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Minha história

'Descobri que era bissexual ao me apaixonar pela minha fisioterapeuta'

Ana Carolina e Camila vão casar em novembro. - arquivo pessoal
Ana Carolina e Camila vão casar em novembro. Imagem: arquivo pessoal

Ana Carolina Pucharelli em depoimento a Fernando Barros

Colaboração para Universa

11/09/2021 04h00

"Em 2017, eu treinava crossfit todos os dias e participava de alguns campeonatos com amigas para me divertir. Aprendi a cuidar mais do meu corpo e do meu bem-estar praticando essa modalidade, mas tive naquele ano uma lesão séria no joelho. Por conta disso, precisei parar de treinar e iniciar dez longas sessões de fisioterapia.

No consultório do ortopedista, conheci Camila, a fisioterapeuta que acompanharia meu tratamento. Desde o primeiro dia, senti como se uma conexão tivesse sido estabelecida entre nós. A partir das sessões, nos aproximamos e um sentimento estranho nasceu dentro de mim. Inicialmente, eu não conseguia entender e menos ainda lidar com aquilo, que era totalmente novo e me colocava em uma posição de descoberta no alto dos meus, na época, 27 anos.

Com a desculpa dela me ajudar a entender os exercícios que eu podia fazer por conta do joelho, passamos a trocar mensagens e conversar frequentemente. Por exemplo, nesse período, eu fiz uma viagem para a Índia e, mesmo com o fuso horário de mais de 8 horas de diferença entre lá e aqui, nos falamos o dia todo.

Confusa, eu tentava entender se ela queria só ser minha amiga ou se de fato existia um interesse no ar. Minhas amigas mais próximas com quem compartilhei e que acompanharam tudo desde o início me falavam que era coisa da minha cabeça, mas em mim algo dizia que estava, sim, crescendo um sentimento forte entre nós.

Me perguntava: 'faço isso com as minhas amigas?'

Até conhecer Camila, Ana só tinha se relacionado com homens.  - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Até conhecer Camila, Ana só tinha se relacionado com homens.
Imagem: arquivo pessoal

Quando voltei dessa viagem, Camila me chamou para sair e nós nos encontramos em um bar. Eu fui sem saber muito bem o que esperar, afinal nunca havia saído com uma menina antes. Lembro que eu analisava todos os movimentos dela e fazia uma enquete comigo mesma mentalmente. A cada gesto, eu pensava: "eu faço isso com as minhas amigas ou é um sinal de paquera?".

Por exemplo, ela me pagou um drink, lá surgia uma enquete na cabeça. Ela pegava na minha mão, eu me perguntava internamente, ela falava que estava com calor, eu pensava se tinha algo nas entrelinhas. E assim foi durante a noite toda.

No final do encontro, estávamos na área externa e eu com muita vontade de beijá-la - e definitivamente eu não sentia isso pelas minhas amigas! (Risos). Como ela não tomava atitude, eu então a beijei e matei logo a vontade.

Daquele beijo em diante, nós nunca mais nos largamos. Depois de muito problematizar, sessões e sessões de terapia, consegui assimilar que eu estava apaixonada pela Camila. Ao cair a ficha, abracei esse sentimento e procurei lidar da forma mais leve possível, como o amor merece. No entanto, a descoberta que acontecia em paralelo com o despertar dessa paixão não foi tão simples assim.

Ao me apaixonar por outra mulher, iniciei um processo de entender minha sexualidade

Até aquele momento, sempre me identifiquei como heterossexual. Todos os meus relacionamentos haviam sido com homens e eles me ensinaram muito. Tive namorados maravilhosos, com os quais criei relações saudáveis e muito carinhosas e que me ensinaram a respeitar, admirar e acolher. Então, eu não conseguia entender ou me encaixar. Não fechava a conta para mim de como tinha me apaixonado de maneira tão genuína por uma menina tendo vivido histórias tão bacanas com meninos até então.

A bissexualidade é muito invisibilizada na nossa sociedade e isso retardou muito meu processo de autoconhecimento.

Eu me questionava se eu era lésbica, por estar gostando de alguém do mesmo sexo, ou se tudo aquilo era só uma fase e logo ia passar. Com o tempo, vi que não passaria e fui a fundo até entender como eu lidava com a minha sexualidade e com tudo que eu havia vivido.

Depois de buscar referências e outras pessoas que viviam histórias parecidas, consegui entender que eu era uma mulher bissexual. Eu não podia mais me considerar heterossexual, mas também não podia invalidar tudo o que eu já tinha vivido em relacionamentos anteriores com homens. Descobri dessa forma que ser bissexual não é bagunça ou dúvida: é uma orientação sexual como qualquer outra.

Demorei para falar no trabalho, mas agora sou líder de assuntos de diversidade e inclusão

Minhas melhores amigas e minha irmã me ajudaram muito no processo de aceitação da minha bissexualidade, mas no começo, no ambiente de trabalho, por exemplo, eu demorei bastante a assumir. Tinha medo da aceitação, de não ser acolhida ou de prejudicar minha carreira - eu sempre fui muito cuidadosa com minha vida profissional.

Era um medo paralisante pensar que no segundo anterior eu era aceita e no segundo seguinte podia não ser mais, só por ter me apaixonado por alguém, não era justo.

Por conta disso, eu tinha medo de andar na rua de mãos dadas, de ir para uma festa ou restaurante, de postar fotos nas redes sociais, e por aí vai. Esse período inicial me roubou noites de sono, me fez repensar muitas coisas e eu resolvi ir com medo mesmo.

Foi um processo: fui parte por parte até chegar na abertura completa. Hoje, eu falo tranquila e plenamente sobre minha orientação e meu relacionamento.

Eu costumo brincar que existe a Ana pré-2017 e a Ana pós-2017. Minha vida passou a ser mais leve, genuína, madura e sincera. Revisitei todos os meus valores e as coisas para as quais dou atenção ou dedico energia. Agora, não busco mais aceitação dos outros. Aprendi que eu sou quem mais me conhece. Minhas necessidades, vontades e felicidades só serão vividas se eu cuidar para que isso aconteça.

Além disso, hoje vejo que eu tenho obrigação de abrir o caminho para as que vêm na sequência e precisam de outras histórias que mostrem que é possível e que o mundo é nosso também. No ambiente corporativo, por exemplo, hoje sou líder de assuntos de diversidade e inclusão, para assegurar meu papel no impacto positivo na vida das pessoas.

Vamos casar e queremos ter filhos

Após a descoberta da minha bissexualidade, aprendi também a viver o presente cuidando de mim e de quem eu amo. Com isso em mente, eu e Camila decidimos nos casar e tínhamos uma festa agendada para novembro do ano passado, mas a pandemia mudou um pouco os nossos planos.

Ana Carolina e XXX tiveram que adiar a festa por conta da pandemia, mas devem casar em novembro deste ano - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Ana Carolina e Camila tiveram que adiar a festa por conta da pandemia, mas devem casar em novembro deste ano
Imagem: arquivo pessoal

Não nos sentimos confortáveis em colocar as pessoas que mais amamos em risco, por isso nós acabamos nos casando somente no civil e remarcamos a festa para novembro deste ano. Agora, finalmente teremos a nossa comemoração tão sonhada, com todos os convidados vacinados e protegidos. Estamos organizando uma festa linda para celebrar nosso relacionamento e mostrar para o mundo que quando há amor a luta vale a pena.

Será um momento para reunir nossas famílias e amigos mais próximos, que vivem essa história conosco. Temos pessoas muito maravilhosas ao nosso lado. Somos extremamente abençoadas.

Além disso, eu sempre digo que nossa vida é uma forma muito importante de representatividade porque estamos abrindo espaço para formas diversas de relacionamento. Essa festa é também uma construção importante no caminho de evolução da nossa luta.

Além da celebração do casamento, pretendemos também ter uma criança no próximo ano. Esse assunto é muito novo para nós: ainda estamos no momento de tomada de decisão, mas já sabemos que eu passarei pelo processo de gestação e utilizaremos um banco de doadores. Ainda vamos fazer todos os exames e planejar com calma e carinho todo esse processo. Mas uma coisa é certa: queremos ensinar a essa criança que ela poderá ser quem quiser ser.

Nossa relação será baseada no amor, confiança e respeito sempre. Pretendemos passar para ela a lição de viver a vida com muita colaboração e respeito à individualidade de cada um. Espero que sejamos bem-sucedidas na criação de uma pessoa que entende e respeita as diferenças do mundo e contribui positivamente nos ambientes em que vive." Ana Carolina Pucharelli tem 32 anos e vive em São Paulo.

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