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Ginasta argentina acusa técnico brasileiro de maus tratos; ele nega

Roger Medina, técnico da seleção argentina de ginástica - Reprodução/Instagram
Roger Medina, técnico da seleção argentina de ginástica Imagem: Reprodução/Instagram
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

19/11/2020 04h00

Uma das mais vitoriosas ginastas argentinas da última década, Ayelen Tarabini, acusa o técnico brasileiro Roger Medina, head coach da seleção da Argentina, de maus tratos. Ela move um processo na Justiça contra ele por violência de gênero, denunciando-o por "maltrato verbal e físico, assédio e intimidação", ao mesmo tempo em que o Conselho de Ética da Confederação de Ginástica da Argentina (GAC) julga as denúncias. Ele nega todas as acusações, tendo ao seu lado outras ginastas da equipe e a própria federação.

Ayelen, de 28 anos, foi medalhista do Campeonato Pan-Americano na trave em 2008, mas tem uma carreira marcada por lesões. Duas delas, ambas no tendão de Aquiles, as tiraram das Olimpíadas de 2012 e 2016. Seu objetivo passou a ser disputar Tóquio-2020, mas, para isso, ela precisaria se destacar no individual geral no Mundial de 2019. Contratado como head coach da seleção argentina — que monta estratégias, faz avaliações, mas não dá treinos individuais —, Medina optou por não escalá-la para fazer os quatro aparelhos na fase preliminar da competição. Assim, ela perdeu a chance de se classificar para a próxima Olimpíada.

Em abril, Ayelen publicou nas suas redes sociais que havia decidido se aposentar da ginástica e culpou Medina e a federação por, segundo ela, persegui-la. A postagem teve repercussão na imprensa argentina, mas não na brasileira. A CAG saiu em defesa do treinador: "Em relação aos 'maus tratos' atribuídos pela ginasta Ayelén Tarabini ao técnico Roger Medina, os rejeitamos como falsos e temerários. Essas denúncias carecem de respaldo factual, pois os representantes da instituição zelam pelo respeito às normas e processos, mas, sobretudo, pelo respeito às pessoas como pessoa".

Mas Ayelen mantém as acusações e diz que sofreu até fazer as denúncias. "Eu não conseguia dormir. Todo o tempo eu estava muito triste. Não queria falar, estava me fazendo muito mal. Estive internada muito tempo esse ano, com problemas de intestino. Estava me fazendo mal e decidi falar. Agora estou muito melhor", disse ela ao Olhar Olímpico, por telefone.

Na denúncia apresentada à Justiça da Argentina, Ayelen reclama que era obrigada a treinar na mesma intensidade que garotas de 13 anos. "A planificação era a mesma para todas, oito horas por dia, cinco dias por semana", ela cita, dizendo que também era proibida de beber água entre a preparação física e os exercícios nos aparelhos — a mesma prática foi bastante discutida, e por fim condenada, na ginástica brasileira.

"Na primeira concentração, o técnico passou a me tratar com desprezo, falar mal, fazer gestos com as mãos, ruídos e gestos com a boca, pois não consegui me adaptar ao seu planejamento. Pedi por favor paciência, mas o técnico da equipe o tempo todo me comparava com as menores da equipe", ela relata, culpando o treinamento exaustivo por uma lesão que sofreria dias depois dessa concentração. Quando voltou a treinar, foi novamente chamada para a seleção, mas teria que participar de uma seletiva interna. Ali, teria sido assediada por Medina por se atrasar para o aquecimento.

"Eu pedi desculpas pelo atraso e ele respondeu gritando: 'Cala a boca, você tem que aquecer agora'. Eu pedi por favor para que as outras meninas passassem na minha frente, para não esfriarem, e ele seguiu gritando, dizendo que eu ia ficar por último e se não conseguisse, aquecer, problema meu", cita a ginasta na denúncia. Segundo ela, ali começou uma perseguição de Medina durante as avaliações, que a fez começar a chorar. "O treinador tinha conseguido me deixar muito nervosa, eu não parava de chorar. Ele me tirou do foco, literalmente falando."

Sempre de acordo com a denúncia, que Ayelen depois repetiu à reportagem, ela caiu no primeiro exercício na trave e, por medo de se machucar, abandonou a apresentação. Depois soube que estava fora dos Jogos Pan-Americanos de Lima por má conduta, uma vez que chegou atrasada e abandonou a avaliação. Em contato com a representante dos atletas no órgão federal de esporte de alto rendimento, Ayelen ouviu que cabe ao técnico decidir a escalação da equipe e foi convencida a pedir desculpas a Medina, o que fez numa conversa reservada.

Assim, ela voltou à seleção para as seletivas para o Mundial de 2019 e acabou convocada para a competição. Já em Stuttgart, diz, teria sido proibida de fazer treinos com colchões de proteção e de se preparar para apresentar sua melhor rotina na trave. No treino de pódio, encontrou a barra mais alta das assimétricas muito rígida, o que, no entender dela, foi feito propositalmente por Medina para que ela se machucasse. "Quase caí e quebrei meus dentes", diz.

Ayelen Tarabini, ginasta argentina - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Ayelen Tarabini, ginasta argentina
Imagem: Reprodução/Instagram

Depois do treino de pódio, soube que não competiria nos quatro aparelhos. A prioridade seria tentar uma vaga olímpica por equipes, e outras ginastas poderiam conseguir notas melhores na trave e no solo. Sabendo da dificuldade de atingir tal objetivo coletivo, Ayelen se desesperou.

"No dia da competição, eu estava arrasada, não conseguia parar de chorar, estava vendo minha passagem para Tóquio passar diante dos meus olhos e não conseguia fazer nada, não conseguia pensar. Passei todo o aquecimento chorando até não conseguir respirar. Tentei treinar, mas eu não consegui. Roger me olhando com raiva, com desprezo. Ele nem tentou me ajudar ou me acalmar, apenas gritou comigo para que eu fosse fazer minhas rotinas", relata Ayelen, que foi a 74ª nas barras e também se apresentou no salto. A Argentina terminou em 19º, a menos de dois pontos do Brasil, 14º e também fora de Tóquio.

Outro lado

Tido no Brasil como um treinador que não é dos mais duros, ainda que tenha sido formado por um técnico criticado por sua grosseria, Medina afirma que já passou horas se defendendo das acusações de Ayelen perante o Conselho de Ética da GAC e que o órgão tende a inocentá-lo. Os relatos das oitivas divergem. O brasileiro diz que as acusações da ginasta não se sustentavam e foram desmentidas até mesmo por suas treinadoras pessoais. Já Ayelen afirma que suas antigas colegas de seleção, que saíram em defesa do treinador, é que se contradiziam.

Por telefone, falando à reportagem, ele acusou Ayelen de ter um comportamento individualista, depois de anos sendo uma das poucas ginastas de alto rendimento da Argentina. "Fui contratado exatamente para criar um sistema dentro da ginástica artística da Argentina e todas precisam se adaptar a esse sistema. O que ela queria eram privilégios e não soube lidar com a frustração de não tê-los," justificou.

Medina pediu para responder a reportagem com um texto escrito, que ele enviou por e-mail e o Olhar Olímpico publica na íntegra abaixo:

Nenhuma das afirmações feitas pela ginasta Ayelen é verdadeira. Tratam-se de acusações infundadas sem qualquer arrimo de prova.

Fui contratado para exercer a função de head coach junto a Seleção Argentina de Ginastica, sendo que decorre de minha função a neutralidade visando o melhor para a Seleção Argentina.

Meu trabalho sempre foi desenvolvido em conjunto com uma equipe técnica e multidisciplinar altamente qualificada, sendo que a condução dos trabalhos visando à preparação das ginastas para a representação da seleção em competições se pautou pela aplicação de conhecimentos técnicos da área, respeitando as limitações de cada atleta. Importante destacar que as treinadoras pessoais das ginastas sempre acompanharam o desenvolvimento dos trabalhos e tinham pleno conhecimento do planejamento, bem como, autonomia para solicitar adequações ao treinamento proposto, se o caso.

A escolha das atletas, da mesma forma, se pautou exclusivamente por critérios técnicos cuja eleição decorreu do desempenho de cada atleta e da estratégia técnica de cada competição na busca do objetivo maior, ou seja, a evolução e conquista de melhor posição da equipe no contexto mundial.

Importante registrar que os integrantes da comissão técnica da seleção argentina e que acompanham as atletas nas competições oficiais dedicam-se incondicionalmente para que todas as ginastas que compõem a seleção, indistintamente, estejam em condições de apresentar o seu melhor, visto que o objetivo proposto era chegar a melhor classificação por equipe, sendo inverídica a alegação da ginasta Ayelen no sentido de que com intuito de prejudica-la alguns aparelhos não estavam regulados e preparados no momento em que ela deveria executa-los.

As ginastas sempre foram tratadas com muito respeito e profissionalismo.

Seleção da Argentina no Mundial de Ginástica. Ayelen está é a segunda da esquerda para a direita - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram