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'Fico confortável com a nudez', diz Julia Dalavia, a Guta de 'Pantanal'

Julia Dalavia, de 24 anos, vive Guta na novela "Pantanal" - Mariana Maltoni/Divulgação
Julia Dalavia, de 24 anos, vive Guta na novela "Pantanal" Imagem: Mariana Maltoni/Divulgação

Mariana Gonzalez

De Universa, em São Paulo

30/04/2022 04h00

No ar na Globo há menos de um mês, a personagem Guta, de "Pantanal", chama a atenção do público por dar lições sobre liberdade sexual, igualdade de gênero e LGBTfobia em um ambiente dominado por homens machistas, incluindo seu pai, Tenório (Murilo Benício).

A jovem segue tão "afrontosa" quanto em 1990, quando a primeira versão da novela foi ao ar na extinta TV Manchete. Mas a principal diferença, para a atriz Julia Dalavia, 24, é que hoje a Guta está presente em todos os ambientes e poderia ser "eu, você, qualquer amiga nossa".

"Quando a mãe de uma das minhas melhores amigas soube que eu faria essa personagem, ela falou: 'Eu amava 'Pantanal', queria ser a Guta (interpretada por Luciene Adami) porque ela era muito moderna'. Naquela época, a Guta era uma afronta, uma mulher muito à frente do seu tempo. Hoje ela é uma mana que a gente encontra todo dia, em todos os lugares, se posicionando, falando, lutando pra ser quem ela é", explica.

Em entrevista a Universa na última quinta-feira (28), em meio a uma agenda cheia de gravações no Rio de Janeiro e no Mato Grosso do Sul, Julia disse se identificar com a personagem em muitos aspectos: é feminista, gosta de se posicionar e não foge de um bom debate.

A atriz falou sobre a importância da TV para "furar bolhas" em meio a uma onda conservadora e sobre como, apesar de ser tímida, lida bem com a nudez dentro e fora das cenas: "Me sinto confortável. É meu corpo, uma coisa natural".

UNIVERSA - A Guta faz muito sucesso nas redes sociais. Sempre que fala sobre feminismo, é muito elogiada, chamada de lacradora. Ela cumpre um papel educativo na novela?
Julia Dalavia -
Sem dúvida. Ela é muito sarcástica, usa da acidez e do humor para explicar as coisas. Tanto a Guta quando o Jove (Jesuíta Barbosa) levam esses assuntos para "Pantanal", movimentam essa discussão. A gente está falando com muita gente e a dimensão disso é imensurável. O que pode parecer óbvio pra mim, para muita gente não é, por exemplo, para pessoas que têm o raciocínio como o do Tenório (Murilo Benício) ou da Maria Bruaca (Isabel Teixeira). É muito importante furar essa bolha. Estamos contando histórias de diferentes pontos de vista, apresentando outras perspectivas, mas de forma divertida, com entretenimento. Isso é mágico.

Em que aspectos você se identifica com a personagem?
A Guta é uma personagem que nunca deixa de falar, de se posicionar, por mais cansativo que seja, e eu acho isso muito bonito. Ela chega com opiniões muito fortes, os sentimentos à flor da pele, tem uma militância. Eu adoro debater. Muitas vezes prefiro ouvir, mas não deixo de expor quando preciso, gosto de um bom debate. Ela é uma menina com muita empatia e com uma visão muito clara do que pensa, do que acredita. Eu não sei muito bem se eu sou assim, mas gosto disso.

Como ela, você se considera feminista?
Ser mulher é ser feminista, estar sempre resistindo, ainda que não seja no discurso, mas se posicionando, tendo coragem de falar o que pensa todos os dias, no trabalho, na família, lutar pelo direito de ser quem se é. A luta é diária.

Julia Dalavia como Guta, em "Pantanal" - Globo/João Miguel Júnior - Globo/João Miguel Júnior
Imagem: Globo/João Miguel Júnior

Julia Dalavia como Guta, em "Pantanal"  - Globo/João Miguel Júnior - Globo/João Miguel Júnior
Imagem: Globo/João Miguel Júnior

Você assistiu à primeira versão de "Pantanal"? Como aquela personagem te inspirou para construir essa nova Guta?
Eu assisti alguns trechos, cheguei a ver cenas da Guta, mas vi a novela mais pra me ambientar. Eu nunca tinha ido ao Pantanal e queria entender que lugar é esse, qual é a essência desse trabalho. Mas assim que eu comecei a ver a segunda fase [momento em que Guta aparece], tive o ímpeto de parar, com medo de que aquela referência me influenciasse muito, seja porque eu ficaria me comparando a ela ou porque eu tentaria imitar.

Em relação à personagem, preferi olhar mais para nosso texto e entender quem é essa Guta de 2022, como ela se posiciona, como lida com suas relações. Existe uma diferença de 30 anos atrás para hoje, quando mais mulheres têm acesso ao feminismo e a ideia de igualdade de gênero está muito mais consolidada.

Embora a discussão sobre feminismo e gênero tenha avançado, vivemos uma forte onda conservadora nos costumes. Isso faz com que o discurso da Guta de hoje seja tão necessário quanto o da Guta de 1990?
Essa onda conservadora existe e é muito estranho ter que enfrentar isso. Ao mesmo tempo em que avançam nossos debates sobre gênero, há um movimento contrário que empata as coisas. Por outro lado, hoje a Guta é muito mais comum do que há 30 anos. Ela poderia ser você, eu, ou qualquer amiga nossa.

Para você ter uma ideia, quando a mãe de uma das minhas melhores amigas soube que eu seria Guta, ela ficou muito feliz e falou: "Nossa, eu amava 'Pantanal'. Queria muito ser a Guta porque ela era moderna. Eu e minhas amigas não podíamos falar nada daquilo". As pessoas achavam a Guta uma afronta, uma mulher muito à frente do seu tempo. Mas a Guta de hoje é uma mana que a gente encontra todo dia, em todos os lugares, se posicionando, falando, lutando pra ser quem ela é.

Na novela, a Guta é criticada por usar roupas curtas, que deixam o corpo à mostra, e também por ser uma mulher livre sexualmente. Você sofre ou já sofreu com isso na vida pessoal?
Muito pouco. Diante de todo o meu privilégio, do meu lugar de proteção, tenho passado pouco por esse lugar de julgamento que a Guta vive em "Pantanal". Ela vem da cidade, onde não tem que se preocupar tanto com isso, e chega a uma realidade onde aquilo [usar roupa curta e expor o corpo] não é natural, os caras comentam, gera falatório. Ela é uma menina claramente diferente ali, mas responde a isso, se posiciona.

Jove (Jesuita Barbosa) e Guta (Julia Dalavia) em cena sensual de "Pantanal" - Globo/João Miguel Júnior - Globo/João Miguel Júnior
Jove (Jesuita Barbosa) e Guta (Julia Dalavia) em cena sensual de "Pantanal"
Imagem: Globo/João Miguel Júnior

Recentemente foi ao ar uma cena de sexo entre Guta e Jove, em que vocês aparecem completamente nus no rio. Você também apareceu em uma foto fazendo topless ao lado das atrizes Alanis Guillen e Bella Camargo. Como se sente em relação à nudez? Lida bem com ela?
Me sinto super confortável. Todo mundo ali estava trabalhando para deixar a gente à vontade. A direção da novela tem muito bom gosto, a gente tem muita confiança na equipe, e ficou muito bonito: fazia parte do contexto, no meio daquele rio, daquela paisagem paradisíaca. Sou tranquila com isso na minha vida, no dia a dia. A nudez é uma coisa natural, é meu corpo.

Você usa pouca maquiagem, lida bem com a nudez dentro e fora das cenas. A pressão estética te atinge de alguma forma?
Atinge, claro, mas cada vez menos. A internet traz um discurso muito importante, do corpo livre, da pele livre. Isso é muito legal porque a gente consegue ir se despindo dessas armaduras. Não que seja fácil, mas cada vez mais a gente se sente mais confortável vendo outras manas saindo dessas performances de feminilidade, deixando a maquiagem de lado. Estou cada vez mais consciente e confortável dentro do meu corpo.

Apesar de falar e agir de maneira bem feminista, a Guta entra em uma espécie de disputa com a Juma pelo amor do Jove, o que é uma narrativa machista. O que ela pensa sobre isso? Não seria o caso de mudar?
Elas têm um primeiro embate na cena em que se veem pela primeira vez. É o encontro de duas forças, mas eu acho que todo mundo vai se surpreender com o desenrolar dessa história.

A Guta é muito racional, tem esse discurso muito bem elaborado, sabe que escolhas fazer, que atitudes tomar, mas não acho que isso invalida os sentimentos dela, seja o amor ou o ciúmes, até porque tudo isso é natural. A gente sente, não tem como negar, e o que a gente faz com esses sentimentos é o que importa. Então a Guta é uma pessoa que se vê em conflito entre os sentimentos dela e o que ela sabe que é o certo a fazer. Mas tenho certeza de que as pessoas vão se surpreender.

Você é muito discreta em relação à vida pessoal. Há poucas fotos e informações suas que não sejam sobre o seu trabalho. Escolheu manter sua vida privada fora dos holofotes?
É uma escolha, sim. Eu sou muito tímida, prefiro ficar mais reservada, guardar minha vida privada só para mim. Eu gosto tanto do meu trabalho, é ele que está aí no mundo e é sobre o que eu me sinto mais confortável falando.

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