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Sérgio Luciano

Questione-se sobre suas certezas

Tenho percebido e aprendido que aquilo que captura minha atenção diz muito sobre mim - iStock
Tenho percebido e aprendido que aquilo que captura minha atenção diz muito sobre mim Imagem: iStock
Sérgio Luciano

Sérgio Luciano tem como missão de vida o despertar da potencialidade que vive em cada ser humano, a partir da própria sabedoria de cada um. Com experiência em logística e gestão de processos, faz parte da rede Guerreiro Sem Armas, formação de tecnologias sociais para a realização de projetos e sonhos coletivos, e encontrou sua paixão de vida no Process Work, uma abordagem terapêutica para mediação de conflitos, facilitação de grupos e autoconhecimento derivada da psicologia jungiana.

18/11/2020 04h00

Já se percebeu entrando numa brisa muito doida, construindo toda uma narrativa, diante de uma cena específica, que você não sabe bulhufas do que está por trás, das histórias das pessoas envolvidas, do que poderia ter rolando antes do momento gravado ou relatado, tampouco o que poderia ter rolado depois?

Eu me pego nessa brisa algumas vezes ao dia. Imagino que tem outras tantas vezes que eu sequer percebo isso acontecer, vai no automático mesmo.

E antes de tudo, saiba que não considero isso errado não. Nem certo. A única coisa que posso dizer é que, parece, que isso é parte de nós. Talvez algumas pessoas o façam com mais recorrência, outras com menos. Talvez algumas se apeguem mais a essas histórias, outras menos.

O fato é que a gente tem uma capacidade doida de sonhar a realidade tal qual se apresenta, para além do que de fato está acontecendo.

Quando a história que a gente se conta sobre o antes e o depois do relatado se assemelha à realidade, a tendência é uma dose de autoconfiança seguida de um "eu já sabia", "tá vendo", ou qualquer outra coisa que alimente a ideia de que somos deusas e deuses de clarividência.

Quando a história é totalmente distorcida, tem horas que a gente duvida do que nos é trazido. Dizemos ou pensamos "Como assim é diferente do que tô falando? Eu tenho tanta certeza e sei muito disso...", dentre outras várias possíveis respostas. Tem horas também que tentamos nos justificar, pra não cair do pedestal que reivindicamos prematuramente. Ou, às vezes, a gente assume que falou pelos cotovelos mesmo.

Perceba-se aí. No seu cotidiano. Pergunte-se:

1. Quais situações capturam tua atenção e tu já começa a escrever uma tese de doutorado sobre o que é ou não é?

2. O que nessas situações contribuiu para sua atenção ser capturada? Toma um tempinho para tentar perceber um sinal que seja.

3. Como você se relaciona com esse sinal que capturou sua atenção? Como isso dialoga com sua história, com sua vida? Com suas crenças, convicções? Talvez não seja algo tão trivial. Permita-se transcender o óbvio.

Talvez isso que estou propondo não mude nada pra você. Principalmente se você já tem certezas do que funciona ou não pra você. De quais são os certos e errados da vida. Das melhores formas de se passar esse breve tempo que temos na Terra.

Ou, talvez traga um comichão. Um desconforto. Um choque. Quem sabe traz alguma inusitada e inesperada novidade e descoberta sobre si. Ou sabe-se lá o que mais isso pode trazer pra você. Eu só tô aqui pra provocar. A experiência, é tua.

A única coisa que posso dizer é que tenho percebido e aprendido que aquilo que captura minha atenção diz muito sobre mim. E ter essa curiosidade por isso me ajuda horrores a ser mais compassivo comigo e com os outros, além de lidar um pouco melhor com o diferente, com aquilo com o qual parece que não me identifico nem um pouco.

Diga-se de passagem, de vez em sempre, coisas com as quais não me identifico fora, e até rechaço, são espinhos bem doloridos que vivo querendo arrancar de mim.

Bem, pode ser que você já atingiu a iluminação, e isso talvez nunca vá acontecer com você. Ou que o Sérgio falou um monte de besteira. Ou, talvez, é só um tanto de prepotência que tá tomando conta da direção.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.