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Sérgio Luciano

O machismo nosso de cada dia

08.11.20 - Manifestação em SP pede justiça para Mari Ferrer e fim da cultura de estupro - MARCELA MATTOS/ESTADÃO CONTEÚDO
08.11.20 - Manifestação em SP pede justiça para Mari Ferrer e fim da cultura de estupro Imagem: MARCELA MATTOS/ESTADÃO CONTEÚDO
Sérgio Luciano

Sérgio Luciano tem como missão de vida o despertar da potencialidade que vive em cada ser humano, a partir da própria sabedoria de cada um. Com experiência em logística e gestão de processos, faz parte da rede Guerreiro Sem Armas, formação de tecnologias sociais para a realização de projetos e sonhos coletivos, e encontrou sua paixão de vida no Process Work, uma abordagem terapêutica para mediação de conflitos, facilitação de grupos e autoconhecimento derivada da psicologia jungiana.

11/11/2020 04h00

Essa semana fiquei um tanto incomodado diante do que entendi como minimização da importância de abordarmos, como pudermos, pautas de gênero nos dias atuais.

Basicamente, nasceu de uma discussão breve sobre o porquê de colocarmos a comunicação do site da Facilita, plataforma de facilitação por meio de jogos que eu e outras duas pessoas estamos empreendendo, toda no feminino.

Inclusive destoando duma norma gramatical que diz que, no contexto apresentado, o correto seria usar a flexão no masculino. Bom, para fazer as pazes com o português, tomemos essa escolha como licença poética.

A troca se estendeu. E percebi meu lado chato, que pega no pé com questões sociais, efervescido.

Calma. Não sou santo. Não sou desconstruidão. O machismo tá arraigado em mim. Fico puto comigo por coisas que não consigo mudar e algumas merdas que faço. Mas, né. A gente segue fazendo nossa obrigação. Reeducar-se. Desconstruir-se.

Ops. Volta para troca.

Chegou uma hora que eu não achei legal ouvir uma generalização (numa legítima opinião de outra pessoa, diga-se de passagem), de que pensar e discutir educação era uma pauta mais importante e prioritária que a "boba" discussão sobre gênero e a licença poética de dizer "investidoras" ao invés de "investidores" para referir-se ao público masculino e feminino da nossa plataforma.

Então, resolvi escrever uma reflexão no espaço onde se dava a troca. Compartilho ela aqui contigo na esperança de trazer à superfície um pouco da complexidade que se perde em meio às nossas cotidianas simplificações e reducionismos presentes nas mídias sociais.

Gente, eu adoro conversar sobre essas questões envolvendo educação e transformação social. Aliás, acho fundamental. Só me preocupo com acenos para "simplificações e generalizações".

Quero só atentar que "mais relevante" ou "mais prioritário" é régua individual. Tem infinitos recortes sociais, de classe, gênero, orientação sexual, etnia, dentre outros. É fundamental, a meu ver, trazer a lente de privilégios sobre uma discussão nesse aspecto. Do contrário, vejo um risco sutil de se estabelecer uma opressão velada, como se pessoas que não estão em situação de desfavorecimento ou opressão (seja ela explícita ou velada, intensa ou moderada, etc) pudessem definir caminhos a seguir para que a opressão cesse (no sentido de não escutar quem tá apanhando no lombo e se ferrando).

Se por um lado convergimos na ideia de que educação é solução a longo prazo (e precisamos entrar no mérito do que significa educação individual e coletivamente), por outro eu divirjo e sustento a ideia de que determinados temas não precisam deixar de ser pauta só porque determinado grupo não considera relevante. Sustento a ideia de que, numa sociedade que se diz buscar equidade e justiça social, cabe a quem não sofre com as opressões também buscar caminhos de lidar com o desconforto de incessantemente ter pautas "desnecessárias" diante de si. E fazer um exercício de compreensão da importância dessas pautas para grupos marginalizados. Ou ao menos não exercer mais opressão sobre essas causas.

Quando falo sobre minoritários, ou marginalizados, incluo também a pauta de gênero. Que poderia ser alguma outra. Fazendo um recorte, aqui, de que ao homem, muitas vezes, parece que questões relevantes para mulheres são frescura ou preocupação besta (talvez pelo fato de não alcançarem o que é ser mulher numa sociedade patriarcal). Ou se justificando a partir do resgate de vozes de algumas mulheres que dizem que essas discussões não tem nada a ver e são bem resolvidas, não são impactadas e afetadas por uma estrutura patriarcal (como se isso definisse todo um coletivo). Como exemplo prático, basta pensar que não faz 100 anos que mulheres conquistaram o direito de votar.

Enfim, sinto por poder chegar como chato para algumas pessoas, ou pedante. É que tenho cuidado com simplificações da realidade, generalizações e afirmações, quando não fundamentadas (ou ao menos não exploradas explicitamente). Trago isso a partir do caminho que tenho estudando as complexidades do ser.

E lido super bem com discordância tá gente. Não quero convencer ninguém de nada não. Como sou comprometido (em trabalho e vida cotidiana) em defesa de transformação social (por meio da educação formal e informal), achei importante eu falar sobre.

No final, se não podemos chamar de educação essa troca aqui no grupo, do que mais poderíamos chamar? Então, a meu ver, estamos nos educando agora mesmo, nos afetando e sendo afetados por uma questão social que atravessou sutilmente (ou não) o grupo.

Paulo Freire tá aí pra nos dizer que nos educamos entre nós, mediatizados pelo mundo, né?

Acabou aí acima a minha mensagem. E sigo com uma última reflexão adicional.

A gente acha que tá livre dos machismos da vida, só porque não estupramos ninguém, ou não fazemos o que fez o advogado do caso Mariana Ferrer. Ou porque não fazemos uma declaração pública como um Rodrigo Constantino da vida.

Ufa! Que bom viu. Isso nem deveria estar sendo discutido se fazemos ou não. Século 21, galera.

O que pega, mesmo, é nossa disposição em dar a cara a tapa e divergir sobre temáticas complicadas e defender uma pauta de gênero nos círculos que estamos. Bancar o chato e bater de frente. Se assumir parte do problema e convidar outros homens para perceberem seus machismos. Assumindo o risco de ser tachado como o pela saco da galera.

Quantas vezes eu já fiquei quieto, sorriso amarelo, e não me posicionei quando vi um comentário desnecessário sobre mulheres. Quantas vezes não problematizei, seja no trampo, seja com um cliente, seja com amigos, seja na família.

De novo. Não sou desconstruidão não. Tô no mesmo barco que você. E só quero te lembrar que essa maldita cultura do estupro, da objetificação da mulher, do desrespeito, não é problema delas não. É nosso.

Não tô dizendo pra tu ser o chato em tudo que é espaço. Não quero definir uma regra sobre como você deve agir. Só quero te dizer que não forçar uma mulher a fazer o que você quer que ela faça, é mera obrigação.

Tá mais do que na hora (se já não passou) de se preocupar com as sutilezas do machismo que há em nós, e que o sustentam e justificam.

E se você achou tudo isso uma baboseira, e nada pode levar de reflexão sobre seus próprios comportamentos... ainda mostra que há muito trabalho a fazer.