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Femtechs ganham atenção mas ainda têm dificuldade para receber investimento

Lettycia Vidal, fundadora da Gestar - Arquivo Pessoal
Lettycia Vidal, fundadora da Gestar Imagem: Arquivo Pessoal

Júlia Flores

De Universa, em São Paulo

18/05/2022 04h00

Como explicar para uma mesa formada por investidores homens que o seu produto, um absorvente íntimo ecológico, sem química ou odores, é melhor do que o oferecido pelo mercado tradicional? Só o argumento de ser uma mercadoria ambientalmente correta não sustenta a tese.

"Quando falamos sobre nossos produtos com homens, comparamos o absorvente a uma camisa de plástico: 'Imagina que está muito calor e você está usando uma camisa de plástico. Daí você começa a suar e algumas bactérias se proliferam pelo seu corpo. De repente, você joga um perfume em cima do suor, que não para de cair e se misturar com as bactérias, e o cenário fica totalmente caótico. Pois é assim que nós, mulheres, nos sentimos ao usar absorventes íntimos tradicionais", explica Erika Tomihama, de 34 anos, cofundadora da Amai, startup que desenvolve absorventes orgânicos.

Erika e Luri, da Amai - Breno da Matta - Breno da Matta
Erika e Luri, da Amai
Imagem: Breno da Matta

Assim como outras empresárias do ramo (a Amai é uma femtech —startup que cria soluções voltadas a mulher, principalmente na área da saúde), Erika enfrenta o desafio de conseguir desmistificar o seu produto não só para a potencial clientela, como também para possíveis investidores.

No Brasil, temas relacionados à saúde feminina ainda são pouco discutidos na sociedade. Menstruação, por exemplo, segue sendo um tabu. Se esses assuntos não chegam aos ouvidos de todos, como o mercado pode entender a necessidade de solucionar dores tão particulares? É com esse desafio, de naturalizar temas e discussões até então tratadas como "sujas" ou "desnecessárias", que as femtechs ganham força no mercado brasileiro.

Assunto é novo

O termo "femtech" surgiu há cerca de nove anos —foi usado pela primeira vez por Ida Tin, fundadora do aplicativo de ovulação Clue. Tal qual o Clue, empresas do ramo se propõem a solucionar problemas reprodutivos, menstruais, sexuais, mentais e oncológicos que cruzam a vida das mulheres.

De acordo com dados do FemTech Industry 2021 / Q2 Landscape Overview, do FemTech Analytics (FTA), até 2027 o mercado global de femtechs deve somar US$ 60 bilhões. Por aqui, empresárias brasileiras começam a receber atenção do mercado, como aconteceu com a Oya Care e a Theia —a primeira é uma startup que ajuda a mapear a fertilidade feminina e a segunda auxilia mulheres na gestação.

Ainda assim, os aportes recebidos pelas empresas são pequenos quando comparados ao resto do mercado e as jornadas dessas empresas fogem à realidade da maioria das empreendedoras brasileiras.

Marina Ratton, criadora da Feel - Divulgação  - Divulgação
Marina Ratton, criadora da Feel
Imagem: Divulgação

Para Marina Ratton, 36, fundadora da empresa de sexual wellness Feel, o principal desafio das femtechs no Brasil de 2022 é naturalizar assuntos que ainda hoje a sociedade considera particulares. "Nós, pessoas com útero, temos dores que não são publicamente discutidas; começamos a ter soluções para a menstruação há menos de dez anos. O homem foi para a lua antes de criar o copinho menstrual. A gente não tem dados sobre o corpo feminino com a mesma profundidade que temos sobre o do homem —o primeiro estudo profundo sobre o clitóris é do ano 2000, por exemplo. Com esse pano de fundo, um ciclo se cria: 'Se nós não falamos sobre o assunto, o assunto não existe e, então, o problema não é solucionado'", pontua.

A ideia da Feel surgiu em 2018, quando Marina cursava um MBA nos Estados Unidos e ouviu falar sobre femtechs". De volta ao Brasil, ela decidiu investir, mais especificadamente na área de bem-estar sexual. "Os lubrificantes oferecidos pelo mercado até então não continham hidratante e secavam rápido. Nós, mulheres, sabemos o quanto é difícil transar sem a devida lubrificação. Por que a indústria tradicional não olhava para isso?", questiona.

O lubrificante da Feel é um dos carros-chefes da marca. Ele contém hidratante e óleo de coco. Foi o suficiente para conquistar o público feminino e criar uma comunidade ao redor da marca. Por isso, a primeira rodada de captação da empresa foi aberta ao público e, em um mês, Marina conseguiu arrecadar R$ 550 mil.

"Temos muitas barreiras para vencer no mercado tradicional de captação de fundos. São desafios comportamentais, de contexto, além do fato de as companhias de venture capital serem jovens no Brasil", comenta a empresária, que pretende abrir uma nova rodada de investimento em breve, "com preferência para as investidoras mulheres".

Mulheres, uni-vos

Diante deste contexto, cinco startups femininas se uniram para criar a primeira comunidade brasileira, a "FemTechs Brasil". A Gestar, primeira plataforma de agendamento de consultas com profissionais de saúde maternoinfantil do país, também faz parte da rede.

Lettycia Vidal, fundadora da Gestar - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Lettycia Vidal, fundadora da Gestar
Imagem: Arquivo pessoal

Lettycia Vidal, fundadora da Gestar, criou a empresa depois que vivenciou um caso de violência obstétrica na família. "Passei a conversar com outras mães sobre o assunto e me dei conta de que todas já tinham passado por algo parecido. Era uma dor gigante, que afetava metade da população nacional, que o mercado tradicional não atendia", comenta.

Ela começou a desenvolver o projeto com dinheiro do próprio bolso, até passar por um processo de aceleração de startups. "É complicado conseguir investimento porque, como na maioria das vezes a gente fala com homens, é preciso explicar assuntos novos para eles e contar com a empatia dos mesmos", contempla. Agora a Gestar está com um processo aberto ao público para captação de fundos, com meta de R$ 600 mil.

Não é falta de capacidade ou de preparação das profissionais, só é um espaço novo, que estamos abordando agora
Lettycia Vidal, da Gestar

"Nós, mulheres, precisamos saber que é possível; antes achavámos que não conseguiríamos nos tornar empreendedoras. Somos a primeira geração de mulheres criando soluções para outras mulheres", pontua a empresária de 26 anos.

Mais mulheres investindo

Na opinião de Lettycia, mulheres empreendedoras sofrem mais do que colegas do sexo masculino para provar a própria tese. "Temos que dar 1000% de certeza do nosso produto, responder a perguntas desafiadoras, duvidam muito da nossa capacidade e, olha, eu por exemplo, criei uma solução que atende um público gigantesco, que é o de mães", analisa.

Hoje, no Brasil, menos de 5% das startups foram fundadas exclusivamente por mulheres, segundo dados do "Female Founders Report 2021". Já o relatório global "FemTech Landscape", de 2021, traz outro dado interessante sobre o assunto, o de que, apesar de 80% das FemTechs mundiais serem criadas por mulheres, 95% dos investidores são homens —e a maioria trata saúde feminina como um problema de "nicho".

Para romper esses estigmas, cada vez mais mulheres estão entrando no mercado de investimentos, como é o caso de Flávia Mello, ex-funcionária da "indústria" de tecnologia (ela já trabalhou no Facebook e Uber, por exemplo) que decidiu sair do mercado tradicional para criar o fundo de investidoras-anjo "Sororitê".

"Quando entrei no mercado de startups comecei a me conectar com outras investidoras, porque ainda é um mercado dominado por homens (no Brasil existe cerca de 8 mil investidores-anjo e apenas 10% é mulher). Não me sentia incluída, nem representada na jornada de aprendizado. É um ambiente muito masculino e ao mesmo tempo masculinizado", comenta Flávia.

É com esse sentimento que o "Sororitê" é criada em abril de 2021, na época com dez investidoras. Hoje o grupo já reúne mais de 70 membros e a ideia é não parar de expandir. Para Flávia, é assim que inverteremos a lógica do mercado, não só com mais mulheres chegando ao topo de empresas ou criando as suas próprias, como também com mais pessoas do sexo feminino investindo nesse mercado.

Quando um homem vai fazer o pitch dele, perguntam qual a meta da empresa em três anos. Quando é uma mulher, perguntam como ela vai dar conta do negócio com três filhos. Sempre apostam no nosso fracasso -
Flávia Mello, do Sororitê

"Demorou, mas só agora estamos desmistificando que mulheres podem sim, sentar em mesas de reunião e fundar empresas. Passamos muito tempo identificando apenas homens brancos como pessoas de sucesso, essa história está sendo ressignificada agora, a partir de novas referências. É uma mudança a longo prazo, mas que já começou", aposta a empresária.