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Vinte e Dois

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Giannis Antetokounmpo e o dilema de se jogar machucado na NBA

Giannis Antetokounmpo, do Milwaukee Bucks, reage durante jogo contra o Phoenix Suns na final da NBA - Mark J. Rebilas/USA TODAY Sports
Giannis Antetokounmpo, do Milwaukee Bucks, reage durante jogo contra o Phoenix Suns na final da NBA Imagem: Mark J. Rebilas/USA TODAY Sports
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Vitor Camargo

Colunista do UOL

10/07/2021 04h00

Uma das grandes histórias das Finais da NBA em 2021 tem sido a presença de Giannis Antetokounmpo. Menos de sete dias depois de o duas vezes MVP sofrer uma lesão aparentemente séria no joelho e virar dúvida para as Finais, foi um alívio vê-lo entrando em quadra no Arizona e nos agraciando com jogadas espetaculares como se nada tivesse acontecido.

A lesão em questão aconteceu no segundo tempo do Jogo 4 da série contra o Atlanta Hawks, quando o joelho de Giannis torceu para o lado errado e o grego imediatamente foi ao chão, visivelmente com dor. No momento, a expectativa era de que se tratasse de uma lesão no ligamento que o tiraria das quadras por pelo menos um ano. E entre os que pensaram isso estava o próprio astro, que depois admitiu que achou na hora que perderia não só o resto dos playoffs, mas também a temporada seguinte com essa lesão.

No final, a boa notícia foi de que os ligamentos do joelho estavam intactos e se tratava apenas de uma hiperextensão do joelho. Mas, mesmo sem o ligamento rompido, o tempo de recuperação normal desse tipo de lesão ainda gira em torno de três semanas, e muitos especialistas em medicina esportiva opinaram que seus playoffs estavam acabados - ou pelo menos em alto nível.

Giannis acabou perdendo os dois últimos jogos da série contra Atlanta, mas voltou à quadra para o Jogo 1 das Finais contra os Suns. Embora ainda pareça por vezes um pouco limitado (o que é normal), ele continua fazendo jogadas inacreditáveis, jogando em altíssimo nível e tendo performances inspiradoras para carregar um time que não está acompanhando. Seu Jogo 2, em particular, foi maravilhoso: foram 42 pontos, 12 rebotes, 4 assistências, 3 tocos e uma atuação de gala na qual ele praticamente manteve sozinho os Bucks no jogo apesar de Middleton e Holiday combinarem para 12-37 nos arremessos. Milwaukee foi +3 com Giannis em quadra e -13 com ele no banco.

Com tudo isso, é muito fácil cair na falácia de declarar que "está tudo bem com o joelho do Giannis", de que ele está saudável e não precisamos mais falar sobre a lesão - o que não é verdade. Situações assim não são binárias: ou você está machucado e não joga ou está 100%; todas elas envolvem vários graus de complexidade que as tornam únicas entre si. Embora jogar machucado seja rotina na NBA, lesões como a de Giannis estão em outro nível em termos de delicadeza e risco.

Embora muito do debate se concentre em torno do quanto a lesão limita o jogador e impede sua produção - um debate que certamente é relevante quando se trata do melhor jogador de um dos times nas Finais da NBA - talvez ainda mais sério e delicado seja o que isso diz sobre a saúde do jogador e seu risco de reagravar o problema - ou então sofrer uma lesão decorrente. Não é à toa que todas às vezes no Jogo 2 que Giannis ia ao chão com cara de dor o coração de todos assistindo pulava uma batida.

Ao que tudo indica, Giannis voltou às quadras antes de estar 100% recuperado e está jogando com o joelho enfraquecido, o que aumenta consideravelmente a chance de ele sofrer outra contusão mais séria. Esse tipo de coisa é bastante comum de se ver na NBA, e ainda que seja sempre difícil saber exatamente a relação de causa e efeito, temos vários exemplos de jogadores que voltaram cedo demais de lesões e sofreram uma mais grave logo depois.

O grande nome que vem à mente nesse sentido é Kevin Durant, que teve uma lesão muscular na perna durante as semifinais do Oeste em 2019 pelo Warriors, voltou ainda sem estar 100% nas Finais da NBA contra Toronto e rompeu o tendão de Aquiles logo depois. Embora seja impossível afirmar com certeza se as duas coisas estão relacionadas, lesões no tendão de Aquiles em geral têm a ver com uma sobrecarga no tendão devido ao enfraquecimento do resto da perna. Na mesma série, Klay Thompson rompeu o ligamento do joelho só para romper também o tendão de Aquiles em uma pelada de basquete nos primeiros dias após voltar da lesão, um ano depois.

Embora esses sejam exemplos de problemas mais pontuais, também temos uma série de exemplos mostrando como esse tipo de lesão pode afetar e alterar para sempre a trajetória de um jogador. Derrick Rose é o exemplo na ponta da língua, mas talvez o melhor para ilustrar o problema seja Kristaps Porzingis. O letão surgiu como o "unicórnio" pela sua combinação de capacidade atlética e mobilidade fora do comum para um pivô, associado ao chute de três pontos. Mas lesões recorrentes nos seus joelhos acabaram quase por completo com seu atleticismo e sua mobilidade, tirando o que fazia dele um jogador especial e basicamente o transformando em um jogador alto que chuta de três, de quem Dallas está desesperadamente tentando se livrar. As lesões não apenas custaram ele alguns jogos ou temporadas, mas atrapalharam toda a carreira dele a partir desse ponto. E isso sem citar jogadores como Greg Oden, que tiveram que se aposentar precocemente por lesões recorrentes.

O exemplo mais extremo de como jogar no sacrifício com uma lesão grave pode afetar sua carreira e sua vida talvez seja o ex-ala-pivô dos Celtics Kevin McHale. Em 1987, McHale sofreu uma fratura no seu pé perto do fim da temporada, uma lesão que deveria mantê-lo fora das quadras durante boa parte dos playoffs. No entanto, os Celtics - atuais campeões - estavam sofrendo dificuldades com seu elenco na tentativa de defender o título. O pivô reserva do time, Bill Walton, se machucou e perdeu a temporada inteira. O calouro escolhido no Draft que deveria ter sido o reserva imediato de McHale e ajudado a descansar o ala para os playoffs, Len Bias, morreu de overdose de cocaína dois dias depois do Draft.

Boston simplesmente não tinha opções no garrafão para jogar no seu lugar, então McHale voltou cedo demais da sua lesão, fraturou de novo o mesmo pé, e continuou jogando mesmo com o pé quebrado por acreditar que era a única chance do time. McHale jogou bem e ajudou Boston a chegar até as Finais, nas quais o time perdeu para o Los Angeles Lakers. E a carreira de McHale, então no auge, nunca mais foi a mesma: ele começou a lidar com problemas físicos, nunca mais conseguiu ter a mesma agilidade de pés no garrafão e acabou se aposentando mais cedo do que deveria. Mesmo hoje, quase 35 anos depois, McHale ainda manca visivelmente como consequência de ter jogado com o pé quebrado nos playoffs de 1987 e diz não se arrepender de nada.

Mas se os riscos são grandes e as consequências possivelmente desastrosas, porque jogadores como Giannis continuam insistindo em jogar mesmo machucados, colocando suas carreiras na linha? Honestamente, porque é difícil dizer para um jogador da NBA - alguns dos atletas mais hipercompetitivos do planeta, caso contrário não estariam onde estão - que eles não podem jogar e precisam assistir de fora, especialmente quando estão tão perto de um título. Os departamentos médicos dos times, nessas ocasiões, geralmente se limitam a vetar o jogador se ele não tiver condições de jogo, mas mais do que isso a decisão costuma ficar nas mãos de times e jogadores. E por mais que os times por vezes tendam a tomar cuidado com o seu futuro ao proteger a saúde dos craques, a voz dos atletas costuma falar mais alto nessas horas: eles sabem que o título é o objetivo final da NBA e, principalmente, a imortalidade para suas carreiras. Foi exatamente o que Kevin McHale, e depois Durant, disseram sobre suas decisões: você só tem essa chance de disputar e ganhar um título um número limitado de vezes na sua carreira, e quando a chance aparece, você quer fazer de tudo para aproveitar. Mesmo que signifique correr riscos.

E é fácil entender como isso apela para Giannis, um dos melhores jogadores da NBA e duas vezes MVP que continua a ser criticado e ter seus defeitos colocados sob um holofote pela falta de título. Tudo que se falou em Milwaukee nos últimos foi sobre os colapsos em playoffs, e sobre como Giannis talvez não seja um jogador bom o suficiente para levar um time ao título. E agora, com as Finais na mão, com o título finalmente tão perto, é perfeitamente compreensível o quanto isso pese sobre Giannis e sua decisão de jogar mesmo no sacrifício, mesmo correndo o risco de agravar a lesão e afetar sua carreira.

Porque, no fim do dia, a decisão é individual, e só Giannis Antetokounmpo pode dizer o que é certo para ele - munido de informações médicas sobre os riscos, sobre as consequências, se ele escolheu jogar, só podemos apreciar para ver mais um pouco desse craque nas quadras da NBA, e torcer para que nada de ruim aconteça com ele para que possamos continuar aproveitando seu basquete por muitos e muitos anos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL