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Julio Gomes


O homem que fez Buffon virar goleiro quase jogou no Flamengo de Zico

Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

09/06/2020 04h00

Gianluigi Buffon, um dos maiores goleiros de todos os tempos, nasceu em uma família de atletas. O pai, halterofilista. A mãe, lançadora de disco. As irmãs, jogadoras de vôlei. O tio, de basquete. O jovem Gianluigi resolveu jogar futebol. Era meio-campista. Até que um evento disputado em seu país, 30 anos atrás, mudou tudo. Buffon tinha 12 anos de idade quando assistiu à Copa do Mundo da Itália e se encantou com o goleiro da seleção de Camarões. Um certo Thomas N'Kono.

Inspirado por N'Kono, Buffon resolveu que queria ser goleiro. E o resto é história.

A gratidão por quem o inspirou a mudar o destino veio mais tarde. Um dos filhos de Buffon chama-se Louis Thomas, justamente em homenagem ao camaronês.

"Tenho muito orgulho", contou N'Kono ao blog, em conversa exclusiva.

"Orgulho e amizade. Eu o conheci quando ele (Buffon) estava no Parma. Foi a primeira vez que nos encontramos, eu estava com Patrick M'Boma (também camaronês) e ele me disse 'este é o próximo grande goleiro da seleção da Itália'. Eu ainda não o conhecia. E digo 'quando fizer minha partida de despedida, irei te convidar para vir a Camarões'. E em 99, quando fiz minha partida de despedida, ele foi a Camarões", segue o ex-goleiro da seleção dos Leões Indomáveis, hoje preparador de goleiros do Espanyol, de Barcelona.

Nkono e Buffon - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

"A partir daí, foi crescendo nossa amizade. A ponto de ele dar o meu nome a seu filho. Nos falamos muito até hoje."

No ano passado, em uma carta-depoimento ao site Players' Tribune, Buffon deixou explícita toda sua admiração pelo camaronês quando se lembra da partida de abertura, contra a Argentina.

"Faz muito calor sob o sol do verão, mas o goleiro está de calça e camiseta de manga longa. Calças compridas pretas. Camisa verde comprida com gola rosa. O jeito que ele se move, o jeito que ele está alto, o bigode fantástico. Ele cativa seu coração de uma maneira inexplicável. Ele é o cara mais legal que você já viu. Há um escanteio para a Argentina, e Thomas corre para a multidão na área e soca a bola 30 metros para ar. É neste momento que você percebe o que você quer fazer da sua vida. Você não quer ser simplesmente um goleiro - você quer ser esse tipo de goleiro. Você quer ser selvagem, corajoso, livre. Nesse dia, uma chama nasce dentro de você. Camarões é um lugar que existe. Thomas N'Kono é um homem que existe. Você mostrará ao mundo que Buffon existe. É por isso que você se tornou um jogador de futebol. Não por dinheiro ou fama. Por causa da arte e do estilo desse homem, Thomas N'Kono. Por causa de sua alma."

(Mais do impactante depoimento de Buffon sobre N'Kono está nesta matéria do UOL Esporte).

Nkono 90 - Ross Kinnaird/EMPICS via Getty Images - Ross Kinnaird/EMPICS via Getty Images
Imagem: Ross Kinnaird/EMPICS via Getty Images

A minha conversa com N'Kono seria sobre o aniversário de 30 anos da campanha de Camarões na Copa de 90, vencendo a Argentina na abertura e caindo só nas quartas de final, contra a Inglaterra, na prorrogação. Um dos contos de fadas da história das Copas, que relato aqui neste post.

Mas N'Kono é bom de papo. Falou mais, muito mais. Falou de racismo e do movimento "Black Lives Matter". Falou também que quase veio parar no Brasil depois da Copa de 82, a primeira dele e a primeira de Camarões.

"Me procuraram o Fluminense e o Flamengo. E não deu certo pela distância que separava o Brasil da África, o intermediário demorou para chegar, a comunicação era diferente. Eu tinha três ofertas (da dupla Fla-Flu e do Espanyol) e digo: 'o primeiro que chegar, leva'. Por sorte para mim, chegou primeiro o representante do Espanyol, que estava mais perto", lembra N'Kono.

Nkono Espanyol - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

O Flamengo era campeão sul-americano e mundial (81) e seria campeão brasileiro em 82 e 83, sempre comandado por Zico. E com Raul Plassmann no gol. Já o Fluminense tinha como goleiro Paulo Vítor, que seria campeão brasileiro em 84. Ou seja, que o Espanyol tenha contratado antes deve ter sido o melhor mesmo para todas as partes - N'Kono foi titular do clube durante quase toda a década de 80 e hoje trabalha lá. "Tudo foi perfeito para mim e estou aqui até hoje, dentro do mundo do futebol".

O ex-goleiro conta que viu "mais ou menos" a final entre Flamengo e Liverpool, ano passado. "O futebol atual é muito equilibrado". E, conhecedor que é da posição, elogiou Diego Alves ( "mostrou seu valor aqui na Espanha").

Os elogios mais contundentes, no entanto, vão a outros. "É surpreendente, não? Antes se dizia que os goleiros brasileiros não eram bons. Tem que dar uma medalha aos formadores e treinadores de goleiros, graças a eles houve essa mudança. Gente como Alisson e Ederson tem um nível muito, muito alto, tem que valorizar a importância dos formadores brasileiros."

Mas não seria possível encerrar a conversa com N'Kono sem falar de racismo. Um goleiro africano na Espanha de 1982 não era algo exatamente comum. O camaronês enxerga o momento atual, com protestos mundo afora pedindo o fim do racismo, como único na história. Haverá um antes e um depois da morte de George Floyd.

Nkono preparador - Getty Images - Getty Images
Imagem: Getty Images

"Vivi muitos casos (de racismo) e encarei com muita filosofia. Você está dentro do mundo do futebol e é um privilegiado. Tem gente que sofre muito mais do que nós. Por exemplo, uma pessoa que está em uma cidade e não consegue alugar uma moradia por ser negro", fala N'Kono.

"Estamos vivendo um momento de mudança. Não são só os atletas negros que estão se manifestando, é todo mundo, são todas as raças, todos os continentes. Depois deste momento da pandemia, essa é a melhor notícia, um momento de mudança, que se pense no ser humano antes da cor da pele".

A entrevista completa do Thomas N'Kono, em espanhol, está aqui abaixo em vídeo.

Julio Gomes