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Julio Gomes


Camarões-90, um conto de fadas: 'Vencemos a Argentina dentro do vestiário'

Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

08/06/2020 04h00

Resumo da notícia

  • 8/6/1990: Camarões vencia a Argentina em uma das maiores zebras das Copas
  • O goleiro N'Kono relata, em entrevista exclusiva, os momentos antes e depois do jogo
  • N'Kono, destaque, foi escalado pelo presidente de Camarões horas antes da estreia

Nkono 90 - Ross Kinnaird/EMPICS via Getty Images - Ross Kinnaird/EMPICS via Getty Images
Imagem: Ross Kinnaird/EMPICS via Getty Images

Quando naquele 8 de junho de 1990 as seleções da Argentina e de Camarões entraram no campo do San Siro, em Milão, ninguém imaginava o que estava por vir. E nem o que havia acontecido minutos antes.

"Aquele jogo nós ganhamos ainda no vestiário", conta Thomas N'Kono com exclusividade ao blog. "Você sabe que em partidas inaugurais das Copas não é feito o aquecimento no gramado. Havia uma área comum para o aquecimento dos dois times. Primeiro entramos nós, e logo depois entrou a seleção da Argentina, cantando para nos intimidar. Nossos rapazes começaram a cantar muito mais forte e os argentinos se mandaram. Dentro do que é o aspecto psicológico, começamos a ganhar esse jogo ali", relata o histórico goleiro de Camarões.

A seleção africana venceu a então campeã do mundo por 1 a 0, em uma das maiores zebras da história das Copas. Camarões se transformaria na Cinderela da Copa e chegaria às quartas de final, quando o conto de fadas terminaria na prorrogação contra a Inglaterra.

N'Kono conversou comigo em espanhol, idioma que ele domina perfeitamente. Afinal, após a Copa de 82, a primeira de Camarões na história, o goleiro foi contratado para defender o Espanyol, o segundo clube de Barcelona. Por anos (de 82 a 90), atuou diante da torcida "perica" no Sarriá, o estádio da tragédia brasileira naquele Mundial. Já há mais de uma década, voltou ao clube catalão para ser treinador de goleiros. A entrevista completa está em vídeo aqui abaixo (já me desculpo, mas está em espanhol, sem legendas).

O jogo de 30 anos atrás, entre Argentina e Camarões, tinha tudo para ser um passeio. Estavam frente a frente a campeã de duas das últimas três Copas, o time de Maradona, contra uma seleção africana cheia de jogadores amadores ou ligas inferiores e que só havia apanhado nos amistosos preparatórios.

Mas, à parte a "batalha do gogó" antes da entrada em campo, Camarões teve também todo o apoio das arquibancadas. Afinal, Milan e Inter, os times da cidade, haviam acabado de perder a Série A italiana para o Napoli... de Maradona. O argentino era persona non grata em Milão. Aqui no Brasil, a torcida era toda pelo mais fraco - mal sabíamos que o tropeço inicial deixaria a Argentina em terceira no grupo, justamente no caminho da seleção de Lazaroni nas oitavas de final.

N'Kono foi um dos destaques do jogo, dando segurança e fazendo boas defesas. E o gol da vitória foi marcado por Omam-Biyik, subindo no terceiro andar para cabecear a bola e contar com o frango de Pumpido. Naquelas alturas, Camarões já jogava com um a menos, e teria mais um expulso no finalzinho.

Camarões 90 gol argentina - David Cannon/Allsport - David Cannon/Allsport
Imagem: David Cannon/Allsport

"Na véspera do jogo eu estava com Omam-Biyik e disse a ele para ir dormir e descansar, porque ele faria o gol da vitória", conta o goleiro.

"O jogo foi duro, é verdade que algumas entradas foram mais fortes, mas taticamente e fisicamente estivemos muito melhores do que eles. Depois do jogo, nosso vestiário era uma loucura completa. Todos sabíamos que a abertura da Copa é tão vista quanto a final, vivemos algo inesquecível ali, uma loucura".

N'Nkono conta que meia hora depois da partida falou com Maradona, que se mostrou surpreso pelo fato de o goleiro ter ido a campo. "Pois é, me escalaram", respondeu. De fato, quem havia feito toda a preparação como titular era Joseph-Antoine Bell, e o veterano N'Kono, então com quase 34 anos, era só a terceira opção do técnico soviético Valery Nepomnyashchy. No dia da estreia, tudo mudou.

"Cinco horas antes, o treinador me ligou para perguntar se eu poderia jogar. Eu disse que não sabia se estava preparado, ia pensar e dar a resposta em dez minutos. Queria falar com minha mulher, pois íamos ver o jogo juntos, já que eu não estaria relacionado. Não consegui encontrá-la, ela não estava no hotel, tinha saído com as amigas. Decidi jogar", lembra.

Bell, o titular, havia dito à imprensa francesa que era impossível Camarões ganhar da Argentina. A declaração irritou muita gente. O governo central camaronês, que já havia decidido sobre o retorno de Roger Milla, veterano de 38 anos, que havia três não jogava na seleção, decidiu também que N'Kono entraria em campo contra a Argentina.

"Duas semanas antes, me reuni com o treinador e o tradutor, ele me explicou que eu seria reserva por uma questão tática. Não me convenceu, e eu disse a eles que, se não fosse para jogar, eu queria voltar ao Espanyol, que estava disputando os playoffs da segunda divisão. Mas no fim conversei com os auxiliares e com minha mulher, que me convenceu a ficar. Trabalhei muito duro. Fiz um treino muito bom na véspera e, no dia do jogo, aconteceu daquela forma. A mentalização foi muito importante, eu fiz o aquecimento sozinho, como um boxeador".

O treinador soviético, Nepomnyashchy, era um ex-jogador aposentado por lesão aos 25 anos, que trabalhava para o governo em um cargo técnico, para desenvolver o futebol em lugares sob a esfera política da então URSS. Ele não tinha qualquer experiência com times principais, menos ainda com seleções, não falava francês e se comunicava através de um tradutor que nada entendia do jogo.

"O treinador usava um tradutor, um rapaz que estudava na Rússia e não conhecia nada de futebol. Era complicado. Nós tínhamos que acreditar no que ele estava falando. Perdemos quase todos os amistosos, mas isso nos fez repensar e mudar coisas. Pedimos aos auxiliares, que eram camaroneses, para mudar a forma de jogar. O sistema não era bom para nossas características, e trocamos para um 4-4-1-1, mais defensivo, dias antes do primeiro jogo. Não sei se explicaram para o treinador, mas as coisas saíram melhores para nós desse jeito", diz N'Kono, entre risos.

Camarões 1990 -  -

O segundo jogo, vitória contra a Romênia, foi o primeiro com o brilho da estrela de Millá, que fez dois gols. "A princípio foi complicado para ele, vinha de um campeonato amador (jogava nas Ilhas Reunion) e a presença dele era uma decisão presidencial. Mas ele mesmo fez por merecer o espaço treinando. Eu não tinha dúvidas de sua capacidade, já o conhecia de antes", fala N'Kono.

"Depois das duas vitórias, ficamos relaxados e veio o mau resultado contra a Rússia (derrota por 4 a 0 para a então URSS). Mas aquilo nos ajudou, focamos outra vez no jogo contra a Colômbia, quando jogamos bem. Depois, contra a Inglaterra, sabíamos que, se não houvesse uma ajuda do árbitro, eles não empatariam."

Dois pênaltis, no fim do segundo tempo e outro na prorrogação, deram a virada aos ingleses. O pênalti decisivo é marcado após um mano a mano de Lineker contra N'Kono. "Eu não encosto, ele se joga", crava o goleiro.

"Foi muito triste, não é fácil chegar assim longe em uma Copa do Mundo para uma seleção africana. Perdemos uma oportunidade muito grande", lamenta-se N'Kono.

Mas logo falamos da loucura em Camarões, quando a seleção desfilou em carro aberto, e pergunto a Thomas qual a imagem que ficou guardada em sua memória. "Dar a volta (olímpica) no campo de San Paolo, com o público te agradecendo, apesar de uma derrota. Isso nunca acontece".

Bem, N'Kono. Não era só em Nápoles. O mundo inteiro abraçou, sorriu e chorou com Camarões naquele mês mágico de junho, 30 anos atrás.

Julio Gomes