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Sérgio Luciano

O assassinato do João Alberto no Carrefour foi mesmo caso de racismo?

Sérgio Luciano

02/12/2020 04h00

Se você tá se fazendo essa pergunta, eu compreendo. É tentador, na real, compreender esse assassinato como não sendo um caso de racismo. Aliás, pode ter vários elementos que levam a essa conclusão.

Aliás, esse texto nasce da tristeza e indignação de ler um texto veiculado e atribuído a Ale Straub, se valendo da Comunicação Não Violenta (CNV) como ferramenta de análise fria da situação, a nível individual, sem considerar as estruturas que são indissociáveis do viver em coletivo.

Resgatemos parte do referido texto, partindo do pressuposto (errôneo) de que a CNV se baseia, principalmente, em separação de fato de juízo de valor:

Qual o fato ocorrido?

Dois homens mataram um outro homem.

Qual o juízo de valor?

Mataram por causa de racismo.

Como que a imprensa sabe que foi crime de racismo?

Somente pelas imagens da violência não foi possível entender quais as motivações do crime.

O texto da matéria também não informa onde está a evidência do racismo. Pelo contrário, diz que a vítima tentou agredir uma funcionária.

— Ale Straub

Antes de continuar, já adianto a conclusão que dou ao texto que vos escrevo. Foi racismo. E não foi. Porém, a partir de diferentes perspectivas ao redor da história. A depender do caminho pelo qual você escolher seguir.

Comecemos pela perspectiva individual, a partir do recorte do texto que eu trouxe acima.

De fato, por imagens e relatos da situação, o que havia aparentemente (não vou afirmar, tá) era um homem (negro) que teve comportamentos inadequados, inclusive tentando agredir uma funcionária (apenas replico o que li, tá).

Então, em dado momento, dois seguranças usam da força para imobilizar este homem e, partindo do pressuposto que a tentativa de agressão e importunação de fato existiram, resguardar a ordem e segurança de pessoas que trabalham no local.

Até aí, legítimo, gente. Legítimo enquanto ação protetiva.

Aliás, a gente pode resgatar um conceito fundamental que o Marshall Rosenberg traz ao falar sobre CNV: uso protetivo da força.

Usar da força de forma a resguardar algo que é importante, é uma estratégia que usamos de vez em quando, em diversos lugares. Porém, aí a gente vai para uma outra nuance da CNV:

- O meu uso da força está a serviço da punição ou da contenção de um dano?

Se está a serviço da punição... sinto lhe dizer, mas isso não tem nada a ver com o que se propõe com a CNV não, tá? Claro que isso é um papo bem complexo, que podemos explorar numa troca nos comentários.

Maaaas, né! Não me parece que os dois seguranças têm conhecimento do significado de uso protetivo da força. Tampouco Ale Straub.

Então, até aí, a gente poderia pressupor, numa possível perspectiva, que os caras estavam apenas cumprindo seu papel de seguranças e resguardando o bem-estar de funcionários da loja diante de um risco. Se era um protocolo padrão de segurança, não me cabe aqui opinar e aprofundar também.

Então, até poderíamos dizer (apesar de eu discordar do que vou dizer agora) que não houve racismo até o momento da imobilização do João e ação para manutenção da segurança.

Bem, o que se segue a gente já sabe né.

Espancamento. Assassinato.

Aí, quero fazer um recorte importante.

Quando falamos de racismo, normalmente, estamos acostumados a pessoalizar as coisas. Entendemos que racismo é uma experiência individual apenas. Aliás, muitas e muitos de nós, a partir dessa perspectiva, vão dizer:

- Olha, eu não sou racista viu! Eu sou antirracista e coloco hashtag toda semana no meu twitter, coloco badge nas minhas fotos, e até tenho amigos negros...

Isso é só um exemplo escrachado tá. Tem infinitos outros que poderia dar de cotidianas explicações de pessoas que se dizem não racistas, orgulhosamente, antirracistas.

Acho maneira a intenção. Porém, acrescentemos mais uma nuance.

Racismo não é apenas uma experiência individual. Ele também é um fenômeno social. Ou seja, algo que permeia a sociedade e, inconscientemente, molda a forma como enxergamos o mundo e interagimos com os estímulos externos.

Isso que trago é uma exortação. A mim. A você.

PRECISAMOS PARAR DE ACHAR QUE A VIDA SE FAZ SÓ DO ASPECTO CONSCIENTE DE CADA PESSOA.

Se a gente não olha para aspectos subjetivos (e inconscientes) que permeiam o indivíduo e a sociedade, a gente vai continuar caindo no erro de análises rasas e simplistas como as do Ale Straub, fazendo um desserviço pra uma luta de fato antirracista.

Exortação feita, continuemos.

Quando falamos de racismo estrutural, é a partir do conhecimento de que vivemos num país de raízes escravagistas, que foi o último a acabar com a escravidão, onde negros foram "libertos" e jogados no mundo, enquanto os brancos senhores de escravos receberam carinhos do governo.

Quando falamos de racismo estrutural, é a partir da ideia de que a abolição da escravatura foi logo ali, e pouco foi feito para reparação histórica de séculos de exploração, violência e escravidão.

Quando falamos de racismo estrutural, falamos de um pensar racista sutil (que na real eu acho escancarado) que faz com pessoas negras sejam, a priori, consideradas perigosas, enquanto pessoas brancas, numa mesma situação, sejam tratadas de maneira totalmente diferente.

Então, quando falo que o racismo transcende o nível consciente e individual, estou dizendo que existem aspectos coletivos que nos levam a associar pessoas de pele negra (clara ou escura), com traços de negritude, com linguagem mais comum a periferias, dentre outros aspectos, a um perigo eminente.

Um jovem negro andando de touca e cabeça baixa, parece perigoso. Um jovem branco, é um jovem branco andando de touca e cabeça baixa.

Um grupo de jovens negros entrando num shopping, é sinal de atenção dos seguranças. Um grupo de jovens brancos entrando num shopping, é um grupo de jovens brancos entrando num shopping.

Um jovem negro pego com alguns gramas de maconha, é quase um traficante internacional. Um jovem branco pego com centenas de kg de maconha, é um jovem branco com centenas de kg de maconha.

A gente pode fazer uma série de comparações de como culturalmente enxergamos pessoas negras, e vamos percebendo que existe um estigma sobre esses corpos.

Então, voltando para o caso do João, veja.

Se fosse um homem branco, qual a probabilidade de a imobilização para contenção de um dano, se tornar um espancamento, asfixia e assassinato? Baixa. Muito baixa.

Aquela interação, no aspecto social, remonta à mesma estrutura racista que falo nos exemplos que dei. Não estou reivindicando o racismo dos dois seguranças.

Aliás, talvez eles de fato não se vejam racistas. E, no final das contas, pouco me importa se eles são ou não racistas.

Aquilo que vejo fundamental é percebermos que ser negro, nessa situação, tem mais próximo de si o limite de a imobilização diante de um risco ser cruzado e se tornar um espancamento e assassinato.

Essa estrutura, não tá em mim. Não tá em você. Diretamente.

Mas também está. Nos atravessa.

E o texto do Ale Straub vai justamente nessa direção.

Reivindica que o crime não foi racista, mas esquece de olhar para as estruturas. E ainda culpa o jornal pelo título da matéria.

Eu não diria que o Ale Straub é racista. Sequer o conheço.

Mas, me parece, que a estrutura da qual vos falo, está fortemente enraizada nas provocações que ele trouxe. Bem como em nossas cotidianas discussões (principalmente em mídias sociais) sobre algo ser ou não de cunho racista.

Por fim, deixo um pedido:

Quando forem conversar sobre racismo, lembrem das questões estruturais. Não apenas pessoalizem a situação. Lembrem que é um assunto mais complexo do que se parece.

E será que o assassinato de João Alberto foi um crime de racismo?

Se a gente não olhar pra questão estrutural, certamente pode pender para a ideia de que um sistema racista nada influencia nesse assassinato. Porém, não sou eu que vou te convencer se foi, ou não foi. Não tenho o poder de mudar sua opinião. Queria, apenas, fazer uma provocação.