PUBLICIDADE
Topo

Olhar Olímpico

Especialistas explicam por que atletas fracassaram nas eleições

Jair Bolsonaro e Diego Hypolito - Reprodução/Instagram
Jair Bolsonaro e Diego Hypolito Imagem: Reprodução/Instagram
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

17/11/2020 12h00

Ao menos 55 atletas e ex-atletas de ponta do esporte brasileiro, tanto do futebol quanto de modalidades olímpicas e paraolímpicas, se candidataram a diversos cargos nas eleições municipais do último domingo (15). Mas apenas cinco deles, pouco famosos fora de suas cidades, conseguiram se eleger vereadores. Nomes novos na política, como Diego Hypolito, outros que já haviam se candidatado antes, como Maurren Maggi e Marcelinho Carioca, e até quem já ocupou cargos públicos, como Paulo Rink e Roberto Dinamite, passaram longe dos mais votados.

O insucesso foi regra e, para a socióloga e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Esther Solano, o desempenho dos atletas tem menos a ver com o esporte e mais com o momento político do país. "Nessa eleição ficou evidente que o eleitor brasileiro procurou fundamentalmente a estabilidade, a segurança política e o voto da experiência. Eu sempre digo que 2018 foi um voto disruptivo, o voto da raiva, da novidade, aquela coisa do 'não estou aguentando mais, quero algo diferente', e o voto de 2020 tem sido o contrário, o voto de volta da estabilidade, a volta da experiência, a volta dos grandes nomes", ela analisa.

Aí por isso quando o eleitor buscou nomes para eleger, seja para as Câmaras Municipais, seja para as Prefeituras, ele preferiu, por regra, aquele que lhe garante alguma segurança, que tem uma trajetória política. Algo que falta a nomes que o que têm para apresentar são resultados no campo esportivo — medalhas, títulos, gols.

"Candidatos outsiders, que não são da política, como os atletas, se em 2018 tinham uma certa preferência do eleitorado, agora não, agora é absolutamente o contrário. Digamos que esses aventureiros, de fora da política, têm tido muita dificuldade, por causa dessa onda de recuperação da política. Se em 2018 a gente viu uma onda anti-política, a ideia do outsider, do novo, agora a gente está vendo uma recuperação da política, e da política tradicional", continua a socióloga.

Levantamento realizado pelo Olhar Olímpico encontrou atletas e ex-atletas concorrendo pelos mais diversos partidos, do PCdoB (mais à esquerda) ao PSL (à direita). Só pelo Avante concorreram seis, incluindo "Renatinho do Santa Cruz", "Nonato do Cruzeiro", "Sergio Araújo do Galo" e "Narciso dos Santos". A escolha pelo nome de urna citando o clube pelo qual atuou na cidade indica que há um desejo, nos partidos, de usar a fama conquistada nos campos de futebol para atrair votos.

"A trajetória anterior ao momento de sua primeira candidatura é fundamental para qualquer pessoa que pensa em se candidatar. É a rede estabelecida, o capital político e social acumulado, ou seja, como se tornou uma pessoa conhecida e influente, um dos pontos que o partido considerará ao avaliar a viabilidade da candidatura. Em outras palavras, se essa popularidade pode ser, de fato, convertida em votos", explica Viviane Gonçalves Freitas, doutora em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB).

Mas só ser conhecido, como se viu, não é o suficiente. "Ser famoso é um dos fatores para se tornar um candidato viável, entretanto uma vitória em disputa eleitoral não se resume a apenas um fator, mas, sim, a uma junção deles, inclusive a própria conjuntura sociopolítica do momento não pode ser desconsiderada. Estão nessa soma também o investimento financeiro, fazer campanha, apresentar propostas. A identificação do eleitorado também está no fato de aquele ídolo do esporte ser visto, avaliado, considerado como alguém que pode fazer algo além de ser apenas aquele atleta/ídolo do passado", continua Viviane.

Se atletas como o ex-UFC Matheus Serafim teve uma campanha estruturada, que começou muito antes do período legal de propaganda eleitoral — e mesmo assim não se elegeu em São Paulo pelo PP —, outros como Diego Hypolito (PSB) colocaram fichas demais na força do nome. O ex-ginasta escondeu que era candidato até o TSE divulgar a lista de concorrentes e, com isso, sua campanha durou menos do que o tempo máximo permitido por lei. Acabou recebendo só 3,7 mil votos, o que passa longe de ser suficiente em uma cidade como São Paulo.

Viviane Gonçalves Freitas diz que há um caminho a seguir: "Mostrar, por meio de propostas e conhecimento necessário à função, que podem ser algo além dos atletas já conhecidos. Não contar apenas com a fama anterior e se apresentar ao eleitorado como alguém capaz de se sair bem nesse outro projeto. Como qualquer um de nós que muda de área ou função, por mais experiente e bem-sucedido que seja naquele trabalho anterior, o novo é sempre diferente e exige entender dinâmicas atuais, aprender como agir, e não simplesmente ver na carreira política uma alternativa (por vezes, financeiramente melhor) à aposentadoria da atividade esportiva".

Ela também comenta um dos poucos sucessos do campo esportivo nas eleições de 2020. Alexandre Kalil (PSD), que ficou conhecido como presidente do Atlético-MG e se elegeu prefeito de Belo Horizonte em 2016 como outsider, pelo nanico PHS, chegou à reeleição com expressivos 63,3% dos votos. Mas esse resultado tem mais a ver com sua atuação como prefeito do que pelo cargo que ocupou no futebol no passado.

"O capital político como ex-dirigente do Atlético em bons momentos para o time pode ter contribuído para a vitória em 2016, além da conjuntura de polarização que começa a ficar mais forte naquele momento e da onda dos 'não políticos' na qual Kalil também se incluiu. No entanto, entendo a vitória de 2020 muito mais como uma resposta, um reconhecimento, uma aprovação do trabalho desenvolvido ao longo dos últimos quatro anos", opina a cientista política.

No levantamento feito pelo Olhar Olímpico foram encontrados apenas cinco atletas de sucesso que se elegeram vereador: Goleiro Vinicius (Republicanos), ainda jogador do Remo, em Belém (PA); o ex-jogador do Corinthians, do Vitória e do Grêmio Agnaldo (PTC, concorrendo como 'Guinha') na pequena Paranacity (PR); o triatleta olímpico Paulo Miyashiro (Republicanos), em Santos (SP); o bicampeão paraolímpico no futebol de 5 Cássio dos Reis (PV) em Ituberá (BA); e o medalhista pan-americano da canoagem velocidade Givago Ribeiro (PSDB) em Santa Maria (RS).

+ Acompanhe o que mais importante acontece no esporte olímpico pelos perfis do Olhar Olímpico no Twitter e no Instagram. Segue lá! +

A lista de fracassos eleitorais, porém, é muito maior. Ela começa com Luiz Lima (PSL, Rio de Janeiro) e João Derly (Republicanos, Porto Alegre), que perderam eleição para prefeito, passa pelo ex-deputado federal Popó (PROS, Salvador), candidato a vice em uma chapa com 0,1% dos votos, e continua em São Paulo com Maurren Maggi (DEM), Diego Hypolito (PSB), Marcelinho Carioca (PSL), Dinei (Republicanos), Matheus Serafim (PP), Kelly do Basquete (PTB) e Douglas Viegas Ninja (DEM). Na maior cidade do país, o destaque é a esgrimista Naira Sathiyo, primeira suplente do NOVO.

Paulo Rink (PL) não se reelegeu à Câmara de Curitiba (PR), assim como os ex-deputados Geovani Silva (PP) e Roberto Dinamite (DC) falharam em Vila Velha e no Rio. Também tiveram insucesso os ex-jogadores Adriano Gabiru (PMB, Curitiba), Saulo Tigre da Vila (Cidadania, Curitiba), Carlinhos Bala (PP, Recife), Kuki (PSB, Recife), Renatinho do Santa Cruz (Avante, Recife), China do Grêmio (PSC, Porto Alegre), Nonato do Cruzeiro (Avante, BH), Sergio Araújo do Galo (Avante, BH), Somália (PP, BH), Ceará (Avante, Nova Lima), Odvan Zagueiro (MDB, Campos dos Goytacazes), Maizena (Patriota, Fortaleza), Paulo Almeida (Republicanos, Itarantim), Macedo (Avante, Americana), Narciso dos Santos (Avante, Santos), Vélber Risadinha (PROS, Benevides), Ademir da Guia (MDB, São Paulo), Zé Augusto (PODE, Belém), Vandick Lima (PP, Belém) e Marquinho Jogador (PP, São João de Meriti).

No mundo olímpico e paraolímpico, falharam Ana Amorim (Patriota, Blumenau), Julião Neto (PCdoB, Belém), Sandro Viana (PP, Manaus), Georgette Vidor (Cidadania, Petrópolis), Marta Sobral (Patriota, Santo André), Filipin (PSB, Mogi das Cruzes), Charles Correia (PV, Piraju), Serginho do Vôlei (PV, BH), Fábio Luiz (PDT, Vitória), Magnólia Figueiredo (Solidariedade, Natal), Sandra Lima (Podemos, Teresópolis), Karin do Vôlei (PSDB, Brusque), Rodrigão do Vôlei (PSDB, Praia Grande), Tifanny Abreu (MDB, Bauru) e Eder Souza (PCdoB, Araraquara) e Iranildo Espíndola (DEM, Silvânia).