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Julio Gomes


Penta começou com teatro patético. Por que passamos pano para malandro?

Rivaldo é atendido pelo médico da seleção José Luiz Runco durante a estreia brasileira em 2002 contra a Turquia - Tony Marshall/EMPICS via Getty Images
Rivaldo é atendido pelo médico da seleção José Luiz Runco durante a estreia brasileira em 2002 contra a Turquia Imagem: Tony Marshall/EMPICS via Getty Images
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

03/06/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Seleção do penta estreava há 18 anos, com vitória sobre a Turquia
  • Virada veio no finalzinho, com pênalti mal marcado pelo juiz
  • No fim, simulação ridícula de Rivaldo deixou muitos indignados

Era um dia 3 de junho. Cedinho no Brasil, início da noite na Coreia do Sul, estádio de Ulsan. Neste cenário, 18 anos atrás, o Brasil estreava na Copa do Mundo, a Copa do penta. A campanha foi linda, mas em dois momentos o Brasil foi consideravelmente ajudado pelas arbitragens. Nas oitavas, contra a Bélgica. E na estreia, contra a Turquia.

Um jogo encardido para o time de Felipão, que sofreu um gol nos acréscimos do primeiro tempo, empatou no comecinho do segundo, mas não parecia encontrar caminhos para a virada. Até que, aos 41min do segundo tempo, Ozalan puxou a camisa de Luizão a alguns metros da área. O árbitro sul-coreano Kim Young-joo expulsou corretamente o turco, mas errou feio ao marcar pênalti, que seria convertido por Rivaldo.

O pior ainda estava por vir. Nos minutos finais, mesmo com um homem a mais, o Brasil catimbava à espera do apito final. Nos acréscimos, Rivaldo deixou a bola no campo e foi até o corner para a cobrança de um escanteio. Cansado, se apoiava nos joelhos enquanto matava tempo. Frustrado, Unsal chutou a bola para que Rivaldo fizesse a cobrança. Ele não "deu" a bola ao brasileiro, ele chutou, de fato, com a ideia de carimbar Rivaldo. Um erro passível de cartão vermelho, sem dúvida, até porque o turco já tinha o amarelo.

O problema é que a cena que se seguiu foi das mais patéticas da história do futebol brasileiro. A bola acertou a perna de Rivaldo, mas ele instantaneamente caiu com as mãos no rosto e rolou no chão.

Provocou a expulsão do adversário? Sim. Possivelmente Unsal seria expulso de qualquer maneira, com ou sem teatro. Mas provocar a expulsão justifica a reação de Rivaldo?

A imagem foi mostrada no telão do estádio, o que gerou revolta do público e vaias. A mídia internacional, especialmente a inglesa, se revoltou. Rivaldo acabaria multado, dinheiro de pinga. Não se desculpou, pelo contrário. Admitiu que a bola não havia acertado seu rosto, mas insistiu que o errado era seu agressor.

No Brasil, claro, a passada de pano foi geral. Como sempre, defendemos a "malandragem", a "experiência", a "esperteza". Oras, o errado era o turco, Rivaldo apenas deu uma forcinha para que o juiz tomasse a decisão que precisava tomar. E se ele não cai no chão? Será que o juiz teria dado vermelho para o turco? Fora que o time estava ganhando, uma virada dramática, e era importante matar tempo no relógio...

Esta reportagem da época da BBC mostra bem a mentalidade da seleção brasileira em relação ao caso. "O Rivaldo foi inteligente demais, tem de ser aplaudido. Uma jogada como essa (a simulação da contusão) pode decidir um título. No futebol, tem de ser inteligente, tem de ser esperto", disse Roberto Carlos, no dia seguinte.

Dois anos atrás, estávamos discutindo os "cai cai" de Neymar na Rússia e o estrago em sua imagem. É verdade que o Brasil mudou um pouquinho, e tivemos vozes na mídia e na sociedade criticando Neymar, mais do que houve na Copa-2002 com Rivaldo. Ainda assim, a tendência aqui é sempre proteger e passar o pano para jogadores que simulam.

Eu compreendo que o futebol seja um jogo em que a dissimulação esteja na essência. O espírito do jogo passa por enganar: o adversário, sobretudo, mas também o juiz. Mas este é um jeito bem particular do brasileiro de ver o esporte, e o "ganhar a qualquer custo" faz com que limites sejam ultrapassados.

Já na época, e revendo a imagem hoje, considero que Rivaldo extrapolou todos os limites. Uma simulação pífia, ridícula, que acabou manchando, sim, a imagem dele na Europa. Não é difícil separar a capacidade dentro de campo, e Rivaldo foi o grande jogador daquela Copa, na minha opinião, de uma atitude lamentável.

Rivaldo deveria, sim, ter sido suspenso pela Fifa após ter feito o que fez, e não só pago uma multa irrisória. O futebol não podia - não pode - passar esse tipo de recado. Será que hoje, em uma Copa do Mundo, uma simulação como aquela teria as mesmas consequências?

E na opinião de vocês? A malandragem é válida, em nome do resultado em campo?

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Julio Gomes