Elânia Francisca

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Opinião

Dismorfia corporal e pressão estética na adolescência: seja gentil

No texto da semana passada, conhecemos a história de Clara, uma adolescente que está passando por um processo delicado e doloroso de olhar para seu corpo e não gostar do que vê.

Sabemos que muitas pessoas têm insatisfações com algumas partes de seus corpos, sabemos também que se alguém perguntasse "O que você mudaria em você?", muita gente teria uma resposta na ponta da língua e já pensada sobre a questão.

Vivemos numa sociedade que cultua certos tipos de corpos e pressiona as pessoas (sobretudo meninas e mulheres) a perseguir esse padrão de beleza totalmente inalcançável. Isso não quer dizer que meninos e homens também não sofram essa pressão, mas precisamos pensar no quanto a imagem feminina é explorada em comerciais de televisão e nas redes sociais em proporção muito maior, se comparada ao gênero masculino.

Quando se estabelece um padrão de beleza, coloca-se nas pessoas a ideia de que a aceitação, o amor e a felicidade serão alcançados se você for "bonita", e quem valida se você é bonita ou não é esse padrão, esse jeito único de perceber a beleza. Você já experimentou pedir a um grupo de pessoas para descrever alguém que consideram uma pessoa bonita?

É muito provável que seja descrita uma pessoa magra (mas não muito magra), jovem, sem deficiência, cisgênero, branca. Esse pequeno-grande exercício nos mostra que há um padrão de beleza e que ele está enraizado em nós.

Muitas de nós, ao nos olharmos no espelho, usamos uma espécie de lente imaginária que nos faz medir a distância entre o corpo-padrão-desejado e o nosso corpo-real-visualizado. Medir essa distância pode ser adoecedor para algumas pessoas, sobretudo quando se está na adolescência.

Adolescentes estão passando por muitas transições em seus corpos e emoções e, por vezes, essas mudanças são tão intensas e rápidas que fazem com que haja uma dificuldade em acolher essa transformação estética sem sofrer afetações desse padrão de beleza estabelecido na sociedade.

Muitas pessoas na adolescência acabam criando uma relação de auto-ódio com o que vê no espelho, pois não sente que aquele corpo é bonito o suficiente. A pressão estética passa a ser uma bússola que guia sua vida. Uma pintinha no canto da boca torna-se, na visão da pessoa adolescente, uma grande verruga que todo mundo vai perceber e tirar sarro. Qualquer sinal de gordura na região do abdome vira um grande problema que será notado e ridicularizado.

E é aí que mora o perigo.

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É possível que diante de tamanha pressão estética, adolescentes desenvolvam dismorfia corporal.

A dismorfia corporal, ou transtorno dismórfico corporal, é quando a pessoa trata parte de seu corpo como se fossem imperfeições, e a partir daí vivencia um processo desproporcional de crítica sobre si mesma, a ponto de gerar profunda fragilização da autoestima, depressão e ansiedade.

Assim como a maioria dos sofrimentos emocionais, a dismorfia corporal não começa de forma intensa, mas é possível que inicie de modo sutil, como foi apresentado no caso de Clara.

É importante estarmos atentos ao modo como tratamos adolescentes, a pressão estética que depositamos nas pessoas que estão nessa fase da vida pode contribuir para o desencadear de um sofrimento emocional intenso e provocar distorção da autoimagem.

Sejamos gentis com os comentários sobre, e para, adolescentes.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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