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Exclusivo: em vídeo, Klein diz que pagou R$ 800 mil por silêncio de vítimas

Yasmin Ayum/UOL
Imagem: Yasmin Ayum/UOL

Pedro Lopes

De Universa

01/05/2021 04h00

As acusações sobre crimes sexuais contra Saul Klein, 67, chegaram ao Judiciário bem antes de o empresário ser denunciado por 32 mulheres ao Ministério Público em dezembro de 2020, por estupro e aliciamento.

O empresário, que declarou um patrimônio de R$ 61,6 milhões à Justiça Eleitoral em 2020, quando se candidatou a vice-prefeito de São Caetano do Sul (SP), firmou contratos com pelo menos duas garotas que frequentavam sua casa no bairro nobre de Alphaville, em Barueri (SP), e em seu sítio em Boituva (SP), pagando R$ 800 mil a cada uma delas em troca de silêncio.

A Justiça já recebeu pelo menos duas ações cíveis, uma acusação criminal e cinco processos trabalhistas contra o milionário relacionados ao suposto esquema de aliciamento e abuso que faria com que suas casas recebessem até 40 mulheres no mesmo fim de semana.

Klein se defende da denúncia criminal das 32 mulheres alegando ser um "sugar daddy" — termo usado para homens mais velhos e geralmente ricos que têm como fetiche sustentar mulheres mais jovens em troca de afeto e/ou sexo. Sua defesa afirma que ele se limitava a pagar uma agência para lhe municiar com "sugar babies", como são chamadas as mulheres nesse tipo de relacionamento.

Em alguns desses processos anteriores, Klein chegou a prestar esclarecimentos à Justiça de São Paulo. Universa teve acesso exclusivo a vídeos de dois depoimentos do empresário em ações cíveis movidas contra ele por mulheres que teriam sido recrutadas para um esquema de crimes sexuais e abusos.

Os esclarecimentos foram dados em duas ações de 2019, ou seja, um ano antes das denúncias ao MP, ambas discutindo contratos firmados entre o empresário e mulheres que teriam sido recrutadas para o esquema. Nesses depoimentos, um de dezembro de 2019 e o outro, de janeiro de 2020, a linha de defesa de Klein na investigação criminal atualmente em curso, de que era um "sugar daddy" ou até o uso do próprio termo, não aparecem nenhuma vez.

No depoimento, Klein diz que as jovens, por meio da dona da empresa de eventos Avlis, Marta Gomes da Silva, ameaçaram divulgar fotos íntimas suas e revelar que ele teria abusado de uma menor de idade. Ele afirma que a garota de 17 anos, com quem disse ter namorado, apresentou um RG falso, cuja cópia está anexada no processo.

Nesta sexta, 30 de abril, Universa publicou três reportagens exclusivas sobre o suposto esquema de exploração sexual. Na primeira, "Caso Saul Klein: em relatos inéditos, 9 das 32 mulheres que acusam empresário de estupro descrevem rotina de abusos", as vítimas revelam como eram aliciadas, a rotina dentro das casas do empresário e como ocorreriam as violações sexuais. A segunda, "Anorexia e depressão: vítimas que acusam Klein relatam danos psicológicos", traz relatos de vítimas sobre traumas deixados pelos supostos abusos. E a terceira, "Tragédia: recrutada na escola, uma das 'preferidas' de Klein morreu aos 22", narra a história de uma vítima que tirou a própria vida.

Além dos processos cíveis de onde Universa obteve com exclusividade os vídeos dos depoimentos e dos já citados contratos nos quais Klein se compromete a pagar até R$ 800 mil pelo silêncio de três garotas, a reportagem também teve acesso à íntegra dos relatos das vítimas prestados ao MP, a trechos e decisões do inquérito policial e a outros três processos trabalhistas movidos por pessoas que ajudariam a recrutar as modelos e a organizar o suposto esquema de exploração sexual. Também foram entrevistadas duas vítimas e seus familiares, entre outras fontes, sob condição de anonimato.

No último dia 15 de abril, uma reportagem da Agência Pública revelou outro escândalo sexual envolvendo a família Klein. Vítimas acusam o pai de Saul, o empresário Samuel Klein, morto em 2014, de ter mantido um suposto esquema de exploração sexual de crianças e adolescentes. A reportagem mostra que acordos de confidencialidade foram feitos com algumas das vítimas.

Essa mesma prática de silenciar acusações de supostos crimes sexuais foi adotada pelo filho Saul Klein, como mostram os vídeos e os processos obtidos por Universa.

Procurado por Universa, o empresário, por meio de sua defesa, nega todas acusações (leia mais ao final da reportagem).

Depósitos não identificados feitos em parcelas

jovens na casa de Saul Klein - Arquivo pessoal/UOL - Arquivo pessoal/UOL
Registro obtido por Universa mostra jovens hospedadas na casa de Klein; ele diz que elas eram contratadas para eventos e que havia contato sexual de maneira consensual
Imagem: Arquivo pessoal/UOL

No depoimento de dezembro de 2019, o empresário presta esclarecimentos sobre sua relação com uma garota que dizia trabalhar em sua casa como "modelo e cuidadora", sem carteira assinada, e tentou obter uma indenização por meio de um processo trabalhista que acabou arquivado. Na denúncia, ela também relatava ter sido submetida a uma série de abusos sexuais e psicológicos por Saul Klein.

O empresário foi convocado a depor sobre a validade de um contrato de confidencialidade entre a jovem e ele, em que se comprometeria a pagar R$ 800 mil reais em troca de silêncio e discrição sobre os fatos vividos dentro de suas casas.

Alguns pagamentos chegaram a ser feitos, em parcelas, por meio de depósitos em dinheiro sem identificação do autor, mas, depois de alguns meses, foram interrompidos. À Justiça, Klein alegou ter sido enganado por advogados que forjaram sua assinatura no documento e obteve vitória em primeira instância.

No depoimento, o empresário afirma ter namorado a denunciante — ela e sua família negam o relacionamento. Hoje, ela diz passar por tratamento psiquiátrico e médico e tem dificuldades para manter uma vida normal desde que deixou de frequentar as casas de Klein.

O segundo vídeo mostra Klein prestando esclarecimentos em uma ação cível movida por duas jovens contra ele, em janeiro de 2020. Ambas alegam ter vivido a rotina de abusos sexuais que 32 mulheres relatariam ao Ministério Público de SP quase um ano depois.

Assim como a vítima do outro processo, elas também assinaram contratos nos quais aceitaram receber R$ 800 mil para manter sigilo sobre as situações vividas nas casas do empresário. A ação discutiu a validade dos contratos, e o empresário prestou depoimento sobre a estrutura que manteria dezenas de mulheres em suas propriedades todas as semanas.

"Eram festas onde eu recebia pessoas, jantares. Algumas vezes sim, elas trabalharam nas festas, como recepcionistas", disse Klein, em depoimento obtido por Universa. "Nunca assinei um contrato de trabalho com nenhuma delas, elas trabalhavam para a empresa de Marta [Gomes da Silva], uma empresa de eventos. O único contrato que assinei com elas foi o dessa ação."

Vítima tinha 17 anos quando afirma ter sido abusada

Marina* (nome fictício), uma das garotas com as quais Klein assinou contrato de confidencialidade de R$ 800 mil, era menor de idade quando teria sido recrutada. Em seu depoimento, o empresário admitiu que manteve relações sexuais com a garota, mas disse que ela apresentou, ao entrar em sua casa, documento falso onde dizia ter mais de 18 anos:

Ela foi minha namorada, uma pessoa muito digna. Só descobri na hora do processo que ela era menor de idade. Para mim, era maior de idade

A juíza questiona o empresário sobre o motivo para ele ter pagado R$ 800 mil para cada uma das garotas. "Por causa do perigo delas entrarem com processo, de ela soltar minha imagem [fotos], denegrir; na verdade, eu entrei numa armadilha. Me foi apresentada uma pessoa menor de idade como sendo maior de idade; foi um golpe que fizeram [sic] em mim", responde ele.

Segundo Klein, as jovens, por meio da dona da empresa de eventos que ele contratava para realizar suas festas, Marta Gomes da Silva, teriam ameaçado divulgar fotos íntimas suas e revelar que ele teria abusado de uma menor de idade.

Ele afirma ser vítima de extorsão desde que rompeu o contrato com a empresa de eventos Avlis, de Marta Gomes da Silva, em 2019, mas nunca a denunciou. Ela é apontada por várias garotas como uma das principais responsáveis pelo suposto processo de aliciamento e pela organização do esquema que serviria aos desejos de Saul Klein.

saul klein - Reprodução/uol - Reprodução/uol
Exclusivo: em depoimento à Justiça em janeiro de 2020, Klein afirmou nunca ter pagado por sexo e que se relacionou com uma menor que mentiu a idade
Imagem: Reprodução/uol

O recrutamento, dizem as vítimas, quase sempre envolvia a promessa falsa de um emprego como modelo ou recepcionista e presença VIP em festas. E elas receberiam documentos falsos de identidade.

A organizadora de eventos Marta, segundo Klein, teria transformado sua vida, até então sem um único processo, em um inferno, como diz à juíza:

Eu tô com dez processos trabalhistas, quatro cíveis, sendo um por união estável de uma menina que era 'sapatona'

A reportagem tenta contato com Marta Gomes da Silva por meio de seus representantes legais e familiares desde dezembro de 2020, mas nunca obteve resposta

"Nunca paguei por sexo com ninguém"

Em ambos depoimentos obtidos com exclusividade por Universa, o empresário afirma que "nunca pagou por sexo com ninguém" e que também não sustentava as garotas que o processavam na esfera cível. Ele diz que namorou duas delas - uma sendo menor de idade.

Na ação trabalhista movida pelas duas garotas, Klein é interrogado pela advogada das vítimas e pela juíza sobre o cunho dessa prestação de serviço que as denunciantes alegam terem mantido com o empresário.

-- Advogada: O senhor pagava por sexo para elas, é isso?
-- Saul Klein: Não, nunca paguei por sexo com ninguém, nem com elas nem com ninguém
-- Advogada: "Então qual o motivo de o senhor estar tão preocupado com a idade delas?
-- Saul Klein: Porque [nas festas] era servida bebida alcoólica, champanhe, vinhos, e elas por serem menores de idade não podem ingerir essas bebidas

Depois, a juíza o interroga:

-- Juíza: "O senhor tinha algum tipo de pagamento, ou o senhor ajudava a sustentá-las?
-- Saul Klein: Não, não. Eu nunca dei um centavo para ela nem para nenhuma menina.

A magistrada então questiona se a relação de trabalho entre Klein e as duas mulheres que o processavam era de prostituição, de prestação de serviços sexuais. Ao que ele explica:

Todas só participavam de eventos. Se alguma gostasse de mim e quisesse levar um relacionamento, era possível. Se contar de 2009 até março de 2019, tive 18, 20 [relacionamentos]. São dez anos. Sempre sem troca financeira. Nunca exigiram nada de mim, eram meninas direitas

Mas, um ano depois, para se defender da acusação de estupro e aliciamento feita por 32 mulheres, Klein mudou seu discurso. A defesa do empresário alega que ele mantinha uma relação de "sugar daddy" com as vítimas. Ou seja, ele as sustentaria financeiramente e seria acordado com essas mulheres, as "sugar babies", que essa ajuda financeira seria retribuída com relacionamentos e serviços sexuais.

No dia 24 de fevereiro, o juiz Fábio Calheiros do Nascimento, da 2ª Vara Criminal de Barueri (SP), retirou as medidas protetivas que impediam Klein ou qualquer representante do empresário de se aproximar das primeiras 14 denunciantes e negou a mesma proteção que havia sido solicitada para as outras 18 vítimas. E também ordenou que o passaporte do acusado, retido pela Justiça desde novembro para evitar possível fuga durante as investigações, lhe fosse devolvido.

Em sua decisão, o magistrado diz: "Sendo [as vítimas] 'babies', ganha força a ideia de autonomia e, por conseguinte, perde força a de constrangimento". Por esse entendimento, a Justiça avalia até agora, portanto, que houve consentimento por parte das jovens.

Acusação de estupro de menor foi arquivada em 2020

Em meados de julho de 2019, Adriana* (nome fictício), acompanhada de sua mãe, denunciou Saul Klein à polícia por estupro. A garota afirmou ter 16 anos quando foi convidada a participar dos eventos na casa do filho de Samuel Klein por meio das redes sociais, em 2018, por um intermediário chamado "San".

Ao registrar a ocorrência, ela narrou ter sido violentamente estuprada pelo empresário na casa dele Alphaville, em Barueri (SP), com penetração anal forçada na frente de várias outras mulheres. Foi à polícia acompanhada da mãe e de uma segunda garota que testemunhou. Foi aberto um inquérito policial.

No curso da investigação, Adriana mudou a versão. Disse que, atraída pelo dinheiro oferecido, apresentou identidade falsa na qual dizia ter 18 anos. E disse que manteve relações sexuais consensuais com Saul Klein. Com a nova versão do depoimento, o próprio Ministério Público pediu, em setembro do ano passado, o arquivamento do caso.

A reportagem tentou entrar em contato com Adriana, mas ela não respondeu até a publicação desta reportagem.

Outro lado

O processo instaurado pelo Ministério Público de São Paulo, em novembro, está na fase do inquérito policial e da coleta de depoimentos. Vítimas e testemunhas estão sendo ouvidas pela polícia.

O MP aponta a possibilidade de Klein ter cometido nove crimes: tráfico de pessoas, estupro, estupro de vulnerável, favorecimento da prostituição ou de outra forma de exploração sexual de criança ou adolescente ou de vulnerável, mediação à satisfação de lascívia (induzir alguém a satisfazer os impulsos sexuais de outra pessoa) favorecimento da prostituição e exploração sexual e manutenção de casa de prostituição (com possibilidade de aumento de pena de 1/3 a 2/3 por transmissão de infecções sexualmente transmissíveis) e falsificação de documentos públicos. As penas para esses crimes vão de um a 15 anos de reclusão, com aplicação de multa em alguns casos.

A Universa, o advogado de Saul Klein, André Boiani e Azevedo, nega as acusações de crime sexual contra seu cliente. Ele afirma que o empresário teve contato com diversas jovens nos últimos anos e que se relacionou com algumas delas, mas que era uma relação de "sugar daddy", por meio da qual se "mantém um pagamento, mas não por sexo, [em que ele] sustenta, trata todas como namoradas, essa é a verdade em relação ao Saul".

Sobre Klein não ter mencionado esse termo antes, Azevedo afirmou que não é "do palavreado dele". Diz, ainda, que nunca houve pagamentos diretos às moças por parte de Klein, pois isso seria intermediado pela agência contratada. A empresa é a Avlis.

"Saul sabia que contratava moças de uma empresa para estarem nos eventos, e elas saberiam que poderia haver aproximação sexual, mas que não seria obrigatório. Nada do que se diz em termos de violência, de obrigatoriedade, de coação, ele participou", afirma Azevedo. "Como regra, ele pagava para a empresa para que elas estivessem no local. Era questão de terem afinidade e elas terem interesse nisso [em ter relação sexual com ele]. Isso resultava em presentes, em um relacionamento mais amistoso entre ele e as moças."

Sobre a investigação relacionada ao crime de estupro arquivada em 2019, citada nesta reportagem, afirma: "A moça dizia que era menor de idade, mas no inquérito ficou demonstrado que isso era mentira e que ela apresentou um RG falsificado. Ouvida novamente, falou que não houve nada forçado, que o documento era providenciado pela agenciadora. Existiu uma demonstração clara da necessidade de arquivar o inquérito."

Em relação às acusações atuais de que Klein se relacionaria com menores de idade, o advogado diz que a agência de eventos contratada por seu cliente enviava documentos falsos e que as denúncias contra seu cliente são parte de uma tentativa de extorsão da dona da Avlis, Marta Gomes da Silva, após ela ter seus serviços dispensados em 2019. Klein, no entanto, como mostra o depoimento obtido por Universa, diz que não registrou denúncia de extorsão contra Marta.


Como denunciar violência contra a mulher

Mulheres que passaram ou estejam passando por situação de violência, seja física, psicológica ou sexual, podem ligar para o número 180, a Central de Atendimento à Mulher. Funciona em todo o país e no exterior, 24 horas por dia. A ligação é gratuita.

O serviço recebe denúncias, dá orientação de especialistas e faz encaminhamento para serviços de proteção e auxílio psicológico. O contato também pode ser feito pelo Whatsapp no número (61) 99656-5008.

Também é possível realizar denúncias de violência contra a mulher pelo aplicativo Direitos Humanos Brasil e na página da Ouvidoria Nacional de Diretos Humanos (ONDH), do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH).

Mulheres vítimas de estupro podem buscar os hospitais de referência em atendimento para violência sexual, para tomar medicação de prevenção de ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), ter atendimento psicológico e fazer interrupção da gestação legalmente.

* Colaboraram Camila Brandalise e Lígia Mesquita