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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Autoteste para covid-19: será que ele realmente poderia ajudar?

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do VivaBem

25/01/2022 04h00Atualizada em 28/01/2022 11h45

Depois de receber mais informações do Ministério da Saúde, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) liberou o autoteste de covid-19. Mas, apesar da dificuldade para a gente conseguir ser testada no momento atual e saber se está ou se não está com Sars-CoV-2, essa liberação não significará um alívio imediato.

Ora, o autoteste não se encontrará à venda da noite para o dia. A agência ainda precisará aprovar marca por marca que será comercializada no país. Além disso, os US$ 10 que um autoteste custa, em média, nos Estados Unidos e em países da Europa são pesados para o bolso da maior parte dos brasileiros. E outro ponto-chave: saber como o procedimento será incluído nas políticas públicas e não embaçar a notificação dos casos.

É o que também preocupa a médica Carolina dos Santos Lázari, infectologista do Grupo Fleury e do Laboratório Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo). "Lá fora, o autoteste costuma ser bancado por universidades aos professores e aos alunos ou por empresas aos seus colaboradores, para ser repetido regularmente ou em caso de sintomas", diz ela, exemplificando o que seria um bom modelo para o seu uso. "Mas, aí, a pessoa não é largada para se virar quando enxerga o resultado positivo. Ela já sabe para qual número ligar a fim de receber orientação e ser monitorada."

Procurei a doutora Carolina para entender o procedimento que já vem gerando memes entre nós, como o do sujeito enfiando pelo nariz o maldito swab, aquele cotonete que parece não ter fim, até futucar o cérebro. Calma que também não é assim! "Mas tem os seus macetes para dar certo", afirma a infectologista.

No fundo, é mais um teste de antígeno

"Estamos falando de um teste direto, no linguajar da área médica", ensina Carolina Lázari. "Isto é, o autoteste procura o vírus da covid-19 diretamente, acusando uma infecção que está acontecendo bem naquele momento."

Só que, em vez de caçar o material genético do Sars-CoV-2 como faz o PCR, tal qual os testes de antígeno já disponíveis no mercado, mas que são realizados por profissionais de saúde, o autoteste vai atrás de uma proteína do núcleo capsídeo, estrutura que envelopa o material genético do vírus.

"Essa proteína é a que é mais abundantemente produzida durante a fase de replicação viral", justifica a doutora. Ou seja, ela é encontrada aos montes quando o Sars-CoV-2 está se reproduzindo feito um doido dentro de nós.

Para para encontrá-la, porém, não adianta pegar uma gota de sangue. Afinal, uma vez que está no nosso corpo, um vírus não circula livre, leve e solto. Para sobreviver, ele precisa invadir células, que terminam sendo o seu esconderijo.

Portanto, para achá-lo, precisamos de células das regiões que são a primeira escala do coronavírus em sua passagem pelo organismo. Serviriam as da mucosa do nariz ou até mesmo as da garganta. Mas os autotestes costumam mirar o primeiro.

"Alguns pedem que a amostra seja colhida na nasofaringe, quando você tem a impressão de que o cotonete, afundando lá atrás da cavidade nasal e no alto, chega a cutucar a alma", brinca a médica. Já outros exames não exigem que o instrumento penetre muito além do que o seu dedo alcançaria se você o enfiasse no nariz.

Como é o procedimento

Indo mais fundo ou não, depois de introduzir o swab, você precisa girar —e girar umas cinco vezes, no mínimo!— para que a fibra existente em sua ponta esfregue bem a mucosa, arrancando algumas células dali. "Não adianta dar umas leves cutucadinhas e tirar esse cotonete ligeiro. Não à toa, o nome correto da técnica é raspado nasal", conta Carolina Lázari.

No kit de qualquer autoteste de covid-19, vem ainda uma solução, geralmente em um tubinho no qual você irá, na sequência, mergulhar o tal cotonete. "Nesse instante, o fundamental é dar uma boa sacudida, como se fosse fazer um shake", descreve a médica. "Você deve agitar bem para que as células, que ficaram presas na extremidade do swab, se desgrudem e caiam no líquido."

Esse diluente, por sua vez, é capaz de separar as proteínas do Sars-CoV-2, se por azar você estiver infectado. E só assim o vírus poderá ser dedurado.

Depois de um intervalo informado na bula, quando se presume que as proteínas virais já foram separadas, você só vai pingar algumas gotas do líquido no dispositivo que faz o teste propriamente dito. A resposta, então, chegará em dez a 20 minutos.

Na hora da verdade

Na maioria das vezes, o dispositivo do autoteste é uma placa —lembrando um "sabonetinho", pelo olhar da doutora Carolina—, com uma área pronta para receber gotas da amostra diluída. Dentro dela, há uma fita. E, como é feita de papel filtro, o líquido cheio de células vai sendo absorvido.

No meio do caminho, porém, ele topa com reagentes que simplesmente acusarão algo como "opa, existem proteínas de células aqui". Sinal de que você raspou direito —não colheu só meleca e coriza— e que o teste está funcionando. É quando surge um traço ao lado de onde se vê a letra "C", de "controle".

"Se, passado um tempinho, esse primeiro traço não aparece, não adianta continuar. Você precisa recomeçar do zero, colhendo de novo a amostra e usando outro kit", orienta a infectologista.

Seguindo e encharcando cada vez mais o papel filtro, a amostra diluída chega então em um pedaço da fita que está impregnado de anticorpos específicos para o Sars-CoV-2. "Eles foram desenhados pela pescar proteínas do vírus que estiverem ali, naquele líquido", explica a médica.

Só que, ligados a esses anticorpos, há reagentes capazes de gerar cor. Daí o nome do processo: imunocromatografia. Assim, quando os pedacinhos do causador da covid-19 se grudam nos anticorpos, aparece um traço visível ao lado da letra "P", de "positivo".

Segundo Carolina Lázari, a diferença dos kits de autoteste para os testes de antígenos realizados por profissionais de saúde é que, além de trazerem orientações claras sobre o passo-a-passo, cada instrumento foi criado para facilitar o manuseio e a leitura do resultado. Sem contar que os autotestes precisam ser mais estáveis —por exemplo, a mudanças de temperatura.

Acertar em cheio na data

A gente já conhece a dinâmica da covid-19: o vírus vai se replicando e se espalhando um ou dois dias antes dos sintomas e, após o aparecimento destes, atinge o seu pico lá pelo segundo ou terceiro dia. Então, sua carga vai diminuindo sem parar, podendo cair para menos da metade após o quinto dia.

O autoteste, nesse ponto, não é diferente dos demais testes: ele não pode ser feito logo depois da a pessoa passar um único dia tossindo ou com dor de garganta. "O resultado precoce costuma ser errado", informa a doutora Carolina. Por outro lado, não dá para esperar demais.

Mais sensível, o exame de PCR é capaz de entregar o Sars-CoV-2 até o sétimo dia após o início dos sintomas. "Mas o resultado de um autoteste, assim como o de qualquer outro teste de antígeno, já fica comprometido depois do quinto dia, quando quantidade de vírus se torna insuficiente para ele", afirma a infectologista. "Há o risco, então, de a pessoa seguir com rotina, acreditando em um resultado falso-negativo."

Aliás, por causa dessa necessidade de acertar na data, em princípio o autoteste não foi criado para pessoas assintomáticas. Não que elas não possam ter cargas virais altíssimas. "É que, sem sintomas, a gente acaba perdendo o referencial para calcular qual seria aquele dia em que a quantidade de Sars-CoV-2 estaria nas alturas", explica a médica. Lembre-se: seria o terceiro dia após os sintomas.

"Daí que o autoteste não é para você deixar em casa e fazer antes de visitar a avó idosa", avisa a doutora Carolina. "Porque resposta certa só é mais garantida quando você se testa no auge da replicação viral."

No caso de alguém assintomático, o autoteste é válido se ele sabe quando exatamente se encontrou pela última vez com quem acabou sendo diagnosticado com a doença.

"Então, seria preciso considerar cinco ou seis dias de incubação do Sars-CoV-2 —embora, para confundir, tudo indique que ômicron só fique incubada uns três ou quatro dias— e somá-los àqueles três dias", ensina Carolina Lázari. Moral: nesse caso, deixe para fazer o autoteste entre cinco e sete dias depois.

A dificuldade para se autotestar

Carolina Lázari nota que na Europa, por exemplo, as pessoas já estão bem mais habituadas com autotestes para diversas doenças. "Aqui, nossa experiência se resume às fitas para dosar a glicemia dos portadores de diabetes, aos testes de gravidez com amostras de urina e aos autotestes de Aids", compara. Bem, nenhum desses autotestes envolve a chatice do swab.

"Detalhes como o jeito certo de colher a amostra precisariam ser ensinados à população para prepará-la", pensa a infectologista. E, claro, cada um precisa avaliar a sua própria capacidade de introduzir um treco lá no fundo do seu nariz.

Uma eventual falta de habilidade pode provocar sangramentos, se a mucosa estiver sensível ou se o indivíduo tiver um desvio de septo. E, quando você enxerga uma gota sangue no swab, já era. Precisa esperar o sangramento estancar e recomeçar a coleta com todo o cuidado.

Se acha que não vai dar conta, melhor fazer o teste convencional na farmácia ou no laboratório, isto é, com alguém pilotando aquele longo cotonete por você.