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Vacinas funcionam, mas precisam da adesão da população; entenda por quê

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Imagem: iStock

Renata Turbiani

Colaboração para VivaBem

28/06/2021 04h00

As vacinas são consideradas as principais aliadas na prevenção de diversas doenças —são cerca de 30— com o melhor custo-benefício para a saúde pública. E isso não é recente: já em 1796, a primeira vacina de que se tem notícia foi desenvolvida pelo médico rural Edward Jenner, que buscava uma forma de frear o avanço da varíola na Inglaterra.

Foi apenas no século 20 que os imunizantes, junto com outras ações de vigilância sanitária, se tornaram responsáveis pela eliminação e controle de doenças importantes, como a própria varíola (que foi erradicada), o sarampo, a poliomielite e a rubéola, só para citar algumas.

Mas, para que essa estratégia continue sendo eficiente, é preciso que as pessoas colaborem e se vacinem, mantendo as taxas de imunização altas. E isso, infelizmente, tem sido cada vez mais difícil.

Cobertura vacinal está caindo

Para se ter uma ideia, no Brasil, dados do SI-PNI (Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações) do Ministério da Saúde mostram que as coberturas vacinais estão em queda há cinco anos e não atingem nenhuma meta no calendário infantil desde 2018.

Em 2020, a taxa geral, contando todas as vacinas e para todas as idades, foi de 66,63%, sendo que o ideal é entre 90% e 95%. Os índices mais baixos foram registrados para febre amarela (57,11%) e tetraviral (20,67%), que protege contra sarampo, rubéola, caxumba e varicela (catapora).

"Quando o percentual de vacinados não é alto o suficiente, o agente causador da doença, que pode ser um vírus ou uma bactéria, encontra pessoas suscetíveis e se espalha com facilidade", explica Flávia Bravo, membro da diretoria e da Comissão de Revisão de Calendários de Vacinação da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações).

"Agora, quando a cobertura é alta, se uma pessoa adoece, mas no ambiente onde ela vive, há vários imunizados, o agente não consegue circular e acaba ficando ali com ela", diz.

A médica acrescenta que a chance de um indivíduo infectar outro reduz significativamente e pode até desaparecer quando a cobertura vacinal está entre 90% e 95%.

"Com o imunizante, é como se criássemos uma barreira que protege as pessoas. E isso é importante, inclusive, para proteger os que não podem ser vacinados, seja pelo motivo que for."

A tal imunidade coletiva

Álvaro Furtado da Costa, infectologista do HC-FMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), diz que ao imunizar um número suficiente de pessoas em uma comunidade contra as doenças mais prevalentes naquela localidade, cria-se a chamada imunidade coletiva (ou de rebanho).

A expressão vem sendo usada de forma equivocada durante a pandemia do novo coronavírus (Sars-CoV-2) dando a entender que seria necessário contaminar as pessoas de forma proposital para atingir essa proteção —mas ela se refere à imunidade alcançada apenas pela aplicação das vacinas.

Para entender melhor, o médico propõe o seguinte exercício: imaginar um celeiro com 100 animais, 99 vacinados e um não. Na sequência, acrescentar ali um doente. Neste caso, o vírus ou a bactéria terá de percorrer todo o espaço até achar o que está suscetível. Enquanto isso, ele vai batendo nos que estão protegidos, cujo risco de adoecer é pequeno e, nesse processo, perde força.

"Quando vacina-se o maior número de pessoas possível, se adoece menos, se transmite menos e a circulação do agente infeccioso cai", avalia o especialista.

"Agora, pense em uma situação inversa, um celeiro com 20 animais vacinados e 80 suscetíveis. No momento em que insiro um doente, ele encontrará outros 80 para infectar, fazendo o vírus ou a bactéria circular e transmitir a doença com força e velocidade. É um efeito dominó", explica.

Doenças ainda podem voltar

Outro ponto importante relacionado à cobertura vacinal é que, quando ela está baixa, o risco de surgirem surtos de doenças aumenta e ainda o retorno das que estavam controladas, já que a disseminação está facilitada.

Foi justamente o que aconteceu com o sarampo em 2018, que não tinha um caso autóctone (de origem interna) registrado por aqui há 18 anos e voltou a provocar surtos em diversos estados brasileiros. Isso, inclusive, fez o país perder, no ano passado, o status de país livre da doença, concedido em 2016 pela Opas (Organização Pan-Americana de Saúde).

Outras enfermidades que também estão ameaçadas de sair dessa lista por conta das constantes quedas no número de brasileiros imunizados são a poliomielite (que era considerada erradicada no território nacional desde 1994), a difteria e a rubéola congênita.

"Só conseguimos controlar uma doença ou erradicá-la quando a maioria da população adquire imunidade contra aquele agente infecioso, e isso é alcançado por meio da vacinação em massa", afirma Umbeliana Barbosa, infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo. "É dessa forma que deixamos de perpetuar a sua circulação", diz.

Vale lembrar que a vigilância dessa cobertura vacinal deve ser constante, já que muitas doenças preveníveis com vacina, mesmo estando eliminadas em algumas regiões do planeta, podem se espalhar a partir de áreas onde ainda não foram controladas.

Por isso, a recomendação de manter as vacinas em dia é considerada mais do que um cuidado pessoal: ela tem um caráter de proteção coletiva. "É um cuidado com o outro e uma forma de colaborar para otimizar os recursos do sistema de saúde e focar em doenças para as quais não existe vacina, como as crônicas e cardiovasculares", acredita Flávia Bravo.

Covid-19: vacinação ganha protagonismo

Diante dos impactos e enormes desafios provocados pela covid-19, a vacina assumiu um protagonismo ainda maior atualmente.

Médicos, cientistas e estudiosos concordam que só com ela será possível controlar a pandemia e alcançar uma diminuição de casos graves, internações e mortes, desafogando os sistemas de saúde de todo o país.

"No momento, o objetivo não é eliminar o vírus, já que não há vacina suficiente para imunizar 90%, 95% da população mundial", afirma a diretora da SBIm. "Agora precisamos evitar que o vírus circule. No futuro, com mais vacinas, aí sim poderemos pensar na erradicação da doença", explica.

Especialistas do mundo todo ainda divergem em relação à porcentagem de cobertura ideal da vacinação contra o novo coronavírus, mas o que se acredita é que, com um índice entre 70% e 80% de vacinados, já é possível conter a crise e reduzir drasticamente os impactos.

Vide os exemplos de países como Estados Unidos e Israel, onde grande parte da população está imunizada e já pode circular sem máscara em vários locais.

"Só vamos saber na prática esse 'número mágico' quando mais estudos forem feitos e após a doença desaparecer ou ficar endêmica, como a gripe. Mas, independentemente disso, é fundamental que a gente consiga vacinar o maior número de pessoas, com as duas doses, e no menor espaço de tempo", aponta Álvaro Furtado da Costa.

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