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Projeto de lei para prender rivais por doping chega às mãos de Trump

Trump fez homenagem debaixo de forte chuva -  Brendan Smialowski / AFP
Trump fez homenagem debaixo de forte chuva Imagem: Brendan Smialowski / AFP
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

17/11/2020 14h15

Os últimos dois meses de Donald Trump à frente da Casa Branca podem ainda gerar uma crise no esporte internacional. Agora depende só dele a sansão de um projeto de lei que permitiria aos Estados Unidos condenarem e prenderem pessoas de todo o mundo que se valerem de doping em competições esportivas em que haja presença de norte-americanos. A Agência Internacional Antidoping (Wada) e o Comitê Olímpico Internacional (COI) vêm fazendo apelos contra tal medida.

Ontem (16) o Senado dos Estados Unidos aprovou por unanimidade o projeto, que vem sendo chamado de "Rodchenkov Act", em referência ao ex-diretor do laboratório antidoping russo Grigory Rodchenkov, delator do esquema que funciona na Rússia, e que hoje vive em local desconhecido nos Estados Unidos. Ele é mundialmente conhecido por ser o protagonista do documentário Ícaro, Oscar de melhor documentário de 2018.

Foi Rodchenkov quem propôs a lei, que vem gerando enorme preocupação na Wada, que disse, em comunicado, que "continua preocupada que, ao exercer unilateralmente a jurisdição criminal dos Estados Unidos sobre todas as atividades globais de doping, a lei provavelmente prejudicará o esporte limpo, colocando em risco parcerias essenciais e a cooperação entre as nações". Pela lei, atletas do mundo todo poderiam ser presos pelos EUA, exceto os das grandes ligas do país, que seguiriam submetidos apenas às regras esportivas.

No comunicado distribuído ontem, a Wada explicou por que a lei é perigosa, ainda que tenha nascido de boas intenções, porque sua 'extraterritorialidade irá minar o luta contra o doping em todo o mundo". "Nenhuma nação jamais declarou jurisdição criminal sobre crimes de doping que ocorreram fora de suas fronteiras nacionais, e por um bom motivo. É provável que leve à sobreposição de leis em diferentes jurisdições que comprometerão a existência de um único conjunto de regras antidopagem para todos os esportes e todas as Organizações Antidopagem de acordo com o Código Mundial Antidopagem. Isso terá consequências negativas, uma vez que a harmonização das regras está no cerne do sistema antidopagem global", continua a Wada.

A agência lembra que, se os EUA sancionarem a Rodchenkov Act, outros países vão se sentir na liberdade de também aprovarem leis que poderiam levar atletas norte-americanos à prisão. "Esta lei pode levar outras nações a adotar legislação semelhante, sujeitando assim os cidadãos dos EUA e entidades esportivas a jurisdições extraterritoriais e sanções criminais semelhantes, muitas das quais podem ser de natureza política ou impostas para discriminar nacionalidades específicas. Isso será prejudicial para os esforços antidoping em todos os lugares, incluindo nos EUA", afirma a agência internacional.

Pelo projeto, as agências norte-americanas passariam a ter poder legal de denunciar atletas dopados para a Justiça, em mecanismo semelhante ao que levou às prisões americanas alguns dos principais dirigentes do futebol sul-americano, incluindo o brasileiro José Maria Marin.

Ainda que seus crimes não tenham sido cometidos nos Estados Unidos, seus atos prejudicaram empresas norte-americanas e, por isso, entraram na jurisprudência da Justiça daquele país. O mesmo princípio seria aplicado no doping: um atleta que se dopar e competir contra um norte-americano poderia ser julgado pelos EUA e condenado à prisão em solo norte-americano, correndo o risco de ser deportado por países com quem os EUA têm acordo de extradição.

Mesmo eventos sem a participação dos Estados Unidos poderiam ser prejudicados, caso empresas norte-americanas sejam patrocinadoras ou mesmo proprietárias de direitos de transmissão dessas competições, como os Jogos Asiáticos ou uma Copa do Mundo para a qual a seleção norte-americana não se classificar, por exemplo.