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Nos EUA, passageiros filmam estupro em trem: como agir para salvar a mulher

Mulheres protestam contra estupro nas estações de metrô em SP - Roberto Sungi/Futura Press/Folhapress
Mulheres protestam contra estupro nas estações de metrô em SP Imagem: Roberto Sungi/Futura Press/Folhapress

Luiza Souto

De Universa

21/10/2021 04h00

Uma mulher foi estuprada dentro de um trem no estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos, enquanto outros passageiros ficavam assistindo à cena e gravando com seus celulares, na quarta-feira (13) da semana passada. Segundo o jornal norte-americano "The Washington Post", foi só 45 minutos após o criminoso ter dado início ao ataque que uma funcionária que viu o ato chamou as autoridades e o homem foi preso. Delegadas ouvidas por Universa repudiam a atitude das testemunhas e afirmam: daria para ter feito algo.

"Em algumas situações, é perigoso interferir, mas no caso em que você tem um número maior de pessoas, em que uma mulher está sendo subjugada, correndo risco, daria pelo menos para as pessoas pegarem seus telefones e pedir ajuda", diz a diretora do Departamento Geral de Polícia de Atendimento à Mulher do Rio de Janeiro, delegada Sandra Ornellas.

A delegada Titular de Capivari e da Delegacia de Defesa da Mulher, Maria Luísa Rigolin, concorda que não devemos nos expor a riscos mas, para ela, não reagir também não é uma opção. "Não dá para saber se a pessoa está armada ou não, mas o que nos torna humanos é o senso de empatia."

O próprio superintendente do Departamento de Polícia de Upper Darby, Timothy Bernhardt, disse ao "The New York Times" que se os passageiros tivessem ligado para a polícia o crime poderia ter sido evitado. Dica, inclusive, dada também pela delegada de polícia Raquel Gallinati, presidente do SINDPESP (Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo).

Dava para sair do vagão e pedir para que algo fosse solucionado, ou dali entrar em contato com as autoridades na hora, ou ainda perceber se há a possibilidade de salvar a vítima, mas nunca observar como se fossem espectadores dos atos bárbaros da idade média.

Raquel Gallinati, presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo

Tentar justificar o que leva uma pessoa a presenciar um ato criminoso e, além de nada fazer, filmar a situação, é complexo, mas pode ter a ver com uma sociedade cada vez mais individualizada, opina o neuropsicólogo Antônio de Pádua Serafim, do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).

"É bastante preocupante, nas relações humanas, a indiferença e a ausência de empatia e sensibilidade com o sofrimento alheio. Daria aí para dizer não necessariamente que seja um sadismo, mas uma passividade. [Uma postura de] não é comigo, então não tem problema."

Crimes contra a mulher no transporte brasileiro

São vários os casos de agressão a mulheres no transporte público brasileiro. Ano passado, uma mulher identificada como Larissa Almeida denunciou um homem por assédio sexual dentro de um trem no Rio de Janeiro. Ele sentou-se diante dela no vagão, no ramal Japeri, e tentou se masturbar, mas ela se levantou e gritou para impedi-lo. Depois de muito gritar, Larissa caiu no choro, mudou de vagão no trem e teve o apoio de outras mulheres. Ela fez Boletim de Ocorrência na 63ª Delegacia de Polícia de Japeri para importunação sexual e publicou vídeos sobre o caso, que rapidamente viralizaram.

Em 2018, uma estudante disse que foi estuprada dentro da estação Sacomã do metrô, em São Paulo, quando ia para a faculdade. Segundo o relato da jovem, o acusado ameaçou-a com uma arma de fogo e a levou para "um canto" da estação.

Uma pesquisa de 2019, encabeçada pelo IBOPE Inteligência e a Rede Nossa São Paulo, mostra que o transporte coletivo é o local em que as mulheres da cidade de São Paulo mais temem sofrer algum tipo de assédio sexual. O receio de ser assediada é até maior em ônibus, trens e metrôs do que na rua ou em baladas.

"Eu quero crer que por aqui as pessoas ainda não estejam tão maculadas por essa superficialidade do mundo virtual, mas de qualquer maneira, independentemente de onde esteja, deixo aqui um alerta para a necessidade de pedir socorro, ligar para o 190, da Polícia Militar, ou o 197, da Polícia Civil", ensina a delegada Sandra Ornellas.

Como denunciar a violência contra a mulher

Em flagrantes de violência, ou seja, quando alguém está presenciando uma agressão, a Polícia Militar deve ser acionada pelo telefone 190.

O Ligue 180 é o canal criado para mulheres que estão passando por situações de violência. A Central de Atendimento à Mulher funciona em todo o país e também no exterior, 24 horas por dia. A ligação é gratuita. O Ligue 180 recebe denúncias, dá orientação de especialistas e encaminhamento para serviços de proteção e auxílio psicológico. Também é possível acionar esse serviço pelo Whatsapp. Neste caso, o telefone é (61) 99656-5008.

Os crimes de violência contra a mulher podem ser registrados em qualquer delegacia, caso não haja uma Delegacia da Mulher próxima à vítima. Em casos de risco à vida da mulher ou de seus familiares, uma medida protetiva pode ser solicitada pelo delegado de polícia, no momento do registro de ocorrência, ou diretamente à Justiça pela vítima ou sua advogada.

A vítima também pode buscar apoio nos núcleos de Atendimento à Mulher nas Defensorias Públicas, Centros de Referência em Assistência Social, Centros de Referência de Assistência em Saúde ou nas Casas da Mulher Brasileira. A unidade mais próxima da vítima pode ser localizada no site do governo de cada estado.