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Pocah sobre abstinência sexual: Amigas solteiras estão subindo pela parede

Pocah lança a música "Depois da quarentena" - Rodolfo Magalhães/Divulgação
Pocah lança a música "Depois da quarentena" Imagem: Rodolfo Magalhães/Divulgação

Luiza Souto

De Universa

08/07/2020 04h00

Isolada em casa com o namorado, o produtor de eventos Ronan Souza, a funkeira Pocah, 26, resolveu tirar um sarro com as amigas que andam reclamando de abstinência sexual por causa da quarentena: a artista as apelidou de "mulheres-aranha", numa alusão ao personagem da Marvel que sobe pelas paredes.

"Tenho meu boyzinho, então está tudo bem por aqui", ela ri para em seguida explicar que a brincadeira deu vida à música "Depois da quarentena", que acaba de lançar e já alcançou 3,3 milhões de visualizações no YouTube em duas semanas.

No funk, a cantora de Queimados (RJ), uma das regiões com o maior número de contaminados pela covid-19, prevê problemas quando o isolamento acabar, já que muita gente vai querer tirar o atraso. "Nem com guindaste sai de cima", ela sugere na canção.

Sem cerimônias para falar sobre intimidades, a funkeira que já cantou letras como "Ninguém manda nessa raba" e levou seus shows para os Estados Unidos e a Europa, conta como usa a criatividade para apimentar a relação, mas avisa que nem tudo é sexo.

Mãe de uma menina de quatro anos, a artista, que foi vítima de relacionamento abusivo e ouve propostas sexuais desde o início da carreira, diz não querer ver a filha passando pela mesma experiência: "Tenho que prepará-la para o mundo".

Como foi a composição da música "Depois da Quarentena"?

Num momento como esse, de quarentena, a gente aproveita para conversar com as amigas de infância, e fico ouvindo relatos das solteiras, dizendo que estão subindo pelas paredes. Comecei a brincar, chamando elas de mulheres-aranha. E tudo dá música no final. Então fiz em cima da abstinência sexual das solteiras, porque tenho meu boyzinho, então está tudo bem por aqui. Estou homenageando as solteiras. É bom que, quando elas pegarem um boy, eles que lutem. Nem guindaste tira de cima. Já eu vou fazer uma quarentena inversa e ficar na rua trabalhando até sentir saudade da minha casa.

Já fizeram propostas achando que, por você cantar funk, teria também o corpo à disposição?

Já. Desde os 16 anos, quando comecei na carreira. Mas não precisei subir em ninguém nem usar ninguém para chegar onde cheguei. Sei que tem caminhos mais fáceis, mas preferi os mais longos, sem precisar me vender. Meu pai era porteiro, minha mãe empregada doméstica, e hoje eles não precisam trabalhar. Foi sofrido, passei necessidade, mas, com meu trabalho, conquistei bens e não passo mais dificuldade.

Que tipo de machismo você ainda enfrenta hoje?

O machismo é frequente. A gente precisa se estruturar para saber lidar. Tem contratante que quer ditar a roupa que eu deveria usar em show. Não é assim que funciona. Se quiser usar calça comprida, eu uso. É o meu momento. É uma escolha minha e não deve ser ditada, muito menos por um homem. O que eu faço, no meu dia a dia, é ensinar o que sei da melhor forma possível aos meus amigos sobre como falar e respeitar a mulher. São poucas as pessoas que aprendem no grito.

Nas suas músicas, você sempre fala sobre a importância da mulher se posicionar. Como aprendeu sobre o feminismo?

Meu primeiro exemplo de mulher independente foi minha mãe, que sempre trabalhou muito, desde criança. Foi ela que me ensinou a correr atrás dos meus sonhos e batalhar duramente. Ela não comprava nada para ela, nem reclamava. Só se importava em deixar a geladeira cheia e os filhos bem vestidos. Meus pais sempre me apoiaram e conversaram abertamente sobre tudo. Tenho amigas da minha idade que não têm essa abertura com os pais e sentem falta. Mas me descobri feminista mesmo após o nascimento da minha filha. Minha percepção ali foi a de que não tinha que aturar ninguém querendo mandar na minha vida e tomar as rédeas por mim.

E o que você já consegue passar para sua filha para que ela já comece a ter essas noções?

Na idade dela, não dá para falar muita coisa, mas vou devagar. Falo sobre o corpo dela, para tomar cuidado, ensino ela a se proteger e a me contar tudo. Assim que a Vitória aprendeu a falar, comecei a ensinar para não deixar ninguém tocar nela. E, se isso acontecer, para gritar. Tenho muito medo de abuso. É delicado, mas necessário falar.

Se pudesse, colocaria minha filha numa bolha. Mas não posso, então tenho que prepará-la para o mundo.

Por quais abusos você passou?

Sofri um abuso uma vez, de um familiar, aos cinco anos, e só tive noção do que aconteceu muitos anos depois. Contei para minha mãe, que ficou horrorizada, mas já tínhamos nos afastado dessa pessoa. Minha mãe também sofreu abuso. E vivi um relacionamento abusivo. A pessoa controlava minha roupa e me proibia de fazer amizades. Também controlava meu dinheiro e me tirou bens materiais sem meu consentimento. Fui traída, e ele falava que era coisa de homem. Ainda dizia que, se não ficasse com ele, não ficaria com ninguém. Por causa do trauma, passei três anos sozinha, depois que terminei essa relação. Achei que todos os homens iam me agredir porque fui agredida psicológica e fisicamente. Hoje estou num relacionamento saudável.

Como saiu desse relacionamento abusivo?

Tentei sair diversas vezes. Minha mãe me alertava, e minha família sofreu junto comigo. Mas a gente fica cega, acha que a pessoa vai mudar. Não muda. É muito difícil. A saída é você ser forte. Prometi pela minha filha, pelo bem da minha família e pela minha saúde mental que ia sair. E ler relatos de outras mulheres que deram a volta por cima me deu muita força. Fiquei mal, depressiva por um mês, mas me apeguei a Deus, à minha família e aos amigos, aqueles de quem me afastei por conta do relacionamento. Tinha pânico de ficar sozinha. Depois, transferi o foco para meu trabalho. Me vi recomeçando do zero, com uma filha nos braços. Mas estou aqui, bem, e com uma pessoa que me ama e tenho uma carreira bem-sucedida.

Você está morando com o Ronan. Como ter criatividade no relacionamento durante a quarentena?

A gente se reinventa com brinquedinho novo ou lingerie. Faço compras online de produtos de sex shop e peço para ele escolher a cor das peças íntimas. Amamos nossa intimidade, mas não é só sexo. A gente é sócio, trabalha junto, mas não deixamos os problemas profissionais passarem da porta. Fica tudo lá fora. Aqui dentro é a Viviane e o Ronan. Somos muito parceiros. Brigamos como qualquer outro casal, mas está sendo gostoso. Zeramos todo o catálogo de filmes e estamos nos reinventando, mas de forma natural. A gente respeita o espaço um do outro e o segredo é esse. Cada um sabe seu limite.

E como é cuidar de uma criança por 24h?

Está sendo bom para a gente se conhecer mais. Sempre trabalhei muito. Voltei aos palcos um mês após minha filha nascer. Lutei muito para dar a maior atenção possível a ela no meio dessa correria. Hoje, faço dever com ela, assisto às aulas da escola, inventamos brincadeiras. Às vezes, ela fica triste porque não tem crianças para brincar, quer ver primos e amigos, ir ao shopping, pergunta todo dia quando isso vai acabar. Isso me deixa triste também. Mas ela é esperta. Um dia desses, vimos na televisão a notícia do ciclone que teve no Sul e ela falou: "Mãe, é uma coisa atrás da outra. Não vai acabar nunca?". Aprendo muito com ela.

Você se cobra para manter o corpo dito padrão?

Não gosto dessa cobrança com a gente mesma. Tenho fases. Já fiquei super fit, dedicada, fiz dieta, mas agora não estou treinando nem nada. Como tudo o que vem pela frente. A gente tem que respeitar nosso corpo e nosso momento. Pouco antes da quarentena, estava treinando, conquistei o corpo que nunca tive, definido. Mas as academias fecharam e fazer aeróbico em casa não estava mais funcionando. Fui cuidar da minha saúde mental. Sei que não vamos ficar com tudo em cima para sempre.

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