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Solte o play: música é aliada no desenvolvimento cognitivo e motor de bebês

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Imagem: iStock

Bruna Alves

Do VivaBem, em São Paulo

10/11/2020 04h00

A música é uma das formas de expressão mais antigas do mundo. Entre os mais variados ritmos, seja para dançar, relaxar, animar ou até chorar, ela estimula emoções, inclusive em bebês, exercendo um papel fundamental em seu desenvolvimento cognitivo e motor.

O treinamento musical precoce auxilia as atividades perceptivas dos bebês, fazendo com que eles processem os sons, tentem se expressar melhor e desenvolvam a fala mais rápido e de forma correta.

Um estudo publicado no PNAS, feito nos Estados Unidos, avaliou que a própria voz da mãe e os batimentos cardíacos formam um conjunto musical com sintonia agradável que vai beneficiar, após o nascimento, o desenvolvimento dos bebês em diversas esferas.

Redes cerebrais estimuladas

Cérebro, máquina, engrenagens - iStock - iStock
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"O bebê nasce em um contexto musical muito rico, devido ao movimento do líquido amniótico e os batimentos cardíacos que são sons bastante complexos. Nesse período, ele já está processando todo esse entorno musical. A gente tem uma noção que esse processamento cerebral, que está francamente expresso numa fase precoce de desenvolvimento, vai ter uma influência sobre o desenvolvimento de várias redes cerebrais do bebê", explica Mauro Muszkat, neuropediatra.

Essas redes processadas em áreas cerebrais do córtex frontal são importantes para a memória e ativam áreas motoras, fazendo com que os bebês tenham cada vez mais movimento. Sendo assim, um bebê estimulado com música ainda na barriga da mãe já nasce com um repertório musical internalizado, e isso facilita as adaptações ao ambiente externo bem como a interação com pais e familiares.

"A música, de maneira geral, ativa várias áreas do nosso cérebro que estão relacionadas com o que chamamos de cognição social e facilitação das respostas sensoriais, que é a empatia, o sentido de pertencimento, o vínculo, o tato, e áreas que estão relacionadas com a sincronicidade do movimento", ressalta Muszkat, que também é coautor da música "No Passinho do Bebê", desenvolvida para uma marca de fraldas para potencializar os estímulos do bebê.

A modulação de voz é chamada de prosódia e tem como uma de suas funções ajudar o hemisfério direito cerebral a amadurecer. Sabe aquela voz bem infantilizada que as mães costumam fazer para atrair a atenção dos bebês, então, segundo os especialistas ela é parecida com a música, que também tem melodias altas e baixas.

Com o passar do tempo, o bebê que tem estímulos musicais torna-se mais ativo nas brincadeiras, fica mais atento e tem um repertório sensorial melhor. Entretanto, essa musicalidade não pode ser compreendida como um talento ou uma facilidade apenas para distrair a criança, porque ela é inata, biológica e permite que o bebê se comunique com as pessoas antes de aprender a falar.

Os especialistas ressaltam que é importante que a música não seja vista só para o prazer e o lúdico, mas sim como uma arte modificadora do cérebro, órgão que tem plasticidade.

Música só traz vantagens

Maria Betânia Parizzi, professora da Escola de Música da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) avalia que a interação musical dos bebês com as pessoas é vital para o seu desenvolvimento e é tão importante quanto a alimentação e o sono.

"E se essa interação não é retribuída, compartilhada, o bebê pode desenvolver déficits cognitivos. Um bebê que é pouco estimulado nesse sentido vai estar em desvantagem cognitiva, motora e emocional em relação aos bebês que têm esse engajamento com os adultos", diz.

A música tem uma conectividade cerebral muito alta e também é um potente reabilitador de várias redes neurais. Quando mais calma, ajuda a relaxar, e quando mais agitada, para animar. Uma pesquisa publicada na revista Infancy, realizada com 30 bebês saudáveis, entre seis e nove meses, concluiu que os bebês ficam mais calmos com música do que com a fala.

Ela também é uma forma terapêutica para tratar diversas patologias, por exemplo em crianças com autismo, TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade) e que perderam a linguagem por lesões cerebrais e que precisam novamente desenvolver repertórios.

Mães que estimulam seus bebês com música

Vitória, 1 ano e dois meses - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Vitória, 1 ano e dois meses
Imagem: Arquivo pessoal

"Coloquei música para ela na minha gravidez inteira, então ela nasceu já em música. Quando chegou em casa, desde os primeiros dias, nós temos um brinquedo que toca músicas de ninar e tem o barulho da placenta junto, então deixava na cabeceira para ela. Hoje, durante o dia, ela ouve música o dia inteiro. Na minha opinião a música traz uma alegria para a criança, ela já começa a mexer o corpinho, quer dançar, bate palminha". (Amanda Françozo, mãe da Vitória, de 1 ano e dois meses)

Arthur, sete meses - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Arthur, sete meses
Imagem: Arquivo pessoal

"A música faz parte da vida do meu bebê desde os primeiros dias, cantava para niná-lo. Depois, com uns dois, três meses, comecei a cantar músicas mais agitadas, e você vê que a criança te responde muito, com um sorriso alegre, um gesto, move as perninhas, tenta imitar. Ele adora música clássica, jazz e para brincar a gente também usa música. Mas ele gosta muito quando eu mesma canto, porque ele entende mais e vai prestando atenção na própria mímica da minha boca para tentar imitar. A música está aumentando a nossa interação com ele". (Fernanda Seabra, mãe do Arthur, de 7 meses)

Constance, 1 ano e três meses - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Constance, 1 ano e três meses
Imagem: Arquivo pessoal

"Ouvia muita música na gravidez e curtia com ela. O meu marido canta e toca violão, então ele cantava para ela desde a barriga. Agora, toda vez que ele pega o violão para tocar, ela sai correndo em sua direção, fica muito feliz e já começa a dançar. A música embala todo o seu o aprendizado e incentiva muito o desenvolvimento motor, porque ela dança e se mexe. Acho que a vida e o desenvolvimento dela teria muito menos graça sem a música". (Graziela Shimith, mãe da Constance, de 1 ano e três meses)

Vídeos não são os mais indicados

Na correria do dia a dia, às vezes os pais colocam um vídeo para a criança assistir e se distrair. Porém, existe uma grande diferença no desenvolvimento neurológico quando os próprios pais cantam e interagem com o bebê.

"Hoje já sabemos que essa experiência de vídeos, ao contrário do que se pensava, causa um atraso de linguagem, porque o que faz com que o bebê fale ou tenha interesse em falar é a conexão que ele tem com outras pessoas. As áreas do cérebro são amadurecidas com a voz humana, com o rosto humano, não dos vídeos", afirma Ana Cecília Prado Sousa, psicóloga infantil.

Segundo a especialista em neuropsicologia, todos os pais, em algum momento, vão precisar de uma distração para o bebê, mas o que não pode acontecer é isso ser usado como forma contínua de estimulação.

Ajuda para bebês prematuros

Embora a medicina esteja avançada, bebês prematuros ainda correm riscos de distúrbios no neurodesenvolvimento mesmo passando por diversas terapias.

Avaliando a situação, pesquisadores da Universidade de Genebra e do Hospital Universitário de Genebra, na Suíça, tiveram a ideia de colocar um grupo de bebês para ouvir uma música escrita especialmente para eles.

Os primeiros resultados, publicados no PNAS, mostraram que as redes neurais de bebês prematuros que ouviram essa música, e em particular uma rede envolvida em muitas funções sensoriais e cognitivas, estão se desenvolvendo muito melhor do que bebês que não ouviram.

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