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Rico Vasconcelos

Estudo Mosaico de vacina preventiva contra o HIV chega ao Brasil

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Rico Vasconcelos

Médico infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É coordenador do SEAP HIV, ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Colunista do UOL

20/11/2020 04h00Atualizada em 20/11/2020 11h59

A pandemia do novo coronavírus colocou as vacinas no centro do debate público nos últimos meses no Brasil e no mundo. De uma hora para outra, todas as pessoas do planeta (as sensatas, pelo menos) colocaram o seu desejo e esperança em uma vacina eficaz e segura para a prevenção contra a covid-19.

O movimento é perfeitamente compreensível, já que a pandemia atual e as limitações impostas por ela são a maior urgência de 2020. No entanto, o momento é propício para lembrar que, antes do coronavírus, já havia outras pandemias à espera de uma vacina. Será que as pessoas do mundo se interessariam da mesma forma por uma vacina que protegesse contra a infecção por HIV?

Desde que a pandemia de HIV foi reconhecida, na década de 1980, os pesquisadores tentam desenvolver uma vacina contra esse vírus. Já foram testadas diversas candidatas, sendo a maioria delas com resultados pouco animadores, por não mostrarem nenhuma proteção ou até mesmo por aumentarem o risco da aquisição do HIV.

A única vacina experimental que até hoje demonstrou alguma eficácia na prevenção do HIV foi a ALVAC/AIDSVAX, cujos resultados do ensaio clínico de fase 3 foram publicados em dezembro de 2009. Nesse estudo, conduzido na Tailândia com mais de 16 mil participantes, houve redução de cerca de 30% nas infecções entre os indivíduos vacinados, quando comparados com os que receberam placebo.

Agora pode ser que as coisas comecem a mudar nesse cenário. Uma nova vacina, desenvolvida por pesquisadores da Universidade de Harvard, nos EUA, conseguiu a proteção inédita de 67% em experimentos realizados com macacos.

Ela utiliza como vetor o Adenovírus 26, um vírus inofensivo aos seres humanos, usado na vacina apenas para carregar enxertado no seu material genético as informações para a produção de proteínas do HIV. Depois de injetado em uma pessoa, esse vírus vai ser replicar e produzir essas proteínas do HIV, provocando uma resposta de defesa contra elas e contra o HIV, sem que essa pessoa tenha tido qualquer contato com o HIV verdadeiro.

Em seres humanos, já temos estudos mostrando que essa nova vacina não tem efeitos colaterais graves e que consegue induzir a produção de anticorpos de maneira satisfatória entre os vacinados. Resta agora saber se, entre seres humanos, esses anticorpos podem proteger de uma infecção por HIV tão bem quanto protegeu os macacos.

Para responder a essa dúvida, dois grandes ensaios clínicos estão sendo realizados simultaneamente para testar a eficácia protetora da vacina. O primeiro deles se chama Imbokodo, estudo que incluiu, entre 2017 e 2019, 2.637 mulheres cisgênero de 18 a 29 anos de idade na África do Sul, Zimbábue, Moçambique, Zâmbia e Maláui. Todos eles países que têm uma epidemia de HIV concentrada entre mulheres cisgênero heterossexuais.

Agora, um segundo estudo chamado Mosaico pretende recrutar 3.800 homens gays ou bissexuais, e pessoas transgênero nas Américas e Europa, regiões que apresentam a epidemia concentrada nesses grupos.

Nos dois estudos, os participantes incluídos devem ser considerados vulneráveis ao HIV. Eles serão sorteados para receber aleatoriamente as quatro doses da vacina experimental ou de placebo. Receberão também todo o suporte atualmente disponível para a prevenção do HIV e serão acompanhados por cerca de 2 anos, fazendo testagens trimestrais para esse vírus.

O que se deseja demonstrar é que, entre aqueles que receberem a vacina experimental, a incidência de HIV será menor do que entre os que receberem placebo.

No Brasil, o estudo Mosaico vai recrutar participantes em São Paulo (no Hospital das Clínicas da FMUSP, no Instituto de Infectologia Emílio Ribas e no CRT DST Aids), no Rio de Janeiro (na Fiocruz e no Hospital Geral de Nova Iguaçu), em Belo Horizonte (na UFMG), em Manaus (na Fundação Medicina Tropical) e em Curitiba (no Centro Médico São Francisco). Alguns desses centros já até começaram as visitas de triagem de participantes.

Se você mora em alguma dessas cidades e se interessou pelo estudo, entre em contato com as instituições participantes para obter mais informações. E mesmo que você não faça parte do grupo alvo da pesquisa, ajude a divulgá-la. Dessa forma estará ajudando a ciência e a população mundial.

O desenvolvimento de vacinas para a prevenção contra infecções foi certamente a intervenção de saúde pública com o maior impacto até hoje na redução do número de mortes causadas por doenças transmissíveis.

Assim como para covid-19, uma vacina contra o HIV é uma ajuda muito mais que bem-vinda para a humanidade. Faça parte dessa história.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL