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Coletivo Autista, criado por estudantes da USP, busca neurodiversidade

A estudante Giulia Jardim Martinovic, criadora do Coletivo Autista da USP - Divulgação
A estudante Giulia Jardim Martinovic, criadora do Coletivo Autista da USP Imagem: Divulgação

Lígia Nogueira

Colaboração para Ecoa, em São Paulo

04/08/2021 06h00

Quando entrou no curso de Letras da USP, em 2019, a estudante Giulia Jardim Martinovic enfrentou muitas dificuldades por ser autista. "Foi muito difícil. Eu não tinha amizades e era muito tímida. Não tinha coragem de pedir para os professores por métodos avaliativos diferentes ou para não me obrigarem a interagir em sala de aula", conta.

"Eu sentia que a USP não era para mim, mas para os neurotípicos, e eu deveria me adaptar. Por meses pensei que fosse a única autista naquele lugar. Com o tempo acabei descobrindo outros autistas e percebi que muitos tinham um desempenho acadêmico muito ruim e não recebiam ajuda dos professores. Eles trancavam o curso e cogitavam desistir."

Foi pensando na importância de conscientizar a comunidade acadêmica sobre as necessidades dos alunos autistas — além da criação de estruturas de apoio a essas necessidades — que Giulia decidiu fundar o Coletivo Autista da USP. A iniciativa a inspirou a criar também o Coletivo Autista do Mackenzie, onde ela cursa jornalismo, e fez com que outros jovens formassem seus próprios grupos em outros estados brasileiros.

"Hoje temos 10 unidades do Coletivo Autista: USP, UFRJ, UFSC, Unicamp, UFRGS, Mackenzie, UFSCar, UFABC, Unesp. Todas as unidades se comunicam entre si e compartilhamos muitos objetivos", diz Giulia.

Decidi formar o Coletivo pois, para os autistas, apesar de poucos ingressarem no ensino superior, o maior desafio é a permanência.

Giulia Jardim Martinovic, criadora do Coletivo Autista da USP

Giulia conta que fazia tempo que queria criar um grupo, mas a timidez fez com que adiasse os planos. "Acabei fazendo mais amizades durante a pandemia com o ensino remoto. Em 2020 já fazia muito ativismo nas redes sociais sobre o Autismo e, em maio de 2021, a partir de uma conversa com alguns autistas, tive a ideia de criar um Coletivo Autista para a USP inteira. No mesmo dia criei uma página no Facebook e no Instagram e, depois, comecei a divulgar."

A chave para combater as ideias erradas sobre o Autismo e outros tipos de Neurodivergência é a conscientização. Muitas vezes as pessoas falam coisas ofensivas por ignorância e não maldade. O nosso principal papel no Coletivo Autista é conscientizar as pessoas.

A estudante diz que o ensino remoto exige muito mais do que o presencial. "São muitas avaliações e eu me esforço bastante para ir bem em todas as disciplinas. Quando não estou estudando, gosto de ser ativista pelo Autismo nas redes sociais do Coletivo Autista e nos meus perfis pessoais também. Gosto muito de ler romances e artigos acadêmicos sobre o Transtorno do Espectro Autista (esse é o nome oficial que consta no DSM-5, mas a comunidade autista prefere usar somente Autismo ou Espectro Autista), escrever poesia e assistir séries."

Mulheres autistas

"Dia 26 de julho comecei uma vertente do Feminismo focada em mulheres autistas e estou superanimada. Antes eu e amigas e conhecidas também não nos sentíamos incluídas em qualquer vertente do Feminismo, pois todas eram focadas em mulheres não autistas. A nossa voz não era muito ouvida e agora será."

Mentorias e tutoriais

A partir do dia 6 de agosto, quando vai promover uma palestra sobre o Autismo no Ensino Superior, o Coletivo Autista começará a oferecer tutorias de diversas disciplinas de humanas, exatas e biológicas, mentorias sobre planos de estudos e carreira e o Grupo de Apoio Psicológico para estudantes.