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Educação na pandemia deve priorizar reflexão e cidadania, dizem experts

Pollyana Ventura/Getty Images
Imagem: Pollyana Ventura/Getty Images

Debora Pill

Colaboração para Ecoa, em São Paulo

13/06/2020 04h00

Os tempos de excepcionalidade gerados pela pandemia da covid-19 jogaram luz sobre desigualdades estruturais do Brasil. Nesse contexto de futuro incerto, mais da metade dos estudantes no planeta está sem acesso aos conteúdos online disponibilizados pelas instituições educacionais. Segundo o balanço da Unesco de abril, cerca de 1,5 bilhão de crianças e adolescentes estão fora da escola em 188 países em função das regras de isolamento social impostas para conter o avanço da disseminação do vírus.

No Brasil, são mais de 4.8 milhões de crianças e adolescentes sem internet em casa, ou 17% do total entre quem tem de 9 e 17 anos, segundo a Unicef. Sem essas ferramentas para buscar conteúdo, eles deixam de se preparar, por exemplo, para o Enem, postergado para novembro.

Só no estado de SP, apenas 1,6 milhão dos 3,6 milhões de estudantes da rede estadual acessou a plataforma de conteúdo online. No Paraná, professores estimam que só 30% dos estudantes estão assistindo às videoaulas. Ainda assim, a maior parte dos estados (16) planeja considerar as atividades a distância como carga horária do ano letivo.

Diante disso, faz sentido manter o mesmo ritmo e currículo propostos pré-pandemia?

Especialistas têm criticado a equivalência das aulas online às presenciais, argumentando que a qualidade da aprendizagem não é a mesma. "O formato de EAD (Ensino a Distância) emergencial torna as diferenças entre os alunos ainda mais evidentes. Como trabalhar a personalização nesse caso?", questiona Milena Madeira, educadora formada pela USP (Universidade de São Paulo) que tem a experiência de dar aulas no Ensino Fundamental II.

Como dar conta das peculiaridades de cada um no seu processo de desenvolvimento? E de seu contexto e oferecer uma aprendizagem que faça sentido para cada um, levando em conta a realidade de cada família?

Milena Madeira, educadora

Outras lógicas possíveis

Luana Alves, coordenadora da Rede Emancipa - Divulgação - Divulgação
Luana Alves, coordenadora da Rede Emancipa
Imagem: Divulgação
Pensar o sentido da educação para realidades distintas hoje é uma emergência, mas o problema não nasce agora. Luana Alves, psicóloga da saúde coletiva e coordenadora da Rede Emancipa de educação popular, pontua que o conhecimento dos alunos das periferias e de suas famílias foi historicamente desvalorizado nas escolas.

"Queremos que a periferia seja considerada centro de produção de conhecimento. Essa lógica tem que ser virada do avesso", avalia. Uma ferramenta criada recentemente nesse sentido é a Escola Emancipa. "É como um clube de leitura online, onde os alunos deixam de ser meros receptores e passam a ser protagonistas da discussão", explica Alves.

Milena Madeira concorda que as escolas deveriam focar na autonomia dos alunos nesse momento em que ele e sua família são responsáveis, em grande parte, pelo próprio aprendizado. E acredita que os professores poderiam também aproveitar materiais complementares da internet. Ela cita exemplos de professoras de educação infantil que têm gravado vídeos contando histórias. "As escolas poderiam gerenciar a experiência", diz ela.

Miguel Thompson é diretor na Fundação Santillana, consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento das Nações (PNUD) e um dos idealizadores da Bancada da Educação em São Paulo. Nesse momento de foco no EAD, ele defende o estímulo a métodos investigativos, já que o meio digital é propício para a pesquisa. "É muito importante ensinar os jovens a buscar informação e, ao mesmo tempo, estimular reflexões sobre temas contemporâneos. Assim eles podem refletir tanto internamente, como com sua família e amigos, quanto pelos diferentes grupos de WhatsApp".

O WhatsApp é inclusive um dos caminhos que ele identifica para solucionar, em partes, a lacuna tecnológica dos alunos no país. "O Brasil tem muito acesso pelo celular. As Secretarias Estaduais de Educação poderiam fazer negociações de pacotes de dados gratuitos, assim como foi feito em São Paulo. Outro caminho seria desenvolver uma ação integrada entre diferentes mídias como rádio, televisão, redes sociais, todas em conjunto para chegar aos estudantes com essas atividades", crê Thompson. Enquanto isso não acontece, há alguns projetos da sociedade civil — como o 4G Para Estudar — voltados para estudantes periféricos.

Para o co-idealizador da Bancada da Educação, pensar o aprendizado no momento envolve falar, necessariamente, sobre cidadania e estimular a reflexão, discutindo o momento em que estamos.

É fundamental termos uma geração mais compromissada com a sociedade, com empatia e alteridade. Podemos inclusive usar exemplos de fraternidade que estão surgindo no contexto da pandemia. E falar do futuro: como devemos agir pós-pandemia, como cidadãos? Precisamos discutir a cidadania nesse momento de crise. Trazer questões que estimulem dilemas, reflexões éticas e morais

Miguel Thompson, diretor na Fundação Santillana e consultor do PNUD

Para Luana Alves, da Rede Emancipa, "quando falamos de educação pós-covid, é urgente repensar a lógica da educação da maioria das escolas públicas que hoje se encontram sucateadas", aponta. "Mas para repensar a lógica da educação é preciso dar garantias de estrutura para os que trabalham nas escolas. A desvalorização desse governo pela figura do professor e pelo conhecimento científico é um grande entrave", diz ela.

Miguel Thompson, da Fundação Santillana - Divulgação - Divulgação
Miguel Thompson, da Fundação Santillana
Imagem: Divulgação
Thompson lembra que a educação segue sendo pautada por uma lógica utilitarista criada no século passado. "Vivemos em uma sociedade capitalista, de consumo e extremamente desigual, com muitas demandas artificiais que podem ser repensadas. O modelo imposto pela vida urbana tem que ser discutido. Isso inclui a lógica antiga de profissionalização, que fica clara no Enem: a idade de 17 anos foi fixada lá no começo da Revolução Industrial, quando havia uma demanda de trabalhadores especializados. A expectativa de vida na época era de 55 anos, hoje é outra. No entanto, a escola continua com esse modelo antigo", diz ele.

A volta para a sala de aula

O Brasil conta hoje com mais de 41 mil mortos por covid-19 e esse número ainda deve crescer exponencialmente. Os trabalhadores mais precarizados seguem obrigados a ir para as ruas e a se expor ao contágio. É nessa conjuntura que está sendo previsto um retorno às escolas nos próximos meses. Em São Paulo, a proposta deve seguir um modelo híbrido e em fases, segundo o Secretário Executivo de Educação do Estado, Haroldo Rocha. A volta às aulas deve ser iniciada pela educação infantil, já que as crianças foram consideradas com pouca situação de risco.

Luana Alves vê irresponsabilidade na medida. "Sabemos que os alunos da periferia moram em casas mais simples, com menos circulação de ar, muitas vezes sem saneamento básico, e com familiares idosos", diz a coordenadora da Rede Emancipa.

Experiências de volta às aulas pelo mundo têm se mostrado ineficazes, mesmo em países em que a curva de contaminação tem baixado. Na França, 40 mil escolas foram reabertas em maio. Uma semana depois, 70 registraram casos de coronavírus e tiveram que ser fechadas. Na Coreia do Sul, mais de 200 escolas foram fechadas dias após reabrirem, devido ao surgimento de novos casos de contaminação.

"Apenas recentemente, com a reabertura em alguns países, é que começamos a ver como o virus se manifesta, e infelizmente muitas escolas tiveram de ser fechadas", avalia Livia Burani, ex-coordenadora da Escola Schumacher College Brasil e hoje professora de um colégio particular em São Paulo. Segundo ela, é urgente discutirmos por que começar esse experimento pelos mais novos. "E se vamos fazê-lo, vale questionar como fazer isso de forma coerente, saudável e alinhada com as concepções de infância que tanto nos empenhamos a defender até aqui."

Uma série de protocolos de comportamento está sendo elaborada para que o risco de contágio seja amenizado, como a diminuição de quantidade de alunos por sala, distribuição de máscaras e tendas de higienização. "Mas como fazer uma criança pequena seguir? E quando ela chora ou se machuca? Manteremos a regra de distância de um metro e meio?", questiona a educadora. "Muitas dessas recomendações terão de ser ainda mais humanizadas e flexibilizadas para não irmos totalmente na contramão do que acreditamos como qualidade de educação", defende ela.

Comunidade de aprendizagem

Para a professora, o lado positivo de tudo isso talvez seja o aspecto comunitário que se abre a partir de um maior diálogo entre escola e famílias -- "o estreitamento nas relações, uma real atuação como uma comunidade de aprendizagem, em que cada envolvido assume sua responsabilidade no processo", frisa Livia Burani.

Enquanto não vemos respostas coordenadas pelas redes de ensino no Brasil, podemos olhar para algumas ações que têm sido praticadas pelo mundo. Na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, todas aulas serão integralmente online até a metade de 2021. A Argentina, por sua vez, decidiu suspender qualquer tipo de avaliação nesse ano e focar na "avaliação formativa", que vai registrar as interações dos alunos com os professores e os progressos individuais, assim como a eficiência das aulas a distância.

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