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Alicia Klein

Final da Libertadores: como ser feliz sozinho?

Filme Na Natureza Selvagem - Divulgação
Filme Na Natureza Selvagem Imagem: Divulgação
Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

28/01/2021 14h45

A felicidade só é real quando compartilhada. A frase ("happiness is only real when shared", no original) de Christopher McCandless, em Na Natureza Selvagem, acabou gasta em incontáveis memes, canecas, camisetas, tatuagens e sei lá mais o quê. O livro e o filme são bons, mas a frase é foda. E não me sai da cabeça às vésperas dessa final de Libertadores.

No sábado, Palmeiras e Santos entram em campo no Maracanã para o que pode ser um dos maiores embates da história do maior torneio do nosso continente. Uma final brasileira, ao acaso no Brasil. Transmissão para 191 países, maior premiação de todos os tempos. Animal. Não fosse o coronga.

Não sei vocês, mas na minha lista dos top 5 momentos de euforia na vida se destacam três ou quatro ligados ao futebol. Há algo de transcendental em saber que milhares - ou até milhões - de almas estão sentindo exatamente o mesmo que você, naquele mesmo instante. Poder virar pro lado na arquibancada e abraçar um estranho com um amor verdadeiro, ainda que efêmero, sabendo que ele partilha contigo daquela alegria ou dor, é algo profundamente humano.

Quem já comemorou uma vitória muito esperada, especialmente no estádio, sabe que a sensação que pulsa dentro da gente é explosiva. Palpitação, falta de ar, garganta seca, até dor de cabeça a pessoa sente. E não é Covid: é êxtase.

Já quem não gosta de futebol revirará os olhinhos, pensando: menas, amiga, é só um jogo. Mas não é. É mais.

O esporte no geral, e o futebol especificamente, proporciona uma catarse coletiva e simultânea, raríssima numa sociedade cada vez mais on demand, individualista, reclusa. Tem bastante coisa errada nesse mercado, claro. Como tudo que é bonito, o futebol é imperfeito.

E a final da Libertadores 2020, em 2021, traz um novo desafio para a torcedora e o torcedor cansados da vida pandêmica. Como ser feliz torcendo sozinho? Sem poder abraçar? Gritando só pela janela? Comentando sem ouvir comentários de volta? Exaltando e xingando a tela, amiga e inimiga nesses tempos estranhos. Como comemorar e sentir por completo a alegria de um título tão gigante, sem poder dividi-la ao vivo?

Em dois dias, santistas e palmeirenses precisarão aprimorar a arte de aglomerar virtualmente, de compartilhar emoções por zoom ou zap, de rachar ciberneticamente uma gelada, sem deixar que as ausências maculem uma partida épica. Quem sabe, dê até para fazer desta uma conquista ainda mais especial, porque vivida - porque sobrevivida - de forma tão extraordinária, em todos os sentidos da palavra.