Elânia Francisca

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Opinião

Espaços de convivência e sua função na promoção da saúde de adolescentes

Toda criança e adolescente, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, tem um direito fundamental chamado Direito à Convivência Familiar e Comunitária. Isso quer dizer que é importante e saudável que a população infantojuvenil conviva não só com as pessoas que compõem seu núcleo familiar, mas também com pessoas que compõem sua comunidade (geográfica e afetivamente falando).

Comunidade não é só o pessoal que mora no meu bairro, mas também pessoas com quem me identifico e tenho senso de comunidade. Geograficamente, podemos até definir limites de onde começa e onde termina uma comunidade, mas quando se trata de afetos, é a pessoa que define (subjetivamente) os limites desse território.

Lembro-me de um período em que trabalhei como supervisora de trabalho junto à uma equipe de saúde na atenção básica, numa equipe de uma Unidade Básica de Saúde, ou postinho, como muita gente chama (isso faz alguns anos). A equipe se dividia em territórios, assim conseguia organizar as ações de promoção à saúde.

Com os bairros divididos em cores, a equipe se dedicava a pensar as atividades e formas de atuar com a população. O caso é que o grupo de adolescentes promovido pela Equipe Magenta, começou com baixo número de participantes e seguiu diminuindo até que não havia participantes. Ao mesmo tempo, a equipe notava que as ruas estavam sempre cheias da meninada conversando nas calçadas e abordando as Agentes Comunitárias de Saúde (ACS) para tirar dúvidas sobre o tema do grupo: sexualidade.

— Por que vocês não foram ao grupo falar sobre isso?

— Porque não podia levar ninguém e eu só vou se puder levar meu amigo.

Esse foi um diálogo informado pela ACS durante a supervisão. Perguntei a ela o motivo de a adolescente não poder levar o amigo.

— Ele é da área Bege e já tem grupo com esse tema na microrregião dele.

Eu compreendo que, para nós, a divisão ajuda na organização do trabalho e da demanda, mas para a população, sobretudo para adolescentes, essa divisão não existe, então é preciso entendermos que, se para nosso trabalho as cores dos bairros estão separadinhas e definidas como se fossem potes de tinta, para adolescentes essas cores são um arco-íris que só existe na diversidade de cores, bairros e trânsito.

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Recentemente, uma colega disse que hoje as UBS daquela região já compreendem essa questão e realizam ações em que adolescentes podem levar suas amizades. Muito legal!

Adolescentes precisam de espaços de convivência comunitária, mas não só uma convivência com pessoas que são suas vizinhas, mas também com quem se identificam.

Recordo que, quando eu era adolescente, lá pelos 14 ou 15 anos, não conhecia ninguém no meu bairro que tivesse a minha idade e que gostasse de Raul Seixas. Um dia, fui a um Centro Cultural e conheci um grupo de meninas que curtiam Raulzito também. Eu senti um alívio de não ser estranha por gostar desse artista e, ao mesmo tempo, uma satisfação de encontrar pessoas que queriam falar do mesmo assunto que eu.

Comunidade é gente com quem me conecto e me faz bem. Comunidade promove saúde. Às vezes, sua comunidade está na sua rua, às vezes, ela está espalhada pela cidade, por isso é importante criarmos espaços seguros para que adolescentes se encontrem e potencializem suas convivências.

Dizemos que adolescentes não saem do celular, que não interagem para além das telas, mas quais são os espaços seguros que nós, pessoas adultas, abrimos para que essa população se sinta à vontade para se conhecer, reconhecer e fortalecer coletivamente?

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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