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Bióloga aprendeu a conviver com as onças do Pantanal: 'Ela te olha no olho'

A bióloga Lilian Rampim: "No Pantanal há uma explosão de vida que não tem em bioma nenhum" - Divulgação
A bióloga Lilian Rampim: 'No Pantanal há uma explosão de vida que não tem em bioma nenhum' Imagem: Divulgação

Nina Rahe

Colaboração para Universa, de São Paulo

27/04/2022 04h00

Lilian Rampim não assistiu à primeira versão de "Pantanal" e tampouco conseguiu tempo para acompanhar os primeiros capítulos do remake da novela, que estreou há pouco menos de um mês, na Rede Globo. Nascida em 1985, a bióloga tinha apenas cinco anos quando a TV Manchete passou a exibir a trama na qual Juma Marruá, personagem de Cristiana Oliveira, transformava-se em uma onça-pintada.

Nessa época, Lilian já vivia às voltas com vários bichos. Natural de São Paulo, criada em um sítio no bairro Eldorado, ela cresceu vendo no próprio quintal espécies de bugio, bicho-preguiça, macaco-prego e chegou até mesmo a criar um filhote de gambá, algo impensável para quem visita a região atualmente e vê o espaço já tomado pelo concreto das construções que foram surgindo no decorrer dos anos.

Desde 2011, no entanto, Lilian vive bem longe dali. Está bastante perto, agora, da onça-pintada, considerada o maior felino das Américas e o terceiro maior do mundo, perdendo apenas para o tigre e o leão. A razão da proximidade é o fato de que, há 10 anos, ela se mudou para o Pantanal para trabalhar na Associação Onçafari. "Me apaixonei. Na Mata Atlântica a gente nunca vê bicho e aqui é uma explosão de vida que não tem em bioma nenhum", explica.

Técnica habitua animais à presença humana

Para além do bioma, ela também se apaixonou pela proposta da Onçafari, que trabalha com a habituação de animais, uma técnica que começou a ser desenvolvida com leopardos, na África do Sul, e consiste em habituar os animais à presença humana. Nesse processo, não há métodos de domesticação, como oferecimento de comida e contato físico, mas apenas a observação a partir dos veículos, o que faz com que as onças sejam vistas pelos turistas de modo mais frequente e com que os pesquisadores consigam analisar e coletar dados do comportamento da espécie em vida livre.

Lilian - Divulgação - Divulgação
Natural de São Paulo, Lilian foi criada em um sítio no bairro Eldorado e cresceu vendo no próprio quintal espécies de bugio, bicho-preguiça e macaco-prego
Imagem: Divulgação

Com anos de experiência no Zoológico de São Paulo, onde tinha entre suas atribuições quebrar a rotina dos animais que, por causa da vida em cativeiro, desenvolviam atitudes comportamentais que não eram consideradas normais, Lilian não acreditou quando ouviu que era possível se aproximar das onças. "Você está me dizendo que elas permitem ser observadas mesmo na mata? Duvido", ela se lembra de ter dito ao professor que a indicou para a vaga.

Antes de aceitar o trabalho, inclusive, fez questão de viajar ao Pantanal só para se certificar de que a propaganda não era enganosa. Mas foi ali, no Refúgio Ecológico Caiman, que conheceu a onça Esperança e sua filha, Natureza. Na época, as duas eram as poucas avistadas pelo programa que, na última década, já estudou cerca de 200 animais da espécie. "A gente rodava quilômetros e quilômetros mostrando para as onças que os encontros eram tranquilos e com o tempo elas entenderam que os carros não são uma ameaça, o que vai passando de geração para geração", explica Lilian.

Lilian - Divulgação - Divulgação
Há 10 anos, a bióloga se mudou para o Pantanal para trabalhar na Associação Onçafari
Imagem: Divulgação

A bióloga participou ainda dos primeiros passos da ampliação desse projeto, com o início da reintrodução de onças no ambiente selvagem. Tudo começou em 2014, quando uma onça abatida em Corumbá deixou dois filhotes. A equipe da Onçafari, então, começou a ensiná-los a caçar em um aprendizado que incluiu longos períodos de jejum e o oferecimento de presas vivas com diferentes níveis de dificuldade para caça: de porcos e capivaras a queixadas. "Elas responderam bem. Agora já tiveram filhotes e seus filhotes já tiveram filhotes", comemora Lilian.

Antes disso, ela já havia vivido uma experiência similar, porém sem o mesmo sucesso. No início de sua atuação no Zoológico de São Paulo, desenvolvendo pesquisa com Leopardus tigrinus, Lilian ajudou no treinamento de quatro casais que poderiam ter uma chance de retornar a seu habitat natural. "Meu papel era ofertar a eles presas vivas duas ou três vezes por semana, mas a história não teve final feliz porque não pude soltar nenhum dos animais que ajudei a transformar em caçadores", resume.

No fim da experiência, todos testaram positivo para um tipo de parasita e não havia, até então, conhecimento suficiente sobre a existência de tais parasitas em vida livre. "Não soltamos porque houve medo de introduzir uma doença nova na natureza."

'A onça te olha no olho'

Agora, passados mais de 10 anos, ela ainda se admira ao ver o bicho "com a mordida mais potente no mundo dos felinos", por quem aprendeu a ter um respeito profundo, abatendo jacarés e capivaras bem na sua frente. "Elas se sentem à vontade e confortáveis. Se tiverem que copular, caçar, lamber o filhote, vão fazer pelo simples fato de que confiam na gente", explica. "Nós temos noção do comportamento natural da espécie e esse é um privilégio."

Lilian - Divulgação - Divulgação
Lilian Rampim em ação no Projeto Onçafari, no Pantanal
Imagem: Divulgação

Na rotina diária no Pantanal, Lilian não cansa de ser surpreendida por novas descobertas, como a frequência com a qual as onças sobem em árvores —o que os biólogos já percebem como extensão do seu território— e o repertório de vocalizações que possuem. "O mais legal da onça habituada é que ela te olha no olho e é difícil um animal que te olhe no fundo do olho. Eu falo 'caramba, o bicho está olhando para a minha alma'."

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