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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que o BBB e o futebol têm em comum?

BBB 21: Lucas Penteado diz não ter entendo Pocah dentro do confinamento - Reprodução/Globoplay
BBB 21: Lucas Penteado diz não ter entendo Pocah dentro do confinamento Imagem: Reprodução/Globoplay
Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

10/02/2021 15h35

A febre do Big Brother Brasil é uma de que escapei. Mas a cobertura do programa é um pouco como o Neymar: você não quer prestar atenção, mas aonde quer que olhe lá ele está.

Nesta semana, duas histórias me fizeram pensar no paralelo entre a casa mais vigiada do Brasil e o esporte mais vigiado do mundo. A saída de Lucas Penteado, cansado da perseguição e preconceito que vinha sofrendo, e o suicídio do jogador uruguaio Santiago "Morro" García.

O descuido, a falta de carinho e respeito com o estado emocional e psicológico de quem se coloca sob os holofotes. Quer aparecer? Então toma. Alvo liberado. Tolerância zero.

A morte de García, atacante e ídolo do time argentino Godoy Cruz levou, inclusive, ao lançamento de uma campanha por colegas uruguaios. "Antes de começar a assistir a este vídeo, quero que responda a estas perguntas. Você faz tudo certo? Você sempre consegue os resultados que deseja? Você sempre ganha? Todos os seus dias são bons? Nós somos jogadores, mas antes de sermos jogadores de futebol somos pessoas, como você, como seus irmãos, como sua mãe ou seu pai. E cada mensagem que você deixa do anonimato me machuca, machuca nossas famílias e afeta a todos nós."

Segundo a mãe do atleta, ele sofria de depressão. O que não impediu o presidente do Athletico Paranaense, Mario Celso Petraglia, de postar a seguinte indecência: "A mais cara contratação da história do CAP, veio com sentença de uso de cocaína e lesão irrecuperável no pé! Rescindimos com o atleta sem custo, não pagamos os 50% faltantes da compra em Euros, devolvemos os direitos econômicos e recebemos de volta U$ 1,0 milhão em caixa!", publicou. "Vendido o El Morro receberíamos + U$ 1,0 milhão, não tinha talento nem mercado! A imprensa amiga daquela gestão jamais tocou nesse assunto! Cobram contratações nossas de pequenos valores que não deram certo! Sentimos muito o final triste desse menino que sempre foi problemático!".

Não sei nem por onde começar. Um homem acabou de se matar e o cartola aproveita para não só espezinhá-lo como cutucar também a gestão anterior. Desumano é o adjetivo mais cortês que me ocorre.

Jogadores e celebridades são gente. Erram. Falham. Bebem e falam merda. Atuam mal. Passam por tragédias familiares. Têm filhos. Têm dias ruins. (O que é diferente daqueles que cometem crimes.) Os altos salários não mudam isso. Não dão à torcida ou à mídia - curiosamente também compostas de gente - o direito de lhes faltar com o respeito, de lhes roubar a dignidade. Criticar é uma coisa. Xingar, humilhar, atirar pedra no ônibus, pichar o muro da casa, abordar na rua na frente da família, tudo isso ocupa outro patamar.

A Organização Mundial da Saúde classificou a depressão como o mal do século, estimando que se torne a doença mais comum do planeta já em 2030. Mas a gente segue na zoeira, achando que pode cornetar falando qualquer coisa, sem a preocupação com o impacto de nossas palavras e atitudes.

Já as instituições (confederações, clubes, mídia), na melhor das hipóteses, não estão preparadas para lidar com seu poder e responsabilidade. Na pior, não estão nem aí. E você: que tratamento quer receber da próxima vez que errar?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL