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"Minha irmã enfrentou leucemia e covid, mas não resistiu a uma bactéria"

A jornalista Letícia Sepúlveda e sua irmã Christianne - Arquivo pessoal
A jornalista Letícia Sepúlveda e sua irmã Christianne Imagem: Arquivo pessoal

Letícia Sepúlveda

Colaboração para Universa

17/06/2020 04h00

Um jornalista normalmente reporta fatos externos a ele. Mas, em ocasiões especiais, a realidade se impõe e ele pode acabar por escrever sobre a própria história. A repórter Letícia Sepúlveda acompanhou, de perto e durante anos, a luta da irmã, Christianne, contra a leucemia com que foi diagnosticada três vezes.

Letícia conta aqui a história da irmã, que também é dela.

"Quando minha irmã tinha por volta de três anos, pediu para nossos pais uma irmã. Pouco tempo depois, eu nasci. Nossa mãe, como excelente pedagoga, deu a ela uma boneca, para que se acostumasse a ter uma bebê em casa. Ela a chamava de Maria, ou melhor, "Malia". Quando eu cheguei em casa, a coitada da Malia foi para escanteio e minha irmã não me largou mais.

Mas, aos 12 anos, em 2005, foi Christianne quem passou a precisar de muitos cuidados. Ela foi diagnosticada com LLA (Leucemia Linfóide Aguda), tipo de câncer mais comum na infância. A doença não é hereditária e ainda não possui causas conhecidas. Ocorre quando as células-tronco, que dão origem aos componentes do sangue, sofrem alterações e param de funcionar corretamente.

De acordo com a Sociedade Americana de Câncer, o risco de desenvolver LLA é maior entre crianças de até cinco anos. Depois, as chances caem lentamente até a faixa dos 20 e voltam a aumentar após os 50.

O Instituto Nacional do Câncer (Inca) e o Ministério da Saúde estimam que o número de novos casos de leucemia esperados no Brasil, para cada ano do triênio 2020-2022, será de 5.920 casos entre homens e 4.890 casos entre mulheres.

Minha irmã enfrentou três anos intensos de quimioterapia, perdeu o cabelo e pouco frequentou a escola. Mas, em 2007, alcançou a remissão completa da doença.

No ano seguinte, Christianne celebrou a vitória em sua festa de 15 anos. Aquele não foi um baile de debutante comum, era também uma ação de graças. Na época, eu tinha 11 anos e homenageei minha irmã cantando um trecho da música "Azul da Cor do Mar", de Tim Maia, como tinha feito anos antes, quando ela enfrentava mais um ciclo difícil de quimioterapia.

A segunda vez

Aos 17 anos, logo depois de concluir o ensino médio, Chris realizou o sonho de ingressar na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Lá, se formou engenheira de produção. No quarto ano da graduação, embarcou para Itália, onde fez a dupla diplomação e um mestrado na área.
Viajou o mundo ao lado de vários amigos e do Marcel, seu amor. Viajou por toda Europa, Foi da Finlândia às ilhas gregas. Adorava viajar.

Voltou ao Brasil em 2016 para ingressar no mercado de trabalho, mas, no ano seguinte, descobriu que a leucemia batia à porta novamente. Em novembro de 2017, voltou a enfrentar os já conhecidos ciclos de quimioterapia. Desta vez, o transplante de medula óssea foi o procedimento mais indicado para combater a doença.

No início de 2018, Chris entrou para o grupo de pacientes em busca de um doador. De acordo com o Redome (Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea), cerca de 850 pacientes aguardam pela doação e mais de 5 milhões de pessoas já se cadastraram no sistema como possíveis doadores.

No entanto, a questão da compatibilidade não é tão simples. Para que o transplante seja feito de maneira segura, um conjunto de genes encontrados no cromossomo 6 devem ser idênticos ou muito semelhantes entre as duas pessoas. Caso contrário, a nova medula será rejeitada. Em 2018, foram feitos 380 transplantes não aparentados (quando doador e receptor não são da mesma família).

Existe uma chance muito maior de o paciente achar uma pessoa compatível na própria família do que aleatoriamente pelo sistema do Redome. Infelizmente, Chris não achou um doador 100% compatível. Por conta disso, minha mãe, com compatibilidade semelhante, se tornou sua doadora e lhe deu a vida pela segunda vez.

O transplante e a promessa

Christianne - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Christianne, cercada pela boneca Maria e pela irmã bebê, Letícia
Imagem: Arquivo pessoal

Em abril de 2018, minha irmã recebeu a nova medula. O processo de "pega" (que consiste na adaptação do corpo à medula doada) não foi simples. É muito comum que o paciente sofra algumas intercorrências. A Chris enfrentou uma infecção bacteriana e o acúmulo de água no pulmão e no coração.

Nossa mãe prometeu para Nossa Senhora de Fátima que, se a medula "pegasse" e minha irmã sobrevivesse, iríamos ao santuário dela, em Portugal. A medula da Chris "pegou" bem no dia 13 de maio, dia da santa. Foi a maior alegria que já sentimos.

Mas, antes de voltar para casa, minha irmã ainda travou mais uma batalha. Por conta do pulmão debilitado, precisou entrar em coma induzido. Ao todo, foram cerca de 90 dias na UTI durante o processo de "pega" da medula até a alta.

O período pós-transplante é cheio de cuidados. O paciente enfrenta várias restrições por conta das defesas reduzidas, mas a Chris nunca se deixou vencer.

Ela adorava dançar, sair com os amigos e dar muita risada. Nunca deixou de planejar viagens com a nossa família e com o Marcel. Teve a sorte de encontrar um amor verdadeiro. Naquele ano, ela e o namorado decidiram que iriam se casar.

Em maio de 2019, embarcamos para Portugal para cumprir a promessa de minha mãe. Como sempre, a Chris fez questão de conhecer o máximo de cada cidade em que passamos. Às vezes, eu ficava cansada e pedia para ela ir mais devagar. Eu não conseguia acompanhar seu ritmo.

A terceira leucemia

Em dezembro do ano passado, minha irmã foi internada com sintomas de virose. Mas, depois de alguns exames, descobrimos que a leucemia estava batendo à porta pela terceira vez.

Os médicos optaram por um tratamento alternativo, para tentar fortalecer a medula que foi doada. Nunca vou me esquecer de como a Chris ficou frustrada com esse terceiro diagnóstico, mas, mais do que isso, tento não me esquecer de como ela permaneceu forte.

Em abril deste ano, enquanto estava internada tratando a leucemia, minha irmã pegou o coronavírus. Ficou quase 40 dias em isolamento no hospital e demorou para apresentar os sintomas da doença.

Toda noite eu rezava para que ela voltasse para casa. E, bem no dia 13 de maio, ela voltou. Comprei um balão azul, sua cor favorita, para recebê-la. Naquele dia, também cantamos parabéns para comemorar o segundo ano da nova medula.

A Chris conseguiu se curar do coronavírus e passou cinco dias em casa com a família. No entanto, na noite de 17 de maio, ela passou mal e fomos correndo para o hospital. Depois de alguns exames, descobrimos que ela estava com uma infecção bacteriana e que precisaria ser internada novamente.

Com o sistema de defesa debilitado, a bactéria se espalhou rapidamente. Ela foi intubada e os médicos estavam esperando uma melhora no quadro para tentar uma hemodiálise, que, infelizmente, não foi possível. Na noite de 19 de maio, minha irmã partiu, aos 26 anos.

Eu sei que ela não queria ir. E que ela lutou até o fim. Acredito que minha irmã pode ser uma inspiração para muitas mulheres. Quando penso nela, me lembro de como sua força me faz querer ser forte também.

A luta pela vida e a busca inabalável pela cura foram as lições mais lindas que minha irmã me deixou. Mesmo com a saúde tão frágil, ela nunca parou de fazer planos, nunca perdeu a positividade ou deixou de sorrir.

A Chris continua em mim."

Saiba mais:

Como se tornar um doador de medula óssea?

Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia

Graac - Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer

Tucca - Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer

Minha história