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Jovem diz que infartou por excesso de energético. Qual é a relação?

Bruna Alves

Do VivaBem, em São Paulo*

11/01/2022 16h45

Em entrevista ao UOL, o analista financeiro Allan da Costa Silva, 27, contou que teve um infarto do miocárdio em dezembro de 2021. Ele diz que bebia cerca de 5 litros de energético misturado com bebidas alcoólicas aos fins de semana. "Ele me disse que os energéticos são os principais vilões, os maiores causadores de coágulos no coração. Me deu uma bronca e fez um alerta para que nunca mais os tomasse."

De acordo com o cardiologista Roberto Kalil, professor da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e diretor do Centro de Cardiologia do Hospital Sírio-Libanês (SP), as principais complicações cardiovasculares decorrentes do uso em excesso dos energéticos são as arritmias (aumento desordenado da frequência cardíaca) e os picos hipertensivos. Em casos extremos, podem, sim, causar infarto agudo do miocárdio".

O especialista, porém, destaca que ainda é preciso entender melhor os desdobramentos da combinação entre taurina (um aminoácido naturalmente presente no nosso corpo e em peixes e frutos do mar ingeridos) e cafeína, "combo" presente em energéticos.

"Sabemos que o excesso destes estimulantes promove a liberação de hormônios de excitação, como a adrenalina e noradrenalina, que favorecem o aumento da pressão arterial, da frequência cardíaca e promovem a vasoconstrição dos vasos", escreveu Kalil, que também é presidente do InCor (Instituto do Coração).

Mistura com o álcool

A cafeína presente nos energéticos tem o papel de colocar o pé no "acelerador". Já o álcool, que muitas vezes se junta na forma de vodca ou uísque, por exemplo, seria como colocar o pé no "freio" ao mesmo tempo.

Essa é a analogia escolhida por Erica Siu, coordenadora do Cisa (Centro de Informações sobre Saúde e Álcool), para falar dos problemas de se misturar energético com álcool, combo frequente nas noites.

Ela explica que as drogas são classificadas em três grupos: as depressoras do sistema nervoso central (cujo principal órgão é o cérebro); as estimulantes e as perturbadoras. As primeiras reduzem funções cognitivas como memória e concentração; as estimulantes, o contrário. Já as perturbadoras alteram a percepção dos sentidos e produzem alucinações.

"A cafeína é um estimulante e o álcool, um depressor. E é justamente esse contraponto que as pessoas tentam fazer: tomar um estimulante para contrapor os efeitos depressores do álcool, como o sono, para, por exemplo, durar mais na noite", aponta Siu, com formação em biomedicina e especialização em dependência química.

"Você pode até mascarar os efeitos depressores do álcool, o problema é que a mistura não corta os efeitos do álcool em si, mas, sim, a percepção da embriaguez. Tem vários estudos mostrando que a mistura leva a comportamentos de risco mais intensos, como beber maior quantidade de álcool e ter comportamento sexual de risco."

Além disso, tanto a cafeína quanto o álcool são diuréticos, ou seja, aumentam o fluxo urinário e, com isso, podem levar mais facilmente à desidratação. Por isso, Siu recomenda, primeiro, que não se faça a mistura álcool e energéticos; e, quando houver o consumo desses produtos, que seja acompanhado de hidratação e alimentação.

Kalil também alerta para os efeitos da combinação na saúde cardiovascular. "A associação da cafeína com bebida alcoólica pode se tornar uma bomba relógio no sistema cardiovascular, mesmo nos mais jovens. Se a pessoa já tem doença cardiovascular, como arritmias cardíacas e doença das coronárias, o cuidado tem que ser redobrado", alerta.

"O álcool em excesso, por si só, já acelera o coração e faz subir a pressão arterial. Logo, com energético, os efeitos são potencializados. Sintomas como tremores e dor de cabeça também podem acontecer."

*Com informações da reportagem da BBC publicada em 21/02/2020.

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