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Olhar Olímpico

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Demétrio: Caso Maurício mostra que os incomodados não se retiram mais

Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

28/10/2021 04h00

Os três milhões de seguidores no Instagram conquistados por Douglas Souza, a maioria de julho para cá, talvez sejam insuficientes para mensurar a importância do ponteiro para a história do vôlei brasileiro. O jogador de 26 anos, hoje atuando por um clube italiano, foi campeão olímpico na Rio 2016, mas não é o que ele faz jogando que o torna um gigante. É o lugar que ele ocupa dentro e fora das quadras.

Ao longo de décadas o vôlei, popular principalmente entre a classe média e alta, como todos os outros esportes, se acostumou a ser refratário às minorias, especialmente quando o funil separa quem vai ser atleta e quem vai seguir a vida fazendo outra coisa.

Mas, no vôlei, esse tabu era mais grosseiro, porque fora dos grandes palcos, das quadras em que desfilavam os craques da seleção, a presença da comunidade LGBTQIA+ sempre foi maciça. Os gays ocupavam espaço nas arquibancadas, como torcedores, nas quadras de escolas, clubes e parques, como jogadores amadores, e diante da televisão, como consumidores.

Ainda assim, o vôlei competitivo seguia sendo um local homofóbico. Que o diga Michael, que inúmeras vezes teve de ouvir gritos preconceituosos até sair do armário em 2011. "A regra era ficar encolhido", contou ele no UOL recentemente. As coisas evoluíram a partir daí a passo de tartaruga, por osmose.

Até que surgiu o furacão Douglas Souza, protagonista da Olimpíada de Tóquio como um jogador de vôlei homossexual que não se encolhe. Desde então, a homofobia que sempre existiu no vôlei passou a ter um antagonista. A vítima da homofobia passou a ter um rosto, um nome, uma história.

A postagem com comentário homofóbico de Maurício Souza —ao compartilhar a reprodução de uma reportagem sobre o desenho do Superman ter se assumido bissexual— só causou, com atraso, sua demissão do Minas Tênis Clube porque, três dias depois dela, Douglas Souza foi às redes sociais rebater o ex-colega de clube (os dois jogaram juntos no Taubaté na temporada passada) e de seleção. "Se uma imagem como essa te preocupa, sinto muito, mas eu tenho uma novidade para a sua heterossexualidade frágil. Vai ter beijo sim....", escreveu Douglas.

Se, historicamente, os incomodados é que se mudavam, o ponteiro deixou claro que, agora, quem incomoda é que deve se retirar. Douglas acendeu a faísca, e quem pôs fogo no parquinho foi a comunidade dos "voleifãs", grande em quantidade de pessoas e, principalmente, em capacidade de fazer barulho nas redes sociais.

Calhou que Maurício é, ou melhor, era, jogador do Minas Tênis Clube, principal clube de vôlei do país, que tem uma torcida fiel e apaixonada —com direito a torcida organizada—, que avisou que não mais gritaria o nome do jogador. Foi essa comunidade, incomodada, que foi às redes sociais do Minas, da Fiat e da Gerdau cobrar a # Fora Maurício.

Os patrocinadores, que têm interesse em conversar com esse público ativo e apaixonado, reagiram rápido. E o que aconteceu depois disso é de conhecimento geral. O Minas foi pressionado, repassou a pressão a Maurício, ambos armaram um teatro que não convenceu ninguém e, no fim, o clube rescindiu o contrato do jogador, que segue batendo no peito para dizer que é homofóbico. Um peito que agora não tem escudo de clube.

Durante 48 horas intensas, líderes do vôlei feminino se posicionaram firmemente, jogadores do time masculino do Minas também, e Maurício deixou de ganhar até as tradicionais curtidas do amigo Wallace, do Sada/Cruzeiro, que preferiu ficar quieto antes que sobrasse para ele também.

O episódio deu força aos torcedores, mostrou a influência da vontade dos patrocinadores, e mobilizou até o técnico da seleção brasileira, Renan Dal Zotto, que disse com todas as letras que homofóbico não joga pelo Brasil com ele. São novas frentes de batalhas conquistadas pelos historicamente oprimidos, que não vão dar passo atrás. Antes, quando incomodados, eles precisavam se retirar. Agora, liderados por Douglas Souza, eles até abrem a porta para os homofóbicos irem embora.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL