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Vinte e Dois

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Os 76ers têm um problema chamado Ben Simmons, e não vai ser fácil resolver

Ben Simmons, do Philadephia 76ers, aquece antes de jogo contra o Atlanta Hawks nos playoffs da NBA - Kevin C. Cox/Getty Images/AFP
Ben Simmons, do Philadephia 76ers, aquece antes de jogo contra o Atlanta Hawks nos playoffs da NBA Imagem: Kevin C. Cox/Getty Images/AFP
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Vitor Camargo

Colunista do UOL

09/07/2021 04h00

Com todo o respeito ao Atlanta Hawks, mas a eliminação do Philadelphia 76ers na segunda rodada foi uma gigantesca vergonha para uma das franquias mais tradicionais da NBA. Não por causa da derrota em si contra um adversário inferior, mas pela forma como se deu: Philadelphia entregou uma vantagem de 16 pontos no Jogo 4 com a chance de abrir 3 a 1, depois seguiu com um colapso épico no Jogo 5 ao entregar uma vantagem de 26 pontos e ainda perdeu o Jogo 7 em casa apesar do melhor jogador adversário, Trae Young, ter arremessado 5-23 de quadra. Como sempre acontece depois de uma decepção tão grande, imediatamente todos começaram a procurar culpados, e os Sixers têm um candidato perfeito para isso: Ben Simmons.

Os problemas que levaram a esse revés estão longe de serem apenas de Simmons. A irregularidade de Tobias Harris, a lesão de Embiid, a péssima série tática de Doc Rivers, problemas com seu banco de reservas... tudo isso contribuiu para esse colapso épico dos Sixers. É extremamente ingênuo resumir todos os problemas que levaram a esse resultado como sendo apenas culpa de um único jogador, e que sem ele tudo teria dado certo.

Ao mesmo tempo, é impossível negar que os problemas de Simmons estiveram em gigantesca evidência e tiveram um papel grande na derrota. Ele teve o pior aproveitamento em lances livres da história da pós-temporada com 34%, incluindo 33% contra os Hawks, e Atlanta fez faltas intencionais no armador para forçar erros e estancar o ataque dos Sixers. Nos quatro jogos finais da série - três derrotas de Philadelphia - Simmons não tentou NENHUM CHUTE nos quartos períodos, e sua hesitação em arremessar e o medo de sofrer faltas era visível.

Adicione a isso sua falta de arremesso de fora, e Atlanta pode usar seu defensor livremente em ajuda, congestionando o garrafão e atrapalhando Embiid. O ápice da frustração com a total inatividade e passividade de Simmons provavelmente foi a enterrada completamente livre que ele passou no Jogo 7 e acabou virando o símbolo do colapso dos 76ers.

Você pode argumentar que é injusto focar tanto nas falhas de um jogador ao invés do que ele faz bem - no caso de Simmons, seus ótimos passes, capacidade em transição e a ótima defesa que ajudou a segurar Trae Young -, mas os playoffs são assim: por vezes, o que você não consegue fazer importa mais do que o que consegue, conforme adversários focam em explorar cada ponto fraco que podem, e as limitações dos jogadores acabam ficando proporcionalmente maiores.

Isso é ainda mais complicado considerando o quão difícil é o encaixe entre as duas estrelas dos Sixers, Simmons e Embiid; Philly tentou mitigar isso cercando os dois de arremessadores e até mesmo fazendo o pivô chutar mais de três para tentar compensar pela falta de espaçamento que os dois juntos gera, mas contra defesas de playoffs não tem sido o suficiente. Adicione Tobias Harris, que apesar de chutar bem de três prefere jogar na meia distância e atacando o aro, e você tem a receita da estagnação ofensiva que tem sido o grande problema de Philadelphia nos últimos anos.

Isso gera uma questão bastante complicada que os Sixers vão precisar responder essa offseason: se esse núcleo de Embiid e Simmons não é suficiente para vencer um título, o que fazer com o armador? Em teoria, existe uma resposta pronta que é trocar Simmons por outra estrela equivalente, que encaixe melhor com o pivô e o resto do time. Você não perde em talento e elimina esses problemas táticos e de encaixe. No papel parece ótimo, mas na prática as coisas são bem mais complicadas que isso.

Para começar, todos os outros 29 times acabaram de ver o quão ruim Simmons pareceu contra Atlanta. Seu valor de troca está no seu ponto mais baixo, e se tem uma coisa que sabemos sobre o GM Daryl Morey é o rei de valorizar ativos e pegar pequenas vitórias em termos de valor a cada troca - um contrato não-garantido, uma escolha de segunda rodada -, sabendo que eventualmente isso tudo se acumula em algo maior. É difícil enxergar algum time no momento oferecendo um pacote à altura depois desses playoffs, e Morey detesta fazer trocas de uma posição de desvantagem.

Mas, ao mesmo tempo, tem o reverso da moeda: Philly tem um legítimo candidato a MVP entrando no seu auge em Embiid e precisa aproveitar enquanto pode. Se você está convencido de que o combo Simmons-Embiid é falhado demais para ganhar um título na NBA - e eu não estou dizendo que seja o caso, embora tenhamos cada vez mais evidências indicando que sim -, será que desperdiçar um ano inteiro insistindo nessa combinação pela falta de uma troca à altura é uma opção? Você vai arriscar jogar mais um ano fora na esperança de que talvez o armador reconstrua seu valor o suficiente? Também não é uma opção das mais agradáveis.

Não existe uma resposta certa para os Sixers nesse dilema; independente do que escolham, estarão assumindo um risco e terão que engolir algo que não gostariam. Eu, pessoalmente, acredito que uma troca no momento é o cenário mais provável; não tanto pela franquia em si, mas pelo jogador: Simmons claramente está, na falta de um termo melhor, "quebrado". Seus FTs sempre foram ruins, mas não a esse ponto. Sua aversão a pontuar é conhecida, mas não TANTO assim. Ele precisa de um novo começo, e eu imagino que seu agente Rich Paul gostaria que isso acontecesse longe da Philadelphia. Uma separação me parece o melhor para todos.

E se os Sixers decidirem seguir por esse caminho - e eles certamente irão pelo menos explorar opções -, eles encontrarão outras dificuldades pela frente. A primeira e mais básica é: o que o resto da NBA pensa de Simmons nesse momento? Ele não é um jogador de encaixe fácil - pelo contrário, talvez seja o encaixe mais difícil da NBA -, o que já limita bastante as opções, ainda mais considerando seu gigantesco contrato que envolve mais 4 anos e 140 milhões.

Essa pós-temporada também deixou claro que Simmons não é um armador; ele não tem o dinamismo e não ameaça defesas a partir do drible, uma obrigação na NBA moderna, especialmente nos playoffs. Ele parece ser mais adequado como um ala nos moldes Draymond Green: um jogador de garrafão capaz de defender cinco posições, acelerar o jogo em transição e agir como playmaker secundário depois de ações iniciais. Alguém que pode ter muito valor na situação certa, mas que é muito mais difícil de encaixar em elencos já prontos ou mesmo de funcionar como pilar inicial de uma reconstrução.

Esses aspectos por si só já limitariam bastante as opções de troca de Simmons, pois não são muitos os times que seriam capazes de encaixá-lo no seu elenco. Para piorar, você não pode buscar apenas interessados, mas também equipes que tenham algo real para trocar de volta para valer a pena para os Sixers, que querem vencer o título agora. Encontrar franquias que se encaixem nessas duas categorias é realmente difícil: Dallas sem dúvida adoraria ter Simmons, seria um ótimo encaixe e faria sentido, mas o que eles tem para oferecer? A não ser que Morey adore Porzingis, é difícil imaginar um pacote viável.

O mesmo é verdade, digamos, dos Bulls, que adorariam ter Simmons mas dificilmente seriam capazes de uma troca dessas sem envolver LaVine. Times como Raptors ou Miami possuem ativos que fariam sentido, mas Simmons não é um encaixe natural em nenhum e dificilmente muda um deles de patamar para justificar uma investida. E embora alguns times em reconstrução poderiam estar dispostos a apostar no potencial do armador, um time querendo vencer agora como Philly não estaria interessado nas escolhas de Draft de um time como Houston ou Pelicans, ou nos jovens do Orlando Magic.

Procurando, é possível encontrar algumas opções. Portland precisa de ajuda nas alas e tem uma peça óbvia para enviar em troca em CJ McCollum, mas os Blazers estão enfrentando várias questões próprias nesse momento, e uma dupla com Nurkic ofereceria problemas bastante semelhantes aos que Simmons viveu com Embiid. Os Timberwolves também precisam com urgência de um defensor versátil e de um playmaker ao lado de Towns, mas duvido que envolveriam Anthony Edwards no negócio, e é incerto se D'Angelo Russell ou Malik Beasley interessam aos Sixers. O Hornets também são um time jovem, que precisa de defensores versáteis e adora voar em transição, fazendo de Simmons um bom encaixe, e o time tem algumas opções interessantes para trocar.

Para mim, o melhor encaixe possível é Cleveland - uma franquia que tem ligações fortes com Rich Paul, uma necessidade de alas versáteis e talvez a peça perfeita para enviar em Collin Sexton, o playmaker pontuador de perímetro que Philly tanto precisa. Além disso, os Cavs têm a escolha 3 do Draft e, embora dificilmente enviariam ela por Simmons, podem usá-las para pegar Evan Mobley ou um dos Jalens (Green/Suggs), todos ótimos encaixes com Simmons e que tornam Sexton dispensável.

Cleveland quer competir no curto prazo enquanto mantém um núcleo jovem para o futuro, e Simmons parece encaixar nos dois. ainda que Sexton possa não ser um retorno à altura, os Cavs podem montar um pacote maior com outros nomes úteis, como Kevin Love ou Larry Nance e talvez até uma escolha futura de Draft, que compense aos Sixers pela profundidade. A meu ver, é o lugar que uma troca mais faria sentido.

Um wild card para ficar de olho: os Kings com Buddy Hield. Ainda que Sacramento não troque diretamente por Simmons, é o time perfeito para expandir para uma troca tripla, com os Sixers recebendo um pacote ao redor de Hield e um terceiro time recebendo o australiano. Isso pode abrir a porta para uma equipe com menos ativos, como Dallas ou os Wizards.

O futuro de Simmons promete ser uma das histórias mais interessantes dessa offseason.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL