). Em geral, os melhores resultados são quando os dois conseguem se equilibrar, mas não é tão fácil quanto parece.

E essa seleção tem esse problema em alto grau. O elenco tem uma enorme carência por jogadores de criação e armação, para começar: Damian Lillard é o único armador de ofício no time, e mesmo ele é muito mais voltado para pontuação que armação. Os EUA tem dois passadores de elite no garrafão em Draymond Green e Bam Adebayo, mas ambos não são bons chutadores e congestionam os já apertados espaços do basquete FIBA, o que tira sua efetividade. Além disso, o time é focado demais em grandes pontuadores individuais, especialistas em atacar no um-contra-um, mas esse é um estilio que esse mesmo menor espaçamento torna menos eficiente na seleção, e sem criadores ou jogadores de conexão, os EUA mostraram um basquete bastante estagnado desse lado da bola, incapaz de rodar a laranja em busca de bons chutes como os melhores times da FIBA fazem.

Historicamente, os EUA já mostraram repetidas vezes que são capazes de superar isso na base do puro talento, mas esse é outro porém do basquete FIBA: as diferenças de regras agem contra o talento NBA que os EUA têm. Com a quadra menor, linha de três mais próxima e espaçamento mais apertado, o basquete FIBA valoriza demais a movimentação de bola contínua, versatilidade dos pivôs e chutes de fora, aspectos que geralmente não estão no cerne do estilo dos principais jogadores norte-americanos, enquanto - como já dito antes - tendem a limitar algumas áreas onde os americanos levam clara superioridade, como na capacidade atlética ou atacando individualmente contra espaços menores. Essa questão estilística ajuda a minimizar o gap de talento dos americanos, ainda mais falando de elencos montados com problemas de encaixe como é o desse ano, e conforme o resto do mundo avança no basquete, não é absurdo acreditar que aos poucos a vantagem dos EUA no esporte vai caindo cada vez mais -não a ponto de não serem mais favoritos, claro, mas reduzindo esse favoritismo e, por consequência, a margem para erros dos EUA. Eu não acho que derrotas em amistosos consecutivos são o novo normal depois de 54-2 nos últimos vinte anos, mas ele diz algo sobre um efeito maior no basquete internacional.

No fim do dia, os EUA tem, sim, motivos para preocupação, tanto com o time desse ano como com o que isso diz sobre o futuro das competições FIBA para a seleção dos Estados Unidos. Mas, ao mesmo tempo, considerando tudo que foi dito e as circunstâncias atenuantes envolvidas nesses amistosos - time incompleto, experiências com elenco, contra ótimas seleções levando o jogo muito mais a sério - é cedo demais para começar a entrar em pânico. Jogando para valer, completos e focados, os EUA ainda entrarão nas Olimpíadas como os grandes favoritos à medalha de ouro - mas tudo indica que terão uma vida cada vez mais difícil para chegar até lá.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL