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Me livrei do meu agressor: elas contam como deram fim à violência doméstica

Andrea se libertou de um relacionamento abusivo após dez anos de casamento - Arquivo pessoal
Andrea se libertou de um relacionamento abusivo após dez anos de casamento Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Souto

De Universa

22/06/2020 04h00

Andrea, Carol, Nina, Renata e Maria são de cidades, idades e origens distintas. Embora nunca tenham se encontrado, a história de violência doméstica que cada uma enfrentou e as artimanhas que seus agressores usaram para machucá-las se entrelaçam como se estivéssemos falando de uma mesma vítima.

Há uma justificativa para essa percepção: pesquisas apontam que os casos de violência doméstica carregam muitas semelhanças, como o fato de o homem agressor se sentir impotente por não conseguir manter uma boa posição social ou não ter um emprego adequado. E o consumo de álcool pelo agressor como fator de risco para violência.

Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina analisaram o perfil de homens envolvidos em situações de violência contra mulheres ("O que se sabe sobre o homem autor de violência contra a parceira íntima: uma revisão sistemática"), a partir de 33 artigos internacionais publicados sobre o tema. Além dessas semelhanças entre os agressores, notaram que a vítima tende a subestimar a violência diante das promessas do companheiro de não cometer mais agressões, da falta de condições materiais para um recomeço, da vergonha e da falta de apoio da família.

Mas, se as histórias reunidas aqui, carregam tristes semelhanças entre os agressores e as vítimas, há também uma coincidência boa: as cinco se livraram dos seus algozes e, sob a condição de não revelarem seus sobrenomes e os nomes dos agressores, contaram a Universa como conseguiram escapar do ciclo de violência.

"Decidi que não teria mais medo"

Cinco mulheres contam como se livraram do agressor: Há vida após violência - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Andrea viveu num relacionamento abusivo por dez anos
Imagem: Arquivo pessoal

Andrea, 46, cabeleireira e depiladora, de Osório (RS)

"Tinha 29 anos quando me casei. Eu trabalhava num salão de beleza quando o meu então futuro marido apareceu para fazer umas vendas. Falou que frequentava a igreja. Pareceu mesmo ser uma pessoa de Deus, um querido. Trocamos telefone e logo marcamos um encontro.

Fomos morar juntos rapidamente e, só então, percebi que ele bebia mais do que deveria. Uma vez, peguei um filhote de cachorro para cuidar. Ele bateu tanto no animal que o bichinho morreu. Fiquei com medo. Mas pensei: 'Foi a bebida. Ele vai mudar'.

Não demos conta de pagar aluguel e fomos morar na casa da minha mãe. Ele começou a tratar as pessoas mal. Um dia, decidi que não queria mais ficar com ele e o mandei embora. Mas ele ligou para meus amigos, familiares, falou que estava arrependido de tudo, que era a novidade do casamento, pediu uma chance. Eu dei. Saímos da casa dos meus pais e fomos viver nossa vida em Imbé, no litoral gaúcho.

Vivíamos nos mudando, eu bancando tudo, e ele seguiu sendo grosseiro comigo na frente das pessoas. Me chamava de ridícula, falava que ninguém ia gostar de mim, que eu tinha que agradecer por ele estar comigo. E vieram as agressões. Ele chegou a deixar meu braço roxo, trabalhei com o dedo torcido. Eu fazia o jantar, ele reclamava que alguma coisa não estava legal e jogava a comida longe.

Aquilo me envergonhava e fui me fechando para a vida. Não me arrumava, engordei muito, não tinha mais vaidade. E me afastei das pessoas para que ninguém soubesse o que eu estava passando.

Acho que os agressores conseguem criar em você uma dependência deles. É como se a vítima tivesse a vida dela sequestrada e ainda tentasse tratar o algoz bem para ele não fazer pior

Sofri dois abortos. O segundo foi durante uma mudança. Ele me fazia carregar peso e falava que eu estava grávida, não doente. E acabei perdendo a criança. Um dia, ele disse que eu não prestava nem para lhe dar um filho. E, naquele momento, eu falei: 'Você não tem o direito de mexer nessa área'. Nunca mais pensei em ser mãe.

A partir daquele dia, me permiti conhecer outras pessoas. Recebia muitos elogios em páginas de conversa pela internet, percebi que não era ridícula como ele falava. Foram três meses me preparando para sair desse relacionamento.

No dia em que avisei que ia me separar, cheguei em casa e disse: 'Estou te comunicando que a partir de hoje não sou sua mulher'. Ele riu. Ainda tentou dormir no mesmo quarto que eu. Não deixei.

Ele demorou ainda sete meses para sair da casa. Passou a implorar que eu ficasse com ele de novo. Mas eu já estava resgatando quem eu era antes de conhecê-lo. Mudei as roupas, comprei maquiagem, cuidei mais de mim.

Antes de sair da casa, ele ainda mirou o punho fechado para me dar um soco. Olhei bem nos olhos dele e mandei bater. Decidi que não teria mais medo. Ele recuou e na hora liguei para meu irmão, que o expulsou.

Às vezes, ouço mulheres falando que quem passa pelo que eu passei é sem vergonha. Ao contrário: é por excesso de vergonha que a gente não abre para a família e a sociedade o que acontece

Depois de dez anos vivendo tudo isso, escrevo textos e compartilho nas redes, procuro ajudar outras mulheres. Falo da minha experiência em grupos e com colegas de trabalho.

Sou uma mulher muito melhor porque passei a me colocar como a principal pessoa da minha vida. Tive outros relacionamentos maravilhosos. O atual me trata com admiração e respeito. Às vezes, paro e penso: 'Existe vida após a violência doméstica'."

elas contam como se livraram do agressor - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Carol diz que tinha orgulho de falar que era casada
Imagem: Arquivo pessoal

"Hoje dou risada e faço sexo de qualidade"

Carol, 34 anos, escriturária administrativa, de São Paulo

"Conheci meu agressor em um aplicativo de relacionamentos quando tinha 27 anos. Estava realmente a fim de ter alguém na minha vida, uma relação estável. Já tinha uma filha, hoje com 14 anos.

Ele é técnico de enfermagem e perdeu o emprego com poucos dias de relacionamento. Passei a bancar nossos passeios, e ele me dizia que, quando voltasse a receber, me faria um almoço. Esse dia chegou, e foi a primeira vez que o vi drogado, na casa dele. Eu me assustei, mas sempre temos a impressão de que vamos conseguir mudar o cara.

Em dois meses estávamos morando juntos no meu apartamento. E, a partir daí, foram inúmeras internações para ele se tratar. Ele sumia três, quatro dias, gastava todo o dinheiro, destruía o carro. Cansei de comprar som, consertar o carro batido, pagar multa...

Foram idas e vindas durante sete anos. A gente sempre tem a esperança de que tudo vai dar certo. Por isso, você nem conta o que está passando para as pessoas. E também para não ser julgada. E aí você vai sobrevivendo.

No fim, você enxerga que está fazendo tudo, e a pessoa absolutamente nada. Sem perceber, seu corpo e sua alma estão doentes. Você está esgotada

Eu tinha muito orgulho dele, da profissão dele. Achei que, se eu fizesse tudo certinho, as coisas melhorariam, e ele reconheceria meu valor como mulher. Gostava de falar: 'Tenho marido', mesmo que ele não me completasse em diversos aspectos, inclusive na intimidade.

Mas chegou o dia em que, numa das nossas brigas, trocamos socos. Minha filha tentou me defender e recebeu um chute dele. Ela então chamou a polícia e ele ficou preso por três dias. No trabalho, dei aquela desculpa de que caí da escada.

Estou livre dele há oito meses e aprendendo a viver. Hoje, sou outra pessoa. A medida protetiva que ganhei após a agressão é a minha nova certidão de nascimento.

A mulher precisa entender que a culpa nunca é dela. E acreditar que existe saída.

Hoje, durmo uma noite inteira, dou risada, passeio, trabalho, estudo e faço sexo de qualidade. Estou ficando com um cara há pouco tempo, mas relacionamento sério não quero tão cedo.

As feridas nunca fecham. O que você precisa fazer é jamais deixar o mesmo homem ou outro reabri-las."

Observem os sinais

 Cinco mulheres contam como se livraram do agressor: Há vida após violência - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Nina decidiu cessar as agressões do marido após o nascimento do filho
Imagem: Arquivo pessoal

Nina, 48 anos, auxiliar de escritório, de Guaporé, RS

"Conheci meu ex aos 31 anos, e convivemos por oito anos. No início, era um príncipe encantado. Fazia as minhas vontades, mandava flores, era romântico. Ninguém se apaixona por alguém que sai dando soco, né?

Um dia, fomos a um baile e sofri a primeira agressão verbal. Ele me mandou praquele lugar. Nunca ninguém tinha usado aqueles termos comigo. E começaram as demonstrações de ciúme.

Aos poucos, ele foi me afastando de amigos e familiares. Essa é a primeira coisa que esse tipo de pessoa faz. Dizia que as pessoas não eram legais, que queria minha companhia o tempo inteiro. Praticamente não podia ir à rua sozinha. Ele me deixava em qualquer lugar que eu fosse e se mostrava sempre à disposição. E a gente acha essa atitude linda.

Um dia, ele me deixou na academia e aproveitei para ir a uma livraria comprar um cartão para ele. Ele viu e me ligou perguntando o porquê de estar lá. Fiquei assustada.

Brigamos muito por ciúme. Uma vez, quase pulei pela janela porque discutimos e ele quebrou o boxe do banheiro. Já quebrou também louça, móveis. Morria de medo. Mas ele chorava, demonstrando ser carente. Ia levando porque, na maior parte do tempo, nosso relacionamento era bom, carinhoso.

Malandro tem que ter lábia para se criar, né? E a gente se sente uma idiota depois

E vieram ainda as críticas por tudo que eu fazia, como se nada mais em mim fosse bom, do perfume à comida. E você já duvida de que seja capaz de algo.

Ele começou a usar o meu dinheiro também, sem eu saber. Nesse meio tempo, tivemos um filho, e a coisa complicou mais ainda. Ele não participava de nada. A gota d'água para que eu decidisse sair dessa situação foi quando cheguei em casa, após ter saído com meu irmão, e vi meu filho de três anos me xingando porque eu estava demorando.

Meu ex tem um filho adolescente de um casamento onde também houve agressão. E conseguiu jogá-lo contra a mãe do garoto. Temi que ele fizesse o mesmo com meu filho.

Nessa mesma época, meu pai morreu após um AVC, na nossa frente, no hospital, e ele sequer me deu um abraço. Esses dois episódios me fizeram começar a me preparar psicologicamente para sair de casa. Levei oito meses nessa situação. Comecei a contar tudo o que estava passando para as minhas irmãs e um amigo do trabalho. Eu tinha um apartamento onde morava antes de casar. Ele estava alugado e pedi que o inquilino saísse para eu voltar.

Com medo da reação dele, fui fingindo que estava meio dividida entre me separar ou não e não contei de toda essa movimentação. Na semana da mudança, ainda fiz sexo com ele com medo de que fizesse alguma coisa comigo e meu filho. No dia, minha família foi lá já com tudo pronto para me ajudar a sair. Não fiz nem questão de pensão para meu filho. Ainda deixei móveis e muita coisa para trás.

Ele passou a me perseguir, me agredia verbalmente na frente do meu filho. Recorri à Lei Maria da Penha para pedir medida protetiva, mas não consegui. A Justiça, para mim, não funcionou.

Hoje me pergunto como passei por isso. Estou vivendo outra vida, com meu filho, que hoje tem 11 anos.

As mulheres devem se preocupar sempre em não depender financeiramente do companheiro e pensar muito antes de ter um filho. E têm que se abrir: pra família, colegas, para quem for, porque ela é a vítima. E observar os sinais, as histórias deles, se tem algum vestígio de ter sido assim com outra."

E, se precisar, mude de cidade, mas não morra

Até nas falas eles são iguais

Renata, 37 anos, desempregada, de São Paulo

"No ano passado, eu me livrei de um relacionamento abusivo após 19 anos. Ele era extremamente manipulador, mas demorei para entender isso. Eu sempre cedia às suas vontades.

Em todas as discussões, ele falava que eu era a culpada, a descontrolada, e eu acreditava. Depois, pedia desculpas, mas era eu que mudava o comportamento para ficar com ele.

Para todo mundo, ele era o cara bacana. Éramos um exemplo de família. Temos filhos de 15 e de 5 anos. Tanto que, quando comecei a contar o que passei para as pessoas, foi um choque para todos.

Eu trabalhava com confecção, e ele era representante de vendas, mas, depois que nossa filha mais nova nasceu, ficou desempregado. E os sumiços passaram a ser constantes. Desconfiei que estava usando drogas. Quando o confrontei, confessou, mas jurou que era só uma recaída. E me convenceu a mudar para Sorocaba (a 100 quilômetros de São Paulo) para ele se tratar perto de sua família.

Lá, ele começou a trabalhar como motorista por aplicativo, mas rodava à noite e nunca tinha dinheiro. Percebi então que a mudança não estava dando certo, mas, quando falava que não o queria mais, ele iniciava uma discussão. Uma vez, arrancou a porta de casa.

Descobri traições e decidi alugar um apartamento em frente à escola das crianças. No dia da mudança, ele me mandou um áudio para me xingar de tudo quanto era nome e sumiu com meus documentos e o das crianças. Não tinha como sacar dinheiro nem para voltar para São Paulo. A família dele pediu para eu não registrar boletim de ocorrência para não prejudicá-lo.

Ele ficou quatro dias sumido, mas consegui localizá-lo. Estava com prostitutas e usando drogas. Peguei os documentos, juntei o que podia e voltei para São Paulo. Voltei cinco dias depois para pegar o material da escola do meu filho. Já no terminal de ônibus, quando viu que eu iria embora, me bateu no meio da rua e pegou meu celular. Ele estava segurando a chave do carro, e o soco deixou uma cicatriz na minha mão. Ninguém fez nada.

Meu filho mais velho não quer ouvir falar do pai. Minha filha não chama ele de pai, mas "aquela pessoa". Hoje ele não paga pensão e não sabe onde moro. Tenho medo.

Pedi na Justiça a guarda das crianças e o meu carro de volta, porque ficou com ele. Mas começou a pandemia provocada pelo novo coronavírus, e o processo está parado. Trabalhei como recepcionista de restaurante até o final de março, e hoje estou desempregada, recebendo auxílio emergencial. Ele causou tanto mal na nossa vida que ainda estou tentando tratar minhas dores e a dos meus filhos."

Passei a fazer parte de grupos de apoio a mulheres vítimas de violência. E percebi, pelas histórias, que até nas falas eles são iguais

Foco no trabalho

Cinco mulheres contam como se livraram do agressor: Há vida após violência - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Maria mudou de Estado para ficar longe do ex
Imagem: Arquivo pessoal

Maria, 40 anos, serviços domésticos, de Tauá (CE)

"Vivi cinco anos num relacionamento abusivo. Conheci meu ex no bairro onde morávamos e, em pouco tempo, fomos viver juntos. Ele é serralheiro e, como estava difícil arrumar emprego no Ceará, nos mudamos para Santa Catarina. Tenho irmãos morando lá.

Desde o início, sabia que ele bebia, mas o consumo aumentou depois que nos mudamos. Quando engravidei, descobri ainda que ele era dependente de cocaína. E começou a se mostrar agressivo. Ele me menosprezava, quebrava tudo em casa e me chamava de tudo quanto era nome. E ainda arrumava confusão com pessoas que falavam comigo na rua, por ciúme.

Até então, a gente pensa que a pessoa vai mudar. O agressor faz aquele show, pede desculpa, mas não adianta

Quando o neném nasceu, ele disse que ia parar com as drogas. Até conseguiu, por dois anos, mas teve recaída. E como eu estava longe de casa, não queria falar para a família o que estava acontecendo.

Quando nosso filho completou três anos, durante uma discussão, meu ex apertou o pescoço da criança. Foi horrível. Nesse dia, ele saiu de casa e, antes de bater a porta, falou: 'Espera só o que vou fazer com você'.

Resolvi dar um basta. Fui fazer boletim de ocorrência. Pedi medida protetiva, mas falaram que eu tinha que provar as agressões e não fizeram nada. Acho que esperam você morrer para agir. Também pedi, na creche, para não deixarem mais ele buscar a criança, mas a escola disse que só podia fazer isso se somente eu tivesse a guarda do meu filho. Parei de levá-lo lá.

Resolvi voltar para o Ceará. Raramente, ele liga para o filho, hoje com seis anos. Eu também não quero ter vínculo. Hoje estou focada no trabalho, e ainda não consigo ter uma relação com alguém, por falta de confiança. Mas estou longe dele."

Eu sei que muitas mulheres não têm para onde ir, como eu tive. Mas, se puderem, aconselho procurar uma casa de apoio e sair logo disso.

Violência contra a mulher