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Fernanda Victor

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Semana da Tireoide: campanha alerta para cuidados com tireoide, sem excesso

A tireoide é uma glândula em forma de borboleta que ajuda o corpo a usar energia - Getty Images
A tireoide é uma glândula em forma de borboleta que ajuda o corpo a usar energia Imagem: Getty Images
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Fernanda Victor

Fernanda Victor é médica endocrinologista e metabologista. É titulada pela SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) e mestre em ciências da saúde pela UPE (Universidade de Pernambuco)

Colunista do UOL

26/05/2022 04h00

A tireoide é uma importante glândula em formato de borboleta localizada na parte da frente do pescoço, logo abaixo da região popularmente conhecida como pomo-de-adão ou gogó. Ela é responsável por produzir os hormônios conhecidos como T3 (triiodotironina) e T4 (tiroxina) que comandam o nosso metabolismo e influenciam todas as fases da vida.

Esses hormônios são essenciais para o funcionamento adequado de órgãos como o coração, o cérebro, o fígado e os rins. Logo, quando há alguma disfunção na tireoide, o desequilíbrio hormonal gerado pode impactar negativamente na sua saúde e no seu bem-estar.

Este mês, a campanha da Semana Internacional da Tireoide, que acontece entre os dias 23 e 27, traz o tema "Menos é Mais". O alerta concentra-se em abordar os excessos relacionados ao diagnóstico e tratamento das doenças da tireoide.

O foco da atual campanha levanta alguns pontos preocupantes a serem discutidos: solicitação desmedida de exames hormonais e de ultrassom de tireoide, punções desnecessárias de nódulos tireoideanos e ainda prescrição de tratamento hormonal sem indicação clara ou evidência científica que o respalde.

Não é incomum ouvir frases como estas: "Estou com tireoide" ou "Tenho tireoide, por isso me encaminharam para o endocrinologista". Embora assuste quando se descobre um problema em uma glândula cuja existência nem era conhecida, ela sempre esteve lá e não há motivos para pânico!

Embora a tireoide só seja realmente notada quando alguma alteração é identificada, todos nós nascemos com ela (com raríssimas exceções) e a maioria das doenças tireoideanas apresentam evolução benigna e favorável, além de excelente resposta aos tratamentos convencionais. Isso já possibilita tranquilidade no acompanhamento, sem maiores intervenções.

As principais condições patológicas associadas à tireoide são: hipotireoidismo (hormônios tireoideanos produzidos em quantidade insuficiente), hipertireoidismo (hormônios em excesso), cistos/nódulos benignos e câncer.

Nódulos são bastante comuns na população em geral e cerca de 90-95% deles são benignos, por isso a maioria requer apenas avaliações periódicas e acompanhamento ultrassonográfico. Mesmo quando o câncer é diagnosticado, o crescimento da lesão é geralmente lento e há altíssimas chances de cura, o que confere um bom prognóstico para essa condição.

É importante estar atento a algumas situações que podem indicar desregulação hormonal da glândula, tais como: alterações no peso corporal, cansaço/sonolência excessiva, alteração no humor, modificação do hábito intestinal e aumento de volume na região do pescoço.

Esses achados sinalizam a necessidade de uma avaliação especializada que direcione melhor a abordagem e os recursos terapêuticos, quando indicados.

A grande questão do excesso de diagnósticos e tratamentos é gerar mais problemas do que soluções. Além de mais estresse e ansiedade diante de alguma alteração detectada, essa má prática pode induzir a efeitos colaterais indesejáveis de tratamentos hormonais e ainda maior risco de complicações na realização de punções ou cirurgias na tireoide.

Até mesmo nos casos de câncer de tireoide, têm sido cada vez mais recomendado pelos especialistas na área o acompanhamento dos nódulos malignos com vigilância ativa (sobretudo se lesão < 1 cm), em detrimento da realização de intervenções cirúrgicas que não estão isentas de potenciais complicações.

Diante da situação de maior gravidade no contexto das doenças tireoideanas, cada caso precisa ser avaliado individualmente ao ponderar as características do paciente e da lesão.

De toda forma, percebam que o lema do minimalismo é tendência e também se aplica aos distúrbios da tireoide. Na dúvida, menos é mais! Sua tireoide agradece.

Referências:

1. SBEM. Disponível em: https://www.sbempr.org.br/noticia/dia-internacional-da-tireoide-a-importancia-do-diagnostico-correto-e-sem-excessos/442

2. Davies L, Hoang J. Thyroid Cancer in the USA: current trends and outstanding questions. The Lancet Diabetes & Endocrinology. 2021; 9 (1): 11-12

3. Haugen BR, Alexander EK, Bible KC et al. 2015 American Thyroid Association management guidelines for adult patients with thyroid nodules and differenciated thyroid cancer: the American Thyroid Association guidelines task force on thyroid nodules and differenciated thyroid cancer. Thyroid. 2016; 26:1-133

4. Hoang JK, Nguyen XV, Davies L. Overdiagnosis of Thyroid Cancer. Academic Radiology. 2015; 22:1024-1029