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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O espaço que o futebol dá para criminosos e imbecis

Live do blog Soul Santista - Reprodução
Live do blog Soul Santista Imagem: Reprodução
Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

04/02/2021 14h12

Por que é tão difícil se livrar de gente escrota no futebol? Criminosos, inclusive. Aviso de gatilhos para racismo e misoginia na coluna de hoje.

O caso de Cuca já está mais que documentado. Condenado por estupro coletivo de uma menina de 13 anos, seguiu sua bem-sucedida carreira, sem percalços, com a bênção da Nossa Senhora Protetora dos Abusadores.

As novidades ficaram a cargo de outros personagens. Ontem, Haroldo de Souza, da Rádio Grenal, provou mais uma vez que ser racista e ignorante ainda é aceitável na mídia esportiva, especialmente para o homem branco de certa idade. Durante a partida entre Grêmio e Santos, referindo-se a Lucas Braga, o narrador pergunta a um repórter o nome "daquele crioulinho que está lá na ponta esquerda do time do Santos? [...] É um moreno, né? Um cidadão de cor, numa boa".

Provavelmente já prevendo uma possível reação negativa, esse "numa boa" também diz muito. Assim como diz muito o fato de Haroldo de Souza não ter sido sumariamente demitido. A emissora que o emprega declarou publicamente que "não compactua com qualquer tipo de atitude discriminatória a quem quer que seja, pautando sua atuação através de respeito a todos sem exceção". Bela merda.

No outro episódio, um asqueroso sócio e ex-conselheiro do Santos desfila seu ódio às mulheres e ao futebol feminino. Em uma live do blog Soul Santista, Sérgio Ramos vocifera: "Campo de futebol não é lugar de mocinha. Mocinha, no campo de futebol, são aquelas que a gente enche de porrada e tira fora de lá. Porque não é lugar para estar lá. Futebol feminino é um lixo. Eu não assisto uma porcaria dessas de jeito nenhum. [...] Eu sou incorreto. Eu teria um futebol feminino no Santos, porque é obrigado. É obrigado, então eu teria. Eu iria no Bahamas, pegaria um time no Bahamas, colocaria um uniforme bem coladinho. [...] Eu diria para elas o seguinte: não precisa encostar na bola. Vocês podem apanhar de 50 a 0 todo jogo, e eu garanto que os torcedores de todos os clubes iam torcer para o meu time do Bahamas."

Os outros integrantes do elucidativo bate-papo? Após imitar um sinal de silêncio e jocosamente advertir o colega, Ian Rocha dá seu aval: "Não, estou brincando. Pode falar, pode falar". Os outros dois, Fabiano Reis (conselheiro) e Wagner Dias, cúmplices, riem e também não intervêm. A pedido da conselheira Valéria Mendes dos Santos, o clube deve abrir uma sindicância contra Sérgio Ramos, mas isso me dá pouca esperança.

Infelizmente, não me surpreende que tanta gente ainda pense assim. Ou que ainda se sintam à vontade para dizer essas barbaridades publicamente, sem qualquer embaraço. Porque o ambiente em que elas estão inseridas lhes permite fazê-lo, porque seu meio de vida não é afetado.

Racismo é crime. Agredir mulheres é crime. Algumas matérias na imprensa e posts condenando essas atitudes nas redes sociais é pouco, pouquíssimo, quase nada. Essas pessoas precisam ser punidas por infringir a lei, a ética, a decência. No mínimo, sentir no bolso o peso de suas atitudes. Perderem seus empregos, ter de contratar advogados, passar por enormes constrangimentos e - importantíssimo — não encontrar mais espaço para espalhar por aí o lixo que levam na cabeça.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL