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Dieta e tireoide: atenção aos alimentos que podem desregular a glândula

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Imagem: iStock

Fabiana Gonçalves

Colaboração para o VivaBem

17/09/2021 04h00Atualizada em 20/09/2021 18h17

É consenso entre os especialistas em saúde que uma alimentação saudável é fundamental para o bom funcionamento do organismo. Para que a tireoide, uma glândula muito importante para controlar o metabolismo, exerça a sua função de maneira eficiente, observar os alimentos que vão para o prato é essencial.

Com a forma parecida à de uma borboleta, a tireoide está localizada na parte da frente do pescoço, logo abaixo da cartilagem cricoide, conhecida como pomo-de-adão. É ela quem produz os famosos hormônios T3 (tri-iodotironina) e T4 (tiroxina), que a gente está acostumada a ver nos exames solicitados pelos médicos.

Reguladora da função de importantes órgãos como coração, cérebro, fígado, rins, ela interfere diretamente no crescimento e no desenvolvimento das crianças e adolescentes. "A tireoide é responsável pelo gasto energético e temperatura corporal. Também atua no nosso humor e no controle emocional, bem como na concentração, na regulação dos ciclos menstruais e na fertilidade", afirma Marcella Garcez, médica nutróloga, mestre em ciências da saúde pela Escola de Medicina da PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), diretora e docente do Curso Nacional de Nutrologia da Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Alimentação saudável é sempre o mais importante

Você sabe: uma dieta equilibrada e que contenha verduras, frutas, legumes, carnes, cereais integrais, ovos e peixes é fundamental para o bom funcionamento do organismo como um todo, e isso inclui a tireoide.

É preciso alertar que não existe respaldo na literatura científica para dizer que qualquer alimento, isoladamente, possa desestabilizar o funcionamento da glândula tireoide.

No entanto, Garcez explica que as patologias que afetam a tireoide geralmente se iniciam por um processo inflamatório. Portanto, os hábitos alimentares que aumentam o perfil inflamatório devem ser evitados. Isso significa, principalmente, maneirar no consumo de alimentos ultraprocessados, frituras, fast-food, açúcar, gordura saturada e álcool.

De olho no iodo

O iodo na alimentação é fundamental para a fabricação do T3 e T4 pela tireoide. Manter uma quantidade adequada dele na alimentação diária mantém a tireoide em equilíbrio. Mas tanto a falta como o excesso de iodo podem levar ao bócio (aumento da glândula), ou alterar o seu funcionamento, com redução ou aumento da síntese desses hormônios, alerta a médica Renata Dinardi Borges Liboni, endocrinologista e professora do curso de medicina da PUCPR, Campus Londrina.

O iodo é encontrado no sal de cozinha, o chamado sal iodado, nos peixes de água salgada e nas algas. A recomendação diária de iodo para um adulto saudável é de 95 mcg, que corresponde a 120 g de salmão por dia, por exemplo. "O excesso normalmente é mais difícil de atingir, pois a quantidade limite seria em torno de 1.100 mcg. Seria necessário consumir cerca de 1 kg de bacalhau por dia, peixe este que é riquíssimo no nutriente", exemplifica Michele Paola Lima, nutricionista e coordenadora de nutrição do Hospital INC (Instituto de Neurologia e Cardiologia) de Curitiba, no Paraná.

Para não errar na medida, a médica Carolina Ferraz, endocrinologista da SBEM-SP (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo), sugere usar apenas cinco pitadas de sal nos alimentos ao longo dia.

Selênio, um santo remédio

O selênio é um mineral essencial para as reações de formação dos hormônios T3 e T4 e auxilia no combate à inflamação da glândula. Ele está presente em grãos, peixes, ovos e na castanha-do-pará (aliás, uma das principais fontes do nutriente). "Alguns estudos demonstram que ao comer duas castanhas por dia pode ajudar a diminuir a inflamação causada pela tireoidite de Hashimoto", afirma a endocrinologista Carolina Ferraz.

No entanto, segundo a médica, é importante frisar que o excesso de selênio também pode intoxicar, levando a quadro de selenose. Os sintomas incluem náuseas, vômitos, dor abdominal, fadiga, irritabilidade, descamação das unhas, perda de cabelo, mau hálito, distúrbios gastrointestinais e danos ao sistema nervoso. "Portanto, jamais faça reposição sem orientação médica", alerta.

Brócolis, couve e agrião exigem cuidado?

Talvez, você escute por aí que, em excesso, esses e outros alimentos saudáveis podem prejudicar o funcionamento da tireoide. A afirmação até tem justificativa biológica, mas é pouco provável que o consumo normal de brócolis, couve, agrião, repolho e outros vegetais do tipo geram problemas —como já falamos, não há comprovação científica de que um único alimento prejudique a tireoide.

Acontece que os vegetais crucíferos (como os citados acima) e produtos à base de soja possuem substâncias como os glicídios cianogênios, que reduzem a captação do iodo pela glândula. "Mas estudos demonstram que esses alimentos só impactam a função da tireoide se forem consumidos em excesso e a glândula já apresentar alguma disfunção", considera Garcez.

Além disso, você precisaria comer uma quantidade absurda de vegetais e por tempo prolongado para ingerir a porção de glicídios cianogênios que podem prejudicar a tireoide. Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), o limite de consumo ao dia da substância é 10 mg por kg de peso ao peso.

"Uma pessoa que pese 80 kg pode consumir até 800 mg desse glicídio. O que representa, aproximadamente, 200 g de agrião de jardim, por exemplo. Ou ainda, 300 g de couve-de- bruxelas por dia", diz Evelyn Susy de Oliveira, nutricionista clínica do Hospital INC de Curitiba, no Paraná.

Como falamos, na alimentação normal, é muito difícil atingir essas quantidades. Porém, vale o cuidado com os famosos "sucos detox". Com dois copos de uma bebida à base de couve ao dia, por exemplo, você ultrapassa o limite do consumo da substância —e se beber essa quantidade de suco todos os dias, em longo prazo, pode desencadear um problema.

Outro componente que pode alterar a função tireoidiana, levando ao hipotireoidismo, é a isoflavona (fitoestrógeno), também presente na soja. "Esta alteração pode ser irreversível, mesmo com a suspensão do consumo", alerta Marcella Garcez. Outros alimentos que contêm fitoestrógenos são cevada, centeio, ervilha e algas.

Alimentos que devem estar no prato

Na presença de disfunções tireoidianas ou se houver uma tendência genética, a dieta deve incluir grãos integrais, proteínas magras e gorduras saudáveis. Além disso ela deve conter frutas, verduras e legumes ricos em antioxidantes, tais como morango, kiwi, ameixa vermelha, tomate, espinafre e abóbora.

"Também é recomendada uma dieta que contenha ômega 3, presente em alguns peixes, sementes e frutos secos, que pode melhorar a função imunológica e minimizar a inflamação", orienta a nutróloga Marcella Garcez. A médica sugere ainda que alimentos ricos em proteínas magras, tanto de origem animal quanto vegetal, sejam incluídos no cardápio, bem como dar preferência a alimentos de cultivo orgânico.

Por que prestar atenção na tireoide?

Quando a tireoide não funciona direito pode liberar hormônios em quantidade insuficiente, levando ao hipotiroidismo. A principal causa do hipotiroidismo é a tireoidite de Hashimoto, uma inflamação crônica da glândula. "Ela se desenvolve quando o corpo produz anticorpos que atacam as células da tireoide, por uma reação autoimune, geralmente mediada por fatores genéticos. A maioria dos portadores evolui para o hipotireoidismo", afirma a médica, que acrescenta que atualmente esta é a doença tireoidiana mais comum, e com maior incidência no gênero feminino, desde a adolescência até a meia-idade.

Os sintomas são relacionados a um metabolismo lento, com batimentos cardíacos baixos, frio excessivo, queda de cabelo, unhas fracas, perda de memória, sono excessivo, depressão, pele seca e retenção de líquidos, como explica a endocrinologista Carolina Ferraz.

Já o hipertireoidismo é o excesso de produção dos hormônios da tireoide T3 e T4. A principal causa é uma doença autoimune, a Doença de Graves. "Pacientes acometidos de hipertireoidismo apresentam perda de peso, sudorese excessiva, tremor, insônia, agitação, irritabilidade, diarreia e taquicardia", diz.

Nessas duas situações, o volume da glândula pode aumentar, o que é conhecido como bócio. Por isso é essencial que o consumo de iodo e de selênio estejam adequados, para reequilibrar o funcionamento da glândula, juntamente com a medicação que é recomendada pelo médico.