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Edmo Atique Gabriel

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Sabia que os estilos musicais podem influenciar na saúde cardiovascular?

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Imagem: Getty Images
Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do UOL

22/05/2021 04h00

A heterogeneidade de estilos musicais vem crescendo significativamente e, sem dúvida, existem pessoas mais conservadoras, que valorizam e admiram estilos musicais mais tradicionais, e aquelas que preferem saborear músicas de estilos alternativos e eletrônicos.

Não se discute isto em si, uma vez que cada pessoa logicamente tem direito pleno de escolher e apreciar o estilo musical que melhor lhe agradar.

No entanto, existem fortes evidências mostrando que nossa capacidade individual de reagir, tanto no âmbito comportamental como no âmbito fisiológico, a diferentes estilos musicais, é revestida de muita imprevisibilidade.

Algumas pessoas podem ser quase inertes a qualquer variedade musical, sem apresentar reações físicas ou mesmo sintomas cardiovasculares. Outras pessoas poderão esboçar reações extremamente intensas, carregadas de muita emoção e sintomas cardiovasculares muito marcantes.

De forma geral, as emoções evocadas por uma música podem influenciar os níveis da pressão arterial, da frequência respiratória, do trabalho cardíaco, da frequência cardíaca e das variações da frequência cardíaca.

Além do estilo musical em si, as lembranças que uma música produz em nossa mente podem ser determinantes na quantidade de sensações e sintomas cardiovasculares que iremos vivenciar.

Aquelas músicas que remetem a um estado de espírito mais motivador, geralmente promovem sensação de bem-estar e variações da pressão arterial e das frequências cardíaca e respiratória que pouco incomodam ou geram desconforto.

Por outro lado, basta estarmos diante de uma música que nos impacta causando depressão, tristeza e angústia, que já começamos a apresentar sintomas como sudorese, picos de pressão arterial e palpitações.

Para ficar mais fácil de compreender os efeitos dos estilos musicais sobre nossa função cardiovascular, vamos considerar dois padrões de musicalidade —estimulante ou tranquilizante. E vamos confrontar estes dois padrões com algumas variáveis funcionais e algumas comorbidades.

1) Frequências cardíaca e respiratória

A música estimulante correlaciona-se com um aumento significativo dos batimentos cardíacos e movimentos respiratórios, muitas vezes ultrapassando 100 batimentos por minuto.

A música tranquilizante exerce um poder consideravelmente calmante e, muito raramente, ocorrerão variações significativas dos batimentos e incursões respiratórias.

Interessante ressaltar que alguns estudos destacam o efeito balanceador de se intercalar ambos os estilos musicais, sendo que um estilo acaba atenuando ou intensificando as repercussões cardiovasculares produzidas pelo outro.

2) Trabalho cardíaco

Algumas funções como a contração do músculo cardíaco, o movimento das válvulas e o fluxo sanguíneo no interior das artérias coronárias (aquelas que são responsáveis pela irrigação e nutrição do músculo cardíaco) representam este conceito conhecido como trabalho cardíaco.

Não existem ainda evidências consistentes quanto a influência dos estilos musicais nestas funções específicas. No entanto, muitos estudos continuam buscando esta elucidação, pois isto poderia ser muito efetivo na escolha de uma terapia para otimizar o trabalho cardíaco.

3) Doença cardíaca estabelecida

Naquelas pessoas que estão vivenciando doenças do coração, como infarto, arritmias, tromboses e problemas estruturais de válvulas, a ansiedade é um componente inevitável. Como este quadro de ansiedade consiste em um desequilíbrio hormonal e liberação profusa de adrenalina, os sintomas cardiovasculares tendem a acentuar e, para este contexto, o efeito de um estilo musical mais tranquilizante indubitavelmente será mais benéfico, principalmente na fase de reabilitação.

No tocante ao alívio de uma dor, o impacto dos dois estilos musicais não costuma ser significativo. Em relação a outros quesitos, como cicatrização e tempo de hospitalização, este efeito é praticamente nulo.

4) Depressão

Depressão, adolescentes - iStock - iStock
Imagem: iStock

Existe uma forte e multifacetada correlação entre depressão e as doenças cardiovasculares. Os quadros depressivos podem tanto desencadear diferentes doenças cardiovasculares, como também podem se originar ao longo do curso destas mesmas patologias.

Algumas evidências revelam que o estilo musical tranquilizante pode ter pouca eficácia no tratamento da depressão isolada; no entanto, nos casos de doença cardiovascular associada com depressão, este estilo musical poderá ser mais produtivo e benéfico.

5) Doença cerebrovascular e demência

Dentre tantos fatores que corroboram para evolução desfavorável das doenças cerebrovasculares e demência, está o ambiente inflamatório existente no cérebro.

Substâncias inflamatórias conhecidas como citocinas inundam nosso tecido cerebral e comprometem as conexões responsáveis pela memória, raciocínio e orientação.

Sendo assim, existem evidências a favor do emprego de músicas tranquilizantes como forma de reduzir esta liberação profusa de substâncias inflamatórias.

Música como "tratamento"

Não podemos fechar os olhos para a percepção de que a música é um importante gatilho para acentuação de sintomas cardiovasculares como também para atenuação dos mesmos.

O mecanismo de ação de um estilo musical, em relação a nossas respostas comportamentais e fisiológicas, consiste em sua influência sobre as nossas emoções, principalmente sobre a ansiedade.

Embora a preferência por um estilo musical seja algo muito pessoal, podemos utilizar as músicas mais tranquilizantes como aliadas no controle de nossas funções cardiovasculares, como frequência cardíaca e frequência respiratória, como também num melhor suporte durante o curso de alguns agravos como as arritmias e infarto do coração.

Para saber mais sobre a saúde do coração, me acompanhe no Instagram: @edmoagabriel.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL