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Obstetra narra drama de grávidas com covid: parto na UTI e legião de órfãos

Taissa Souza morreu com 7 meses de gestação do segundo filho, deixando o marido, Victor, e o filho, Heitor, 3; seu bebê está na UTI neonatal - Arquivo pessoal
Taissa Souza morreu com 7 meses de gestação do segundo filho, deixando o marido, Victor, e o filho, Heitor, 3; seu bebê está na UTI neonatal Imagem: Arquivo pessoal

Mariana Gonzalez

De Universa

05/05/2021 04h00

O Brasil ocupa o 1º lugar no ranking de países com mais mortes por covid-19 de mulheres gestantes e puérperas no mundo. Para Melania Amorim, professora da Universidade Federal de Campina Grande e médica da Rede Feminista de Ginecologistas e Obstetras, isso é resultado de falhas assistenciais de saúde e da "condução catastrófica" da pandemia pelo governo.

A ginecologista, obstetra e pesquisadora está atuando na linha de frente e esteve na Câmara, ao lado das deputadas Sâmia Bonfim (PSOL-SP) e Talíria Petrone (PSOL-RJ), para defender o Projeto de Lei (PL) que pede a inclusão de grávidas e puérperas no grupo prioritário do Plano Nacional de Imunização contra a covid-19.

Em entrevista a Universa, Melania Amorim defende a proposta, diz que é papel do governo proteger as gestantes em meio à pandemia e conta detalhes do atendimento às grávidas contaminadas: um parto de emergência por dia, cesarianas feitas na UTI (Unidade de Terapia Intensiva), estado de profunda exaustão e "uma legião de órfãos" da covid-19.

UNIVERSA: O Brasil é campeão no ranking de mortalidade de grávidas e puérperas por covid-19. O que nos leva a esse patamar?

karine ferro na uti neonatal covid - Divulgação/Maternidade Santa Mônica - Divulgação/Maternidade Santa Mônica
A enfermeira Karine Ferro, 42, na UTI neonatal de prematuros com covid-19 na Maternidade Santa Mônica, em Maceió (AL)
Imagem: Divulgação/Maternidade Santa Mônica

Melania Amorim: Nós estamos nesse lugar primeiro por conta da condução catastrófica da pandemia de forma geral e, depois, por falhas assistenciais muito graves. Nosso grupo de pesquisa, a Rede Feminista de Ginecologistas e Obstetras, realizou ao longo do ano passado uma série de estudos que demonstraram gargalos importantes no atendimento às gestantes: mais de 40% das mulheres ficaram sem acesso a leitos de UTI, à ventilação mecânica e a outros equipamentos até mais simples, como um catéter de oxigênio. Também dá para associar essas mortes à cobertura do Programa de Saúde da Família — em áreas cobertas, mulheres morreram menos; em áreas descobertas, morreram mais. Há, ainda, um pré-natal desorganizado, com suspensão de consultas e, consequentemente, falha na identificação precoce de uma série de questões.

As gestantes foram muito acometidas por covid-19 e SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave), mas morreram mais por falhas assistenciais

O que faz com que o risco de contaminação e hospitalização seja maior entre as gestantes?

As gestantes estão mais suscetíveis a pneumonias virais em geral porque têm alterações imunológicas para aceitar o feto, já que ele tem metade da carga genética paterna. Basicamente, mulheres grávidas são imunocomprometidas, e isso é normal em toda gravidez, mas deixa elas mais propensas à gripe, ao H1N1, entre outras doenças, como a covid-19.

À medida que o bebê vai crescendo, o útero aumenta e empurra o diafragma, o que modifica a capacidade respiratória. Se ela tiver uma doença respiratória, aumenta o risco de um quadro grave, ou seja, aumentam as chances dela precisar ser hospitalizada, de ir para a UTI, para a ventilação mecânica e, claro, de morrer de covid-19. Um estudo publicado no "International Journal of Gynecology and Obstetrics", por exemplo, mostra que as taxas de mortalidade pela covid-19 foram 13 vezes maiores em grávidas do que em indivíduos com idades semelhantes.

Então por que elas não estão incluídas nos grupos prioritários? O que pode ter levado a essa decisão?

Eu não sei, porque eu não estou no Ministério da Saúde. Mas parece que as vidas das mulheres não importam. No começo da pandemia, as gestantes foram incluídas como grupo de risco, mas o governo não tomou medidas para protegê-las na hora de planejar a vacinação. As grávidas com comorbidades já podem tomar a vacina, mas a gravidez por si só é um fator de risco para covid-19, então muitas continuarão expostas ao vírus por um bom tempo.

Como geralmente é feito o atendimento às mulheres grávidas com covid-19 que chegam à emergência?

Em quadros mais leves elas podem receber suporte de oxigênio, com cateter ou máscara, mas se for insuficiência respiratória grave, elas têm que ser intubadas e entrar na ventilação mecânica.

Dependendo da condição clínica, podem precisar de cesariana de emergência, e às vezes a condição é tão grave que é o parto é feito dentro da UTI mesmo, nem dá para levar para um leito clínico. Esses casos têm aumentado muito. Não dá para dizer e porcentagem, mas para você ter uma ideia, antes eu fazia uma cesariana de emergência por semana, agora faço praticamente todos os dias

Você participou de uma reunião com a deputada Sâmia Bonfim (PSOL-SP), na Câmara, para falar do projeto de lei que pede a inclusão das grávidas no grupo prioritário da vacinação. Como foi essa reunião?

melania amorim - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Melania Amorim integra a Rede Feminista de Ginecologistas e Obstetras
Imagem: Arquivo pessoal

A reunião foi ótima, a própria Sâmia está gestante, o deputado Marcelo Ramos (PL-AM), que também apresentou um PL neste sentido, foi muito acessível. Nessa época de tanto obscurantismo, tanta negação à ciência, a gente fica muito feliz quando alguém ouve as nossas recomendações. Nós da Rede Feminista de Ginecologistas somos ativistas, claro, mas somos cientistas, pesquisadoras, e estamos propondo soluções baseadas na ciência. Agora resta torcer que tudo caminhe o mais rapidamente possível, que o projeto seja aprovado pelo Congresso e sancionado pelo presidente.

Era possível ter previsto esse quadro no início da pandemia?

A gente está denunciando isso há tempos. No começo de abril, vi no Facebook a lembrança de um post meu do ano passado dizendo que, àquela altura, já havia três mortes maternas e uma puérpera internada em estado grave, e que precisávamos estar atentos para proteger as gestantes durante a pandemia. Eu nunca quis tão desesperadamente estar errada. Isso foi se consolidando e a gente chegou a 22,2 mortes maternas [soma de gestantes e puérperas de até 42 dias] por semana nas 13 primeiras semanas epidemiológicas de 2021. São mais de três mortes maternas por dia.

Todo dia eu digito no Google 'gestante morreu de covid' e encontro pelo menos um caso daquele dia, ou do dia anterior. É como aquela música do Chico César: 'Se números frios não tocam a gente/Espero que nomes possam tocar'

E quais são as consequências dessa proporção de mortes maternas para o Brasil, a longo prazo?

É um problema de dimensões trágicas. Essas mulheres poderiam ser nossas irmãs, nossas filhas, nossas amigas. Não é só aquela mulher que perde a vida que se torna vítima, mas milhares de viúvos e viúvas da covid-19, além de uma legião de órfãos — não só aquele bebê, daquela gestação, mas muitas vezes outros filhos anteriores

O impacto disso na vida futura, no desenvolvimento do país, nos indicadores de saúde dessas crianças, vai ser muito grande. Se perdeu o controle da pandemia, a estrutura do SUS não estava preparada para receber tantos casos de covid-19 e as falhas assistenciais vão piorando à medida que o sistema de saúde colapsa e surgem variantes mais agressivas em pessoas jovens, consequentemente em grávidas.

Você coordenou pesquisas sobre óbitos de gestantes com covid em 2020. O que mais chamou atenção nos dados?

fabiana sousa - Divulgação - Divulgação
Fabiana Sousa, 31, de Sobral (CE), conheceu o filho por videochamada; ela estava grávida de seis meses quando pegou covid e fez uma cesárea de emergência
Imagem: Divulgação

A subnotificação, com certeza. Esse é um problema muito sério. No ano passado, fechamos o ano com 449 mortes maternas — esse dado está no Sivep-Gripe, um sistema de domínio público do Ministério da Saúde. Porém, essa planilha mostra casos de morte por SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave), classificados por causas como covid-19, mas muitos também estão com causa indeterminada. No meio de uma pandemia de vírus respiratório, se morre uma mulher e essa morte é cadastrada como SRAG de causa indeterminada, nossa especulação é de que ela tenha morrido em decorrência de covid e que não deu tempo de fazer teste — ou nem tinha teste, já que eles nunca foram distribuídos com toda a certeza estão subnotificados. Então esses dados com certeza são subnotificados. Além disso, pode ser que outras mulheres tenham morrido de covid-19 sem sintomas respiratórios, mas com embolia pulmonar, infarto do miocárdio etc.

O correto, para ter números precisos, seria testar todas as mulheres na porta de entrada da maternidade, com teste rápido. Depois que o quadro se agrava, pode não dar tempo, e isso contribui para a subnotificação. De toda forma, com os dados que a gente analisou até agora, é possível que em 2021 a gente tenha uma proporção de morte materna por covid-19 de 30% a 40% maior que em 2020.

Se a pandemia está diminuindo o pré-natal, essas mulheres ficam mais suscetíveis à morte materna por outras causas também?

Sim. É bastante possível que a mortalidade aumente por outras causas também além da covid-19. O pré-natal está desorganizado, consultas são suspensas, exames também, e isso faz aumentar a mortalidade materna por causas obstétricas. As mulheres no Brasil sempre morreram por hipertensão, hemorragia, infecções, mas isso está aumentando muito. Nossa taxa de morte materna já não era adequada, mas agora vamos ter que lidar com as consequências desse crescimento.

Ainda não temos dados atualizados de morte materna do país todo, porque não são todas as secretarias de Saúde que repassam os dados ao Ministério da Saúde, mas para você ter uma ideia, a média nacional de morte materna do Brasil, antes da pandemia, era de 60 a cada 100 mil mulheres. Agora, na cidade de Recife, passou de 138 por 100 mil mulheres, ou seja, um número mais de duas vezes maior que a média nacional.

Como o aumento dos casos graves, partos de emergência e mortes estão afetando a vida das ginecologistas e obstetras? Como você está lidando com esse quadro?

Todo profissional de saúde que atua na linha de frente, neste momento, está em estado de profunda exaustão. Mas quando acontecem casos de morte materna, isso nos comove, nos angustia e nos deixa indignados. É uma mistura de sentimentos e a gente não tem nem tempo de processar esse luto, porque mal saímos de um e já temos que lidar com outro.

Em uma especialidade como a ginecologia e obstetrícia, que a gente escolhe para ver vida, a morte é uma tragédia de proporções inexplicáveis. Isso perturba a gente, porque na grande maioria dos casos a morte poderia ter sido prevenida

A gente está denunciando isso há tempos, brigando há tempos, mas parece que ninguém escuta. É preciso salvar as gestantes. A sociedade, os políticos, o governo, devem isso às mulheres. Elas não podem continuar chegando ao final de um processo de gestação e, ao invés de encontrar a vida, encontrar a morte.

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