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Rico Vasconcelos

E se a vacina contra covid-19 aumentar o risco de infecção por HIV?

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Rico Vasconcelos

Médico infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É coordenador do SEAP HIV, ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Colunista do UOL

30/10/2020 04h00

Essa preocupação existe e foi o que motivou dois dos maiores pesquisadores da prevenção do HIV do mundo, a Dra Susan Buchbinder e o Dr Lawrence Corey, a escreverem na semana passada uma carta para a revista científica The Lancet.

Na carta, os cientistas fazem um alerta para a comunidade científica internacional para o fato de que, no passado, alguns ensaios clínicos demonstraram que as vacinas que utilizavam como vetor o adenovírus 5 (Ad5) aumentaram as chances dos usuários se infectarem com HIV.

Eles se referem a dois estudos iniciados a partir de 2004 chamados Step e Phambilli, que pretendiam avaliar a segurança e a eficácia protetora contra uma infecção por HIV de uma vacina experimental que usava o Ad5 modificado.

Os estudos recrutaram milhares de homens e mulheres nas Américas (inclusive no Brasil), Caribe, Austrália e África do Sul para receberem aleatoriamente a vacina experimental ou placebo. No entanto, foram interrompidos precocemente, pois as análises intermediárias do Step apontaram que a vacina não só não protegeu os participantes contra o HIV, como também aumentou as chances dessa infecção ocorrer.

O princípio de uma vacina que utiliza um vírus como vetor considera que esse vírus deve ser inofensivo aos indivíduos vacinados. Ele precisa apenas carregar no seu DNA alguns genes enxertados de outro agente contra o que se pretende imunizar, como por exemplo o HIV ou o coronavírus.

Quando injetado no corpo de uma pessoa, esse vírus vetor vai se multiplicar e produzir as proteínas daqueles genes que tinham sido enxertados, desencadeando assim uma resposta imune contra o HIV ou a covid-19, sem que o vacinado tenha de fato tido essas doenças.

Nos estudos Step e Phambilli, o aumento da suscetibilidade ao HIV foi atribuído à infecção pelo vetor adenovírus 5, que causou uma diminuição das respostas do corpo contra o HIV, sobretudo entre homens cisgênero não circuncidados. Essa hipótese foi confirmada posteriormente em modelos experimentais utilizando macacos rhesus.

O alerta dos dois pesquisadores à comunidade científica internacional se faz oportuno nesse momento uma vez que entre as vacinas experimentais contra a covid-19 existem três que utilizam o Ad5 como vetor. Uma delas é a já famosa vacina Sputnik V, desenvolvida na Rússia, além da Ad5-nCoV desenvolvida na China pela CanSinoBIO e a californiana ImmunityBio hAd5.

Nenhuma das vacinas atualmente em fase de testes no Brasil utiliza o adenovírus 5.

Em 2013, depois da interrupção dos estudos Step e Phambilli, foi realizada uma convenção com os mais importantes pesquisadores e estudiosos do campo das vacinas para estabelecer os cuidados necessários na condução de futuros ensaios clínicos que utilizassem o vetor de Ad5.

Além de desaconselharem novos estudos de vacina contra HIV com esse vetor, foi recomendado que para qualquer outra vacina experimental com Ad5, a incidência de infecções por HIV deveria ser cuidadosamente observada, principalmente quando os estudos fossem conduzidos em regiões do planeta que ainda apresentam muitos casos dessa infecção.

A carta dos dois pesquisadores reforça as recomendações desse consenso de especialistas. Ela não pretende interferir nem atrapalhar no processo de pesquisa clínica das vacinas contra a covid-19, mas aponta para a importância do monitoramento da segurança, dos efeitos colaterais e dos possíveis eventos não esperados a partir da utilização de vacinas experimentais.

Isso se faz ainda mais importante num contexto como o atual, de crise política e econômica em decorrência da pandemia, em que existe pressa e pressão para a liberação de uma vacina contra o coronavírus.

Tão importante quanto a avaliação da eficácia protetora de uma vacina experimental é a comprovação da sua segurança. E isso costuma ser feito com muito rigor nos estudos de vacinas. A carta, portanto, nos lembra que precisamos permitir que a ciência trabalhe, com tempo e com ética.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL