Rodrigo Ratier

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Pisa: esperar resultado diferente fazendo igual é loucura

Das considerações sobre os resultados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes divulgados hoje, talvez a principal seja: escola importa. A queda "sem precedentes", segundo o relatório, na aprendizagem dos estudantes em todo o mundo deriva do fechamento das escolas durante a pandemia de covid-19. A obviedade não deve parar os defensores do homeschooling (educação em domicílio), pouco comprometidos com a realidade. E, como o debate está de ponta-cabeça, negacionistas que queriam abrir escolas com a pandemia no pico vão cobrar: "Estávamos certos, agora vocês veem?".

A persistência do Brasil com notas bem abaixo das médias da OCDE nas três áreas examinadas — Matemática, Leitura e Ciências — não se alterou desde a primeira edição na prova, em 2000. Há lógica no processo: insanidade é fazer sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes. Nesse sentido, um outro estudo da OCDE, publicado em setembro passado, fornece o gabarito para explicar os resultados do país.

Está na relatório "Education at a Glance": o Brasil é um dos países com menor investimento por aluno entre os pesquisados. Na educação básica, são US$ 3.975 por ano, anos-luz distante da média da OCDE (US$ 10.949, numa conta que já ajusta os resultados pelo poder de compra de cada país). Somos ainda uma das nações que pior remunera seus professores. Enquanto o piso nacional é de US$ 20.261 anuais, na média da OCDE o valor é de US$ 34.563.

Mesmo no polarizado campo da educação há alguns consensos. Não se faz boa escola sem condições de ensino adequadas nem professores bem-remunerados. O que tem feito o Brasil nas últimas duas décadas para melhorar seu ensino? Criou um piso nacional para o magistério, ainda insuficiente para tornar a carreira atrativa, impôs uma Base Curricular e uma reforma do Ensino Médio com escasso diálogo, gerando rejeição, aprovou um Plano Nacional da Educação que fala em gastar 10% do PIB na área, meta solenemente ignorada (estamos patinando na metade disso), entregou a formação de professores ao predatório ensino particular a distância, responsável por diplomar 4 a cada 5 novos docentes, sabotou-se num período de desmonte (Bolsonaro), assistiu, em todas as gestões, à entrega de parcelas crescentes da formulação de políticas públicas a big techs, institutos e fundações empresariais, apostou em soluções autoritárias (escolas cívico-militares) e modismos tecnológicos que nada resolveram.

Agindo assim, como esperar resultado diferente? Se há uma área que merece um grande acordo nacional "do bem", com "Supremo e com tudo", é a educação. Só a priorização e um esforço longo e consistente podem alterar significativamente nossa posição nos rankings internacionais. Inclui orçamento robusto, políticas de estado e não de gestão e um compromisso de longo prazo — pela própria natureza da área, que demora a dar resultados, e pelo fato de que estamos em uma corrida "de recuperação": vamos ter de envolver recursos de todas as ordens num patamar acima da média (a maioria das nações desenvolvidas precisa manter, e não reconstruir, seus sistemas). Escola importa, mas precisa ser tratada com a devida importância.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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