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Sérgio Luciano

Do "tenho que" ao "eu escolho porque?

Sérgio Luciano

Sérgio Luciano tem como missão de vida o despertar da potencialidade que vive em cada ser humano, a partir da própria sabedoria de cada um. Com experiência em logística e gestão de processos, faz parte da rede Guerreiro Sem Armas, formação de tecnologias sociais para a realização de projetos e sonhos coletivos, e encontrou sua paixão de vida no Process Work, uma abordagem terapêutica para mediação de conflitos, facilitação de grupos e autoconhecimento derivada da psicologia jungiana.

21/10/2020 04h00

Um dos temas que estudo há alguns bons anos é Comunicação Não Violenta (CNV). Abordagem desenvolvida pelo psicólogo americano Marshall Rosenberg que, dentre diversos aspectos, aborda o termo necessidades como aspectos de nosso bem-estar e postula que toda ação que temos está a serviço do cuidado dessas necessidades, ainda que não tenhamos consciência disso.

São alguns exemplos dessas necessidades: conforto, apoio, cuidado, compreensão, alimento, aprendizagem, mutualidade, empatia, amor, carinho, movimento, descanso, segurança, dentre outras. Isso significa que, para termos bem-estar, é importante que esses aspectos estejam satisfatoriamente cuidados.

Porém, perceba que esses aspectos são subjetivos, e precisam ser contextualizados para serem compreendidos. No diálogo, na troca, que vamos compreender o significado que cada pessoa atribui a essas palavras, como cada indivíduo as percebe. Longe de definir uma verdade, a ideia é ter alguns parâmetros de onde partir para buscar mais compreensão de si e do outro.

Vamos olhar para essas necessidades num aspecto prático.

Pense em uma pessoa sentada à frente do computador lendo esse texto. Quem sabe a pessoa seja você, né?

Talvez, ela já estivesse sentada à frente do computador há pelo menos 1h30. De repente, começa a se ajeitar na cadeira, muda a posição do encosto e a altura do assento. Então, volta à leitura.

Pela perspectiva da CNV, quando essa pessoa se movimentou na cadeira ela poderia tê-lo feito para cuidar da sua necessidade de conforto. Com as costas doendo e os pés formigando depois de 1h30 praticamente imóvel, percebeu a importância de se movimentar.

Se ela não se ajeitasse, possivelmente a dor poderia se acentuar, os pés formigarem ainda mais e seu nível de bem-estar ficaria cada vez menor. Então, a solução encontrada para cuidar de sua necessidade de conforto foi mexer na cadeira para melhorar a postura na qual estava sentada.

Aí, ao regular a cadeira, percebeu seu corpo um tanto tenso, rígido, e resolveu fazer uma pausa de 15 minutos para fazer um alongamento. Ao se alongar ela estava cuidando de sua necessidade de movimento e saúde (pensando no bem-estar de seu corpo físico) e da necessidade de descanso (pensando no tempo que já estava focada naquela tarefa).

Podemos olhar para tudo que fazemos como uma ação para cuidar de uma necessidade. Desde uma atividade mais simples e corriqueira (como descrito nesse exemplo), até a decisão por aceitar ou não um trabalho, por fazer determinada graduação, por buscar uma parceira ou parceiro na vida, almoçar salada ou uma feijoada, etc.

Lembrando, de novo, que a percepção da satisfação das necessidades não é algo estático e fixo. Varia de pessoa para pessoa, de contexto para contexto.

Agora, voltemos à ideia lá do primeiro parágrafo do texto, sobre os nossos "temos que" de estimação. Se num primeiro momento, não consciente do que é importante para mim, eu "tenho que manter esse trabalho, mesmo que eu não goste", agora podemos olhar sob uma outra perspectiva.

Eu ESCOLHO manter esse trabalho PORQUE percebo que, nesse momento, ele é a fonte de renda que tenho para cuidar da minha segurança financeira (ter dinheiro para pagar as contas no final do mês), conforto (ter um salário suficiente para morar numa casa confortável) e conexão e amor (posso pagar as viagens de passeio três vez ao ano para mim e família).

Eu até poderia buscar outros trabalhos, mandar meu currículo, mas não me sinto seguro (diante de cenário econômico, crenças que tenho, etc) de trocar o certo, de um trabalho que já tenho durante 10 anos, por algo duvidoso. Então, eu fico onde estou, ainda que descuide da minha autonomia (pois o trabalho é presencial e não consigo mudar isso) e tranquilidade e respeito (trabalho com um gestor que se mostra inflexível e grosseiro).

Perceber que estamos escolhendo o tempo todo, apesar dos contextos, nos ajuda a ter o poder sobre nossas ações em nossas mãos, ainda que seja necessário enlutar que o contexto não é nada favorável e não temos energia, forças ou recursos, para fazer diferente.

Sim. Contexto. Essa palavrinha não poderia faltar.

Viver a partir de um lugar de escolha não significa dizer que a vida é meritocracia e viver a lógica do "se você quer, você consegue". Pelo contrário. É uma forma de reconhecermos que sempre existe uma potência individual, e que às vezes não conseguimos acessar essa potência diante do contexto no qual estamos.

Em última instância, percebermos que mudanças sistêmicas poderiam contribuir para que nosso caminho fosse mais suave, individual e coletivamente. Essa é, inclusive, a importância de olharmos o mundo para além do nosso umbigo. Pode ser que algumas pessoas não tenham o mesmo acesso a recursos que nós temos, ou que não tenham força pessoal suficiente para transpor dificuldades oriundas de um sistema que alimenta desigualdades.

Trocando em miúdos, numa temática polêmica: tão importante quanto discursar que toda pessoa negra tem potência individual para chegar onde ela quiser, é também reconhecer que existe uma lógica social racista que contribui para que sua jornada seja mais pesada e dura. E, nesse caminho mais duro, muitos não conseguem acessar, ou sustentar, essa potência individual. Nesses casos, políticas afirmativas são parte da solução, se pensamos em bem-estar coletivo.

Olhar as potências individuais sem perder de vista os aspectos coletivos é fundamental. Senão, esse "eu escolho porque" se torna, tão somente, uma sutil estrutura de opressão, com a falsa sensação de emancipação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.