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Rico Vasconcelos

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Por que temos mais de uma vacina para covid-19 e nenhuma para HIV?

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Rico Vasconcelos

Médico clínico geral e infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção do HIV e outras ISTs. Participou como pesquisador de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e do Projeto PrEP Brasil, e na implementação da PrEP no SUS (Sistema Único da Saúde). É coordenador clínico de estudos de PrEP de longa duração e de vacina preventiva contra o HIV no Centro de Pesquisas Clínicas do HC-FMUSP. Concluiu seu doutorado sobre PrEP e ISTs na FMUSP e atua difundindo e democratizando o conhecimento científico atualizado sobre a temática da prevenção e tratamento do HIV e outras ISTs. Desenvolve atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável. CRM/SP 116.119, RQE Clínica Médica 88317 e RQE Infectologia 88318

Colunista do UOL

27/08/2021 04h00

Nunca na história desse planeta falamos tanto sobre vacinas. Não porque antes não dávamos importância ao assunto, mas pelo fato de agora haver muito mais interesse nos detalhes desse tema. Nesse sentido, percebo que um questionamento que tem sido especialmente frequente é por que chegamos tão rapidamente a uma vacina contra a covid-19 e ainda não temos uma para o HIV.

A pergunta sem dúvida é excelente e mostra que o interlocutor está atento ao mundo em que vive, mas para ser respondida ela precisa ser dividida em partes.

Primeiro, é preciso entender que não começamos a pensar em uma vacina contra o HIV somente agora. Desde que existe HIV no mundo os pesquisadores tentam desenvolver uma vacina que proteja dessa infecção. O primeiro ensaio clínico que testou uma vacina contra esse vírus foi realizado ainda na década de 1980 e já ali percebemos que as técnicas até então conhecidas de imunização, que funcionavam bem para hepatite B ou tétano, não conseguiam mostrar nenhum bom resultado para o HIV.

Chegamos aí ao segundo ponto importante: a alta variabilidade genética do HIV. Alguns vírus podem sofrer mutações enquanto se replicam, dando origem a versões diferentes do vírus original. As variantes genéticas do coronavírus (alfa, beta, gama, delta) são exemplos disso. No caso do HIV, centenas de novas variantes virais podem surgir em um único dia em apenas uma pessoa infectada, fazendo com que a imunidade produzida contra um determinado tipo de HIV não funcione para uma nova mutação que surgiu.

HIV e coronavírus são dois vírus bem diferentes e por isso interagem com o nosso corpo e imunidade cada um à sua maneira. Temos, por exemplo, no mundo até hoje dezenas de milhões de pessoas que se curaram depois de uma covid-19, enquanto apenas 1 parece ter se curado espontaneamente do HIV.

É mais fácil para o corpo humano montar uma resposta imune eficaz contra o Sars-CoV-2 do que contra o HIV.

Os pesquisadores da imunização começaram então a desenvolver e testar diferentes formas para se induzir uma resposta imune contra o HIV por meio de vacinas, tentando sempre impedir o escape viral das defesas humanas. A maioria delas não obteve sucesso e houve até tentativas que provocaram um resultado oposto e não desejado, em que a vacina aumentou o risco de infecção por HIV.

A melhor candidata testada até hoje foi uma vacina usada no estudo RV144, conduzido na década passada na Tailândia. Ela conseguiu a redução de cerca de 30% na incidência de infecções por HIV nas pessoas vacinadas, quando comparadas com pessoas que receberam placebo. No entanto, quando testada posteriormente na África, essa vacina infelizmente não conseguiu reproduzir os mesmos resultados protetores.

O aprendizado de décadas de ensaios clínicos fez com que os pesquisadores aprimorassem as plataformas de imunização, chegando em 2020 a complexos mecanismos de indução de imunidade, como as vacinas que utilizam vetores virais e RNA mensageiro.

Essas técnicas de imunização são bastante seguras uma vez que não são injetados nas pessoas os vírus cuja proteção buscamos, mas apenas os genes com as informações para a produção de proteínas deles.

As novas plataformas de imunização contra o HIV já se encontravam em início dos testes clínicos em seres humanos quando a pandemia de Sars-CoV-2 começou. Só foi preciso trocar os genes do HIV para os do coronavírus para em seguida testá-las em ensaios clínicos.

Em resumo, depois de pouco mais de 1 ano de pandemia de covid-19 já temos mais de uma vacina eficaz contra o coronavírus justamente porque estamos há 40 anos pesquisando uma vacina contra o HIV. E não chegamos ainda a uma vacina contra o HIV da mesma forma que chegamos para o coronavírus porque os dois são vírus diferentes.

Não temos ainda, mas estamos chegando cada vez mais perto disso. Os estudos Mosaico e Imbokodo, que testam uma vacina de vetor viral com adenovírus contra o HIV (a mesma plataforma das vacinas AstraZeneca e Janssen contra a COVID-19) estão chegando ao fim do recrutamento de participantes. Além disso, a farmacêutica Moderna iniciou um estudo de fase 1 para testar a mesma plataforma de RNA mensageiro da vacina de covid-19 agora para o HIV.

Fique ligado. É bom estar por dentro dos detalhes do mundo das vacinas, pois nos próximos anos, pelo que tudo indica, esse será um assunto do qual vamos falar cada vez mais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL