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Intérprete ajuda a inocentar haitiano preso por crime que não cometeu

O intérprete Bruno Silva  - Arquivo pessoal
O intérprete Bruno Silva Imagem: Arquivo pessoal

Ed Rodrigues

Colaboração para Ecoa, do Recife

06/04/2022 06h00

Imagine ficar preso em outro país por 16 meses acusado de um crime que não cometeu e sem conseguir dar sua versão por não falar o idioma local. Em São Paulo, um imigrante haitiano enfrentou todo esse tempo de detenção por dominar apenas a língua falada em seu país, o crioulo haitiano.

O homem, que não teve a identidade divulgada, foi preso injustamente pelo suposto assassinato da esposa. Mas só conseguiu explicar o mal-entendido recentemente, com a ajuda de um mestrando em Linguística da Universidade de São Paulo.

O mestrando era o intérprete Bruno Pinto Silva, que pesquisa o crioulo haitiano no Departamento de Linguística da USP e fala o idioma com fluência. A Ecoa, ele contou que é auxiliar da Justiça em São Paulo e foi chamado pelo Fórum Criminal da Barra Funda para auxiliar o homem.

"Ensino o crioulo haitiano desde 2014. Eles haviam chamado intérpretes de francês em outros momentos, mas esses intérpretes não conseguiram realizar o serviço [no Fórum Criminal]. A maioria dos haitianos fala somente o crioulo haitiano", explicou.

Encontrar Bruno não foi muito fácil. Segundo ele, o seu cadastro na plataforma de auxiliares da Justiça estava expirado havia pouco tempo, e só foi possível encontrá-lo por meio do seu perfil no Google Acadêmico, onde constava fluência em crioulo haitiano.

O trabalho do intérprete

Bruno Silva obteve acesso aos autos processuais, mas só teve contato com o homem no dia do julgamento, que ocorreu no último mês de janeiro. Até a ocasião, o haitiano ficou detido em uma penitenciária para estrangeiros.

"Ele estava sendo acusado de ter assassinado a esposa. A morte ocorreu em São Paulo e a acusação foi baseada no depoimento de uma única testemunha: um outro haitiano, que fala nosso português", disse.

Quando Bruno chegou ao fórum e traduziu o que estava sendo falado, todos puderam descobrir que a versão do homem era bastante diferente do que tinha sido relatado pela única testemunha ouvida até então. Essa testemunha foi apontada pelo acusado como o real autor do crime.

De acordo com o debate entre o promotor e o defensor, juntamente com o laudo pericial, a história passou a fazer sentido. "Ele estava sendo acusado de assassinar a esposa a facadas, mas alegou que ela havia sido golpeada porque se colocou entre ele e o outro haitiano que o estava atacando com uma garrafa", destacou.

De acordo com o intérprete, o próprio promotor pediu a absolvição do réu ao encaixar os fatos e perceber que alguns detalhes que ele havia contado faziam sentido ao serem comparados com a perícia. O homem foi solto e voltou à penitenciária apenas para pegar suas roupas.

Após o julgamento, o intérprete e o haitiano se falaram rapidamente. "Ele sem dúvida ficou grato, mas devia estar ainda bastante descrente diante de toda a situação. Acho que a ficha deve ter caído algum tempo depois. Como intérprete sou neutro quanto ao caso. Estou lá para possibilitar a comunicação", disse Bruno.

"Fico feliz que tenha ajudado em um caso em que teve esse desfecho, mas também ficaria com a sensação de dever cumprido se o desfecho tivesse sido outro. Apesar da grande repercussão dessa história, sinto que isso não deveria ser a exceção, mas a regra. Ou seja, que os imigrantes tenham acesso a intérpretes para que sejam julgados devidamente", completou o mestrando.

Bruno ressaltou que deseja que profissionais de línguas, como intérpretes forenses, possam contribuir cada vez mais com seu trabalho para a sociedade, e que o resultado disso seja que crime algum fique impune ou que inocentes sejam condenados injustamente.

Amor pelos idiomas

Bruno conta que é apaixonado por línguas estrangeiras e se interessava por aprender outros idiomas desde a infância. Ainda criança, já era fluente em português, inglês e espanhol. Quando adulto, aprendeu italiano e, antes de francês, aprendeu crioulo haitiano. Em 2014, começou a trabalhar em projetos sociais com haitianos residentes na cidade de Jundiaí, em São Paulo, ministrando aulas de português. A partir dessas aulas, ele começou a observar as características do idioma.

O linguista explica que o crioulo haitiano é falado pela maioria da população do Haiti e esclarece que, apesar de cerca de 90% do vocabulário da língua ter vindo do francês, a estrutura sintática para a construção das frases nos dois idiomas é totalmente diferente. "Quem fala francês não entende crioulo haitiano e vice-versa. Algo semelhante ao que ocorre com o português e o espanhol, por exemplo. A língua francesa é falada por uma minoria dos haitianos, entre 5% e 7% da população", explicou.